04:33 13 Maio 2021
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    A reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa como presidente de Portugal, com 60,7% dos votos no 1º turno, marcou outras vitórias simbólicas. A socialista Ana Gomes, que ficou em segundo, com 12,97%, e André Ventura, candidato do partido de extrema direita Chega, que somou 11,9%, também saem fortalecidos.

    Como Rebelo de Sousa não pode ser mais reeleito, a tendência é a de que faça um segundo mandato mais independente, descolando-se do Partido Social Democrata (PSD) e do Partido do Centro Democrático Social (CDS), ambos de direita, que o apoiaram na campanha presidencial, ainda que timidamente. 

    Da mesma forma, com a vitória, o presidente deve se sentir à vontade para, nos próximos cinco anos de governo, ser mais crítico à gestão do primeiro-ministro António Costa, do Partido Socialista (PS), que também manifestou preferência pela sua reeleição. Todos, de olho na alta popularidade de Rebelo de Sousa. Agora, um vácuo de poder pode abrir espaço para novas lideranças despontarem.

    Com máscaras e distanciamento, eleitores votam nas eleições presidenciais de Portugal
    © Sputnik / Lauro Neto
    Com máscaras e distanciamento, eleitores votam nas eleições presidenciais de Portugal

    Quadro histórico do PS, Ana Gomes não contou com o apoio do partido na sua candidatura, sendo apoiada apenas pelos pequenos Livre e PAN (Pessoas-Animais-Natureza). Ainda assim, a ex-eurodeputada tornou-se a mulher mais votada para presidente na história de Portugal, com 541.345 votos.

    Na avaliação do cientista político português António Costa Pinto, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a esquerda cometeu um erro estratégico de não se aliar à candidatura de Ana Gomes. Segundo ele, eleitores do Bloco de Esquerda (BE) migraram, em parte, para a socialista e, em parte, para Rebelo de Sousa. Com isso, Marisa Matias, candidata do BE, ficou em quinto lugar, com 3,95%, atrás de João Ferreira, do Partido Comunista Português (PCP), com 4,32%. 

    Ana Gomes, candidata à presidência de Portugal
    © Sputnik / Lauro Neto
    Ana Gomes, candidata à presidência de Portugal

    Para o professor, contudo, a grande novidade dessas eleições é a consolidação do Chega como opção à direita, ainda que radical populista, como o define o especialista. O deputado André Ventura teve quase meio milhão de votos, 44.684 (1,07%) a menos que Ana Gomes. Em entrevista organizada pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP), Costa Pinto avaliou que, se o voto não fosse facultativo no país, Ventura teria uma margem muito maior. Em parte, isso é explicado pela abstenção recorde de 60,51%, mas também pelo perfil do eleitorado

    "Até agora, o eleitorado português é relativamente elitista, com taxa de abstenção crônica, que coincide com o eleitorado mais popular, mais distante da vida política e dos partidos, que não tem identificação partidária, que acha que os políticos são todos ladrões, esses não votam. Se Portugal tivesse voto obrigatório como no Brasil, o Chega teria 30% ou mais, com certeza", diz Costa Pinto. 

    Não à toa o partido quer tornar o voto obrigatório em Portugal. De acordo com o especialista, nesse crescimento da legenda, que foi criada há dois anos e elegeu Ventura como único deputado nas últimas legislativas, em 2019, é importante destacar que o partido teve muito voto do eleitorado de classe média alta nas presidenciais.

    Para ilustrar, Costa Pinto, que é também professor de Política e História Contemporânea Europeia no ISCTE, dá o exemplo da votação na Estrela, bairro onde mora em Lisboa. Lá, Rebelo de Sousa teve 49,87%; Ana Gomes, 15,76%; e Ventura, 15,43%.

    "É um bom escore na minha freguesia, que não tem uma base popular, onde ganhavam CDS e PSD, portanto, eleitorado da classe média alta. Esse resultado representa um segmento significativo do eleitorado de direita descontente com o Marcelo que foi votar em um partido de protesto. A base social do eleitorado do Chega já é muito transclassista", explica.

    Ventura e Bolsonaro têm dinâmica populista de direita radical, segundo professor

    O próprio Ventura deu um recado ao PSD e ao CDS na noite de domingo (24), pouco antes de o resultado final das eleições ser oficializado. Ele ficou em segundo lugar em 11 dos 18 distritos do continente, inclusive nos alentejanos Portalegre, Évora e Beja, redutos clássicos da esquerda e do PCP. Entre aplausos e gritos de sua claque, o deputado chegou a fazer um jogo de cena ensaiado, colocando seu cargo de líder do Chega à disposição por não ter conseguido atingir o segundo lugar nem os 15%, duas de suas metas.  

