14:46 09 Julho 2020
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    Pela primeira vez desde 25 de abril de 1974, quando a Revolução dos Cravos abriu caminho para a democracia em Portugal, não há festa nesse dia pelas ruas do país. A pandemia obriga a população ao confinamento em casa, mas a liberdade conquistada depois de 48 anos de ditadura não deixa de ser celebrada.

    Dona Lucinda Neves tinha 15 anos quando tudo aconteceu. "Foi um espetáculo", diz a aposentada à Sputnik Brasil. Hoje, soltou a voz pela janelinha gradeada da porta de casa, no bairro de Alfama, uma das áreas mais tradicionais de Lisboa. "Esse ano é a primeira vez que não tem nada nas ruas, por causa do coronavírus. Mas ano que vem, se Deus e Nosso Senhor quiser, e não houver azar, vai ser tudo festa".

    A cantoria não foi aleatória. Os portugueses foram convocados para entoar o símbolo da revolução - Grândola, Vila Morena. À 00:20 do dia 25 de abril de 1974, a canção foi tocada no rádio. Era o sinal combinado previamente para que as tropas avançassem com o golpe.

    Depois de uma série de ações coordenadas em várias regiões do país, os militares conseguiram derrubar o governo. "Estava na minha casa e vi tudo. Houve uma certa altura que foram todos apanhados, os tanques estavam cercando. Vieram crianças, todos estavam nas ruas. Em vez de haver guerra, as pessoas meteram cravos nos canos das espingardas dos militares", conta Dona Lucinda.

    Lucinda Neves, em casa, celebrando a Revolução dos Cravos
    © Sputnik / Caroline Ribeiro
    Lucinda Neves, em casa, celebrando a Revolução dos Cravos

    48 anos de ditadura

    Em 1974, Portugal vivia sob o regime do Estado Novo, também conhecido como salazarismo, referência a António de Oliveira Salazar, governante emblemático do período.

    A Revolução dos Cravos deu fim a quase cinco décadas de ditadura de maneira pacífica. Refugiados dentro de um quartel em Lisboa, o então chefe do governo, Marcelo Caetano, e outros nomes do primeiro escalão ditatorial não resistiram à pressão dos militares e do povo — que somavam milhares de pessoas nas ruas da capital — e se renderam.

    O Movimento das Forças Armadas (MFA), responsável pela articulação do golpe, nasceu um ano antes, no contexto das guerras coloniais. Movimentos independentistas em Moçambique, Guiné-Bissau e Angola, por exemplo, eram controlados pelo governo com o envio de centenas de militares. "Quando era guerra, era guerra", diz à Sputnik Brasil o aposentado Eduardo Gomes.

    • Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa
      Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa
      © Sputnik / Caroline Ribeiro
    • Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa
      Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa
      © Sputnik / Caroline Ribeiro
    • Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa
      Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa
      © Sputnik / Caroline Ribeiro
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    © Sputnik / Caroline Ribeiro
    Por causa da pandemia, portugueses celebram Revolução dos Cravos cantando nas janelas de casa

    Gomes foi motorista da tropa em Angola de 1969 a 1971. "Havia muitas coisas más", lembra do período. De volta à capital, trabalhava para a Marinha em 1974. "Nós aqui não podíamos falar. Se estivéssemos na rua assim como estamos agora, a conversar, íamos logo presos".

    A repressão policial, a perseguição política, a pobreza do povo e os excessos nas guerras alimentaram a articulação do MFA, que culminou com a tomada do poder no dia 25 de abril. Com a saída de Marcelo Caetano, exilado para o Brasil, o governo foi entregue à Junta de Salvação Nacional, que faria a transição de volta à democracia.

    "Foi a coisa mais bonita que aconteceu em Portugal, ninguém trabalhou