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    O deputado português André Ventura, que ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais, disse à Sputnik Brasil que admira o presidente Jair Bolsonaro e pretende se encontrar, em breve, com o seu filho Eduardo Bolsonaro. Porém, tentou se descolar do rótulo que lhe é atribuído de "Bolsonaro português". 

    "As comparações têm sempre um objetivo político de minorar e não valorizar aquilo que a pessoa é, e colá-la a um estereótipo. Tenho enormes admiração e respeito pelo presidente Jair Bolsonaro. Acho, honestamente, que, no estilo, na forma e na abordagem somos muito diferentes. Até em termos de pensamento político, temos diferenças, algumas delas significativas", afirmou Ventura, sem, contudo, explicitar quais seriam as diferenças.

    No entanto, desde as últimas eleições presidenciais brasileiras, em 2018, o político português tem feito declarações como as de que "é essa frescura de pensamento que os liberais ocidentais podiam aprender com Bolsonaro. E Portugal também, pois o politicamente correto está morto", como disse ao PT Journal em outubro daquele ano.

    Nas redes sociais, o fundador do partido português de direita Chega e único deputado eleito pela legenda em 2019, também tem trocado gentilezas com Eduardo Bolsonaro. Em setembro de 2020, ele agradeceu, pelo Twitter, "a confiança e a amizade" do deputado federal, escrevendo que em breve estariam juntos com um amigo em comum dos dois, o deputado ítalo-brasileiro Luis Roberto Lorenzato, do partido Liga Norte, liderado por Matteo Salvini, que apoiou a candidatura de Ventura.

    ​Em 25 de janeiro deste ano, um dia após as eleições presidenciais portuguesas, foi a vez de Eduardo Bolsonaro retribuir com um post no Facebook congratulando o resultado de Ventura, que ficou em terceiro lugar, com 11,9% dos votos, atrás apenas do presidente reeleito, Marcelo Rebelo de Sousa (60,7%), e da ex-eurodeputada socialista Ana Gomes (12,97%).   

    Questionado pela Sputnik Brasil qual é a relação entre ele e a família Bolsonaro, Ventura ratificou a intenção de encontrar Eduardo Bolsonaro pessoalmente, o que ainda não foi concretizado em virtude da pandemia de COVID-19.

    "Na noite das eleições e no dia seguinte, recebi várias mensagens de dirigentes políticos internacionais, a maioria deles proveniente da família política do Chega na União Europeia, mas também recebi, de fato, do filho do presidente Jair Bolsonaro, uma mensagem de congratulação. Temos conversado, e há possibilidade de termos um encontro físico e presencial. Espero que esse encontro se materialize rapidamente, seja em Lisboa, seja em Brasília ou em São Paulo", sugere.

    No entanto, o político português atribui apenas à imprensa (seja nacional ou internacional) as comparações entre o seu estilo com o de Bolsonaro, do ex-presidente norte-americano Donald Trump e de Matteo Salvini, ex-ministro do Interior da Itália, acusado de bloquear no mar 131 migrantes em julho de 2019. As declarações de Ventura foram dadas durante uma entrevista organizada pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP).

    "Só não dizem que sou a Marine Le Pen portuguesa porque sou homem e não convém fazer esse tipo de comparação. Senão, também diriam. Não me preocupo muito com essas comparações, sinceramente. Sei que, se um dia eu vencer, como espero, as eleições [presidenciais] em Portugal, também vão dizer, quando surgir um político brasileiro contra o sistema, que ele é o André Ventura do Brasil. Comparar nunca enriquece politicamente um líder", acredita. 

    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante conferência de imprensa no Palácio do Planalto, Brasília, 3 de fevereiro de 2021
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante conferência de imprensa no Palácio do Planalto, Brasília, 3 de fevereiro de 2021

    Ventura é a favor da reabertura de restaurantes

    Após as eleições presidenciais, o cientista político português António Costa Pinto, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, afirmou que se Portugal tivesse voto obrigatório como no Brasil, certamente o Chega teria alcançado 30% ou mais. Em parte, isso pode ser explicado pela abstenção recorde de 60,51%, mas também pelo perfil do eleitorado.

    Não à toa o partido tenta instituir o voto obrigatório em Portugal. De acordo com Costa Pinto, nesse crescimento da legenda, que foi criada há dois anos e elegeu Ventura como único deputado nas últimas legislativas, em 2019, é importante destacar que o Chega teve uma votação expressiva dos eleitores de classe média alta nas presidenciais.

    Questionado por Sputnik Brasil, na ocasião, se há semelhanças entre Ventura e Bolsonaro, o cientista político português, assinalou que, embora tenham origens políticas diferentes, ambos se enquadram na mesma dinâmica populista de direita radical: "Uma dinâmica ideológica baseada em um conjunto de valores, solidamente ancorados à lei e à ordem, ou anticorrupção, em recuperação do passado salazarista ou da ditadura militar."