    "PSD, ouve bem: não haverá governo em Portugal sem o Chega, e nós seremos essa transformação enorme. Porque a força que hoje criamos é a avalanche que vai derrubar todas as barreiras nas eleições autárquicas e legislativas. Esmagamos a extrema esquerda. Não fugirei à minha palavra e devolverei aos militantes do Chega se querem ou não a continuidade deste projeto", disse Ventura. 
    O deputado português André Ventura, único eleito pelo estreante partido Chega
    © Sputnik / Caroline Ribeiro
    O deputado português André Ventura, único eleito pelo estreante partido Chega

    Na opinião de Costa Pinto, em princípio, o Chega não vai conseguir manter o mesmo nível de votação nas eleições autárquicas, no segundo semestre, transferindo os votos que teve agora. Segundo ele, o voto útil funcionará mais do que nas presidenciais. Já nas legislativas, em 2023, o especialista lembra que o cenário projetado na pesquisa feita pela RTP mostra resultados mais semelhantes aos da presidenciais. Da mesma forma, ele acredita que o partido possa crescer nas eleições para o Parlamento Europeu.

    "Essas eleições são sobre as realidades nacionais. Partidos do tipo do Chega têm uma margem de sucesso grande. A grande vantagem de Ventura é que ele não só tem um discurso, uma mensagem e um carisma populista, e tem um partido por trás. É uma enorme vantagem em relação aos líderes antigos que não conseguiram criar um partido no passado", compara.

    Questionado por Sputnik Brasil se há semelhanças entre Ventura e Jair Bolsonaro, Costa Pinto assinala que, embora tenham origens políticas diferentes, ambos se enquadram na mesma dinâmica populista de direita radical. Apesar de o presidente brasileiro ter sido eleito pelo PSL, ele está sem partido e tentou criar o seu próprio, a Aliança pelo Brasil. 

    "É uma dinâmica ideológica [baseada] em um conjunto de valores, solidamente ancorados à lei e à ordem, ou anticorrupção, em recuperação do passado salazarista ou da ditadura militar", analisa.

    Autor do recém-lançado livro "O regresso das ditaduras?", Costa Pinto acrescenta que, no caso português, Ventura recorre aos símbolos da nacionalidade para recuperar o eleitorado ultraconservador e tradicional do CDS. Para o professor, que passou pelas universidades americanas de Stanford, Princeton, Berkeley e Georgetown, há outro ponto muito importante que une Bolsonaro ao político português. 

    "A estratégia de reforma do sistema político, se pudessem fazer, era a mesma: dissolução da democracia representativa. Ventura defende o presidencialismo para Portugal, com menos contrapesos, no sentido de dissolver alguma democracia representativa. Portanto, enquadra-se no mesmo tipo de família política que une esses populismos de direita radical", complementa.

    Livro analisa ditaduras como regimes híbridos que se vestem de democracias

    No ensaio que chega às livrarias nesta terça-feira (26), o autor, que também passou pelas universidades de Oxford e Florença, conta a história das ditaduras que marcaram o século XX e mostra como a expansão das democracias perdeu força na virada para o século XXI. Conforme sua tese, nos últimos anos, as novas ditaduras não se estabelecem por meio de uma ruptura brusca com golpes, mas como regimes híbridos ou "autoritarismos competitivos", que se "vestem como democracias".

    "A vaga populista de direita (mais ou menos radical) das últimas décadas e a chegada ao poder de alguns partidos e líderes, como Orbán na Hungria, Bolsonaro no Brasil, Trump nos EUA, ou do Partido da Lei e da Justiça, de Kaczynski e Duda na Polônia, têm levado muitos acadêmicos e analistas a regressar a um conceito introduzido por Fareed Zakaria no final do século XX, o de 'democracia iliberal'", lê-se em um trecho da obra. 

    Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto
    Ele acrescenta outros exemplos que já passaram pelo poder, como a Liga Norte, de Matteo Salvini, da Itália, que apoiou a candidatura de Ventura. No livro, a ascensão meteórica do Chega não é abordada. Mas, na entrevista com os correspondentes estrangeiros, Costa Pinto sinalizou que o partido português se assemelha mais ao espanhol Vox do que ao Rassemblement National, da francesa Marine Le Pen, que esteve em Portugal para apoiar Ventura como candidato.

    "O Chega não é um partido formado a partir de um núcleo de extrema direita coerente, como o da Le Pen, muito mais estruturado ideologicamente. Um dissidente do PSD, um católico que nem sabia o que era o fascismo, cria um partido para ver o que que dava. Tem uma componente de extrema direita, mais jovem e até neofascista", aponta Costa Pinto.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Jair Bolsonaro, Portugal, esquerda, voto, eleições, extrema direita, ditadura, democracia
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