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    Milhares de brasileiros que moram em Portugal e não têm cadastro no Sistema Nacional de Saúde (SNS) enfrentam dificuldades para ser vacinados contra COVID-19. Apesar de o governo português não revelar o número certo, sabe-se que cerca de 30 mil estrangeiros nesta situação aguardam a vacina. 

    Sputnik Brasil questionou os ministérios da Saúde e da Presidência a respeito de quantos dos 30 mil imigrantes são brasileiros. Após um jogo de empurra entre ambas as pastas, nenhuma das duas forneceu os dados. 

    O Ministério da Saúde informou apenas que, até o dia 5 de julho, Portugal vacinou cerca de 160 mil cidadãos de nacionalidade estrangeira, originários de cerca de 200 países. Segundo a nota enviada à Sputnik Brasil, o Brasil é o país com mais cidadãos vacinados, num total de 65.434.

    Esse número é apenas a metade dos 121 mil brasileiros com idades de 30 a 54 anos, que já estão aptos a ser vacinados desde junho. Contudo, essa quantidade inclui apenas aquelas pessoas regularizadas no SNS (equivalente ao SUS).

    A gaúcha Maria Clarice Nunes, de 61 anos, tenta conseguir o número de utente provisório (paciente do SNS) há quatro meses, desde março, quando o governo criou uma plataforma para estender a imunização a imigrantes sem esse cadastro. O autoagendamento para faixas etárias acima de maiores de 60 anos começou em maio. 

    A gaúcha Maria Clarice Nunes, de 61 anos, tenta tomar a vacina há meses
    © Foto / Divulgação
    A gaúcha Maria Clarice Nunes, de 61 anos, tenta tomar a vacina há meses

    Desde então, seu filho, Vagner Nunes, começou uma saga, sem sucesso, para tentar vaciná-la. Depois de ter enviado, por diversas vezes, os dados da sua mãe solicitados na plataforma (nome, data de nascimento, nacionalidade, telefone e endereço) e sem receber nenhuma resposta por mais de dois meses, ele tentou contatos por telefone e e-mail, sempre com respostas imprecisas e desencontradas.

    "Começou a vacinação, vi o presidente e o primeiro-ministro falarem que ninguém seria excluído por se tratar de uma situação humanitária. Logo que vi essa notícia, a primeira coisa que fiz foi entrar no site do SNS e cadastrá-la na opção para quem não tinha número de utente. Passou um mês e nada. Liguei para o SNS 24 horas, e disseram que eu tinha que mandar um e-mail para reportar a situação", conta Nunes à Sputnik Brasil.

    O primeiro e-mail enviado ao atendimento@sns24.gov.pt narrando as dificuldades foi no dia 31 de maio. Apenas no dia 21 de junho ele recebeu uma resposta padrão, sugerindo contatar o centro de saúde da área de residência ou o telefone do SNS 24. Dois dias depois, ele enviou outro e-mail, ainda não respondido.

    'Praticamente fomos expulsos do centro de vacinação'

    Ele tentou, então, levar sua mãe ao Complexo Desportivo de Almada, a menos de 10 quilômetros de Lisboa, sob a indicação do SNS 24 que na faixa etária dela não era preciso mais agendamento.

    "Um funcionário que estava organizando a fila disse que sem número de utente não se vacinava, e que a informação estava errada. Praticamente fomos expulsos de lá", lamenta.

    Nunes apelou para as redes sociais e fez um post em uma comunidade de apoio a brasileiros no Facebook perguntando se alguém havia conseguido se vacinar sem o número de utente. Encontrou diversos casos similares ao da sua mãe, mas poucos que efetivamente haviam conseguido a imunização sem o cadastro no SNS.

    Uma das pessoas disse que havia conseguido no centro de vacinação da Trafaria, próximo a uma estação fluvial onde se embarca para Lisboa. O gaúcho, que trabalha no setor comercial de uma escola portuguesa, levou sua mãe de carro ao local. Nova viagem perdida.