    Apesar de Costa Pinto projetar que o Chega não vai conseguir manter o mesmo nível de votação nas eleições autárquicas, no segundo semestre, Ventura quer consolidar seu partido como a terceira força política de Portugal no pleito para câmaras e assembleias municipais e das freguesias, previsto para setembro e outubro. A estratégia dele é galgar o segundo lugar para, em seguida, chegar ao governo. 

    Ele defende que seja criado um mecanismo legal para que se possa adiar o pleito caso o contexto pandêmico esteja agressivo como agora, mas afirma que, para o Chega, um possível adiamento é indiferente em termos de impactos e resultados eleitorais. Segundo ele, na reunião de que participou com o governo e especialistas em saúde nesta segunda-feira (22), foi estimado que, em agosto, Portugal terá atingido a imunidade de grupo.

    No entanto, o deputado prevê que o estado de emergência, com medidas de confinamento, seja renovado até abril, de 15 em 15 dias, como determina a legislação portuguesa. A próxima prorrogação deve ser aprovada pela Assembleia da República nesta quinta (25). Ventura discorda do lockdown total, defendendo que algumas atividades econômicas deveriam ser flexibilizadas.

    "Achamos um erro ficar com os restaurantes completamente fechados. Esse é o maior desastre econômico desde a Segunda Guerra Mundial. Acho que o governo está a cometer erros atrás de erros", avalia. 

    Restaurante em uma rua em Lisboa, em meio às medidas de distanciamento social introduzidas no país por causa da pandemia da COVID-19, 4 de novembro de 2020
    © AP Photo / Armando Franca
    Restaurante em uma rua em Lisboa, em meio às medidas de distanciamento social introduzidas no país por causa da pandemia da COVID-19, 4 de novembro de 2020

    Durante a campanha presidencial, Ventura esteve envolvido em algumas polêmicas, como um jantar-comício com mais de 160 pessoas, no auge da crise pandêmica, promovendo aglomeração em um restaurante em Braga, no norte de Portugal, mesmo com os pareceres negativos da Proteção Civil e do delegado de saúde responsável pela região. Durante o evento, jornalistas foram hostilizados. 

    Em outra ocasião, ele disse que Marisa Matias, candidata do Bloco de Esquerda não estava "muito bem em termos de imagem, com aquele batom muito vermelho, como se fosse uma coisa de brincar". Após a declaração, a hashtag #VermelhoemBelém, em referência ao palácio presidencial, viralizou nas redes sociais. Mas a bloquista terminou a eleição com apenas 3,95% dos votos, na quinta posição.

    Deputado propôs confinamento da comunidade cigana 

    Outra marca de Ventura é identificar a comunidade cigana como um problema. Em maio de 2020, ele chegou a propor um plano específico de "abordagem e confinamento" para as comunidades ciganas diante da pandemia de COVID-19, após episódios de violência na Praia de Leirosa, a 150 quilômetros de Lisboa. 

    Em uma nota divulgada na ocasião, o deputado defendia que "o cumprimento da lei não pode ser reservado apenas para alguns, que nenhuma minoria, étnica ou racial, pode considerar-se acima da lei, e que a força pública não pode recear intervir ou agir com o eterno pretexto do racismo e da xenofobia".

    Apesar de ter procurado adotar um tom mais moderado na entrevista concedida aos correspondentes estrangeiros da AIEP, Ventura reafirmou que um dos problemas com a comunidade cigana é o excesso de subsídios que o Estado paga a ela. Outra questão, segundo ele, estaria ligada à idade com a qual as meninas podem se casar.

    "Apenas 15% da comunidade cigana vivem do seu trabalho, 85% ou quase viverão de subsídios públicos ou de uma economia paralela. Isso é muito. Para além da questão financeira, há impunidade para limitar os direitos das mulheres e crianças. As meninas são obrigadas a sair da escola quando atingem 13 anos para se casar. Isso é intolerável. A solução é a fiscalização e aplicação da lei", defende. 

    Ciganos são o alvo de grafites na Escola Secundária de Sacavém
    © Foto / Iara Sobral / Divulgação
    Ciganos são o alvo de grafites na Escola Secundária de Sacavém

    Segundo ele, há outras parcelas de segmentos sociais que recorrem bastante a subsídios estatais, mas nenhuma ao nível da comunidade cigana. Em relação aos imigrantes brasileiros, a maior população de estrangeiros em Portugal, com mais de 180 mil pessoas legalizadas, o deputado acredita que a grande maioria das pessoas procura trabalhar, pagar impostos e se integrar à sociedade portuguesa. 

    De acordo com Ventura, a pandemia afetou atividades econômicas em que havia muita mão de obra brasileira, como turismo e restaurantes, levando muitos ao desemprego. Contudo, o líder do Chega acredita que é uma situação temporária que poderá melhorar em abril, com o desconfinamento e a reabertura desses setores econômicos. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    política, eleições, Portugal, imigrantes, Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro
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