    "Perguntei à enfermeira, mas ela disse que era mentira. Pedi a um amigo que mandasse a foto de um centro de vacinação em Alcabideche que estava vacinando pessoas sem número de utente e, quando mostrei, ficaram sem saber o que dizer. Saí de lá sem respostas", reclama.

    Nesta terça-feira (6), ele disse que tentou ligar novamente para o SNS 24, mas sete diferentes atendentes, das áreas de enfermagem e administração, não souberam fornecer informações. 

    "Já liguei e me estressei de novo. Fiquei à espera da sétima pessoa, em mais de 40 minutos e desisti, porque ninguém sabia responder", reitera.

    Sputnik Brasil enviou o caso de Maria Clarice Nunes ao Ministério da Saúde, mas, até o fechamento desta reportagem, a pasta não respondeu.

    Em outro caso, denunciado pela jornalista Caroline Ribeiro em seu Twitter, uma idosa brasileira de 92 anos estava há tempos sem conseguir o número provisório de utente nem a vacinação. Após o post da ex-correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa, um funcionário do gabinete do Ministério da Saúde entrou em contato, e a idosa conseguiu ser vacinada. 

    ​Casa do Brasil de Lisboa recebe 10 queixas por dia

    A Casa do Brasil de Lisboa recebe uma média de dez queixas por dia de brasileiros sem o número de utente que não conseguem marcar a vacinação. De acordo com Vitor Hastenreiter, funcionário da instituição, a quantidade de reclamações vem crescendo nas duas últimas semanas, por meio de ligações e e-mails.

    "O número provisório de utente é uma reclamação constante. Não é uma questão de falta de informação, mas de falta de resposta. Há pessoas que enviaram [os dados] em fevereiro e até hoje não tiveram resposta sobre o número provisório. Se eu não tenho um número provisório, não consigo acessar o site do SNS para fazer o autoagendamento de acordo com a faixa etária", explica Hastenreiter à Sputnik Brasil.

    Longas filas para vacinação

    A semana começou novamente com longas filas em alguns centros de vacinação, sobretudo naqueles em que adotaram a modalidade "casa aberta", sem que seja necessário o agendamento. Na segunda-feira (5), isso aconteceu no Pavilhão Carlos Queiroz, no município de Oeiras, com milhares de pessoas formando uma fila que dava a volta ao centro esportivo.

    O vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, coordenador do plano nacional de vacinação, esteve no local para acompanhar o movimento e disse à Agência Lusa que o problema já era esperado, mas que vai tentar melhorar o processo.

    "Vim cá perceber o que se passava 'in loco' para ter a certeza e vou agora tomar as medidas que forem necessárias para tentar que isto não volte a acontecer, apesar de que nesta semana e na próxima a probabilidade de existirem filas seja elevada face ao ritmo de vacinação muito elevado que vamos ter", explicou Gouveia e Melo, citado pela Lusa.

    Na última semana, o autor desta reportagem da Sputnik enfrentou mais de uma hora de espera para receber a primeira dose da vacina no Pavilhão Municipal Manuel Castelbranco, no bairro da Graça, em Lisboa. A imunização estava marcada para as 11h59, mas ocorreu apenas depois das 13h00.

    Placa indica centro de vacinação contra COVID-19 em Lisboa
    © Sputnik / Lauro Neto
    Placa indica centro de vacinação contra COVID-19 em Lisboa

    Apesar de a fila ao lado de fora ter andado razoavelmente rápido, foi longo o tempo de espera no interior do centro de vacinação. As pessoas eram acomodadas em fileiras de cadeiras, e uma máscara descartável era distribuída na entrada. Após a imunização, antes de ser liberado, era preciso ficar sentado mais meia hora na área de recobro a fim de ver se haveria alguma reação adversa.

    Até o momento, 36,43% dos portugueses já estão completamente imunizados e 59,13% já receberam ao menos a primeira dose. A partir desta segunda-feira (5), pessoas com mais de 27 anos puderam começar a fazer o autoagendamento on-line.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Coronavírus no mundo no início de julho de 2021 (15)

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    Tags:
    COVID-19, vacina, vacinação, Portugal, pandemia
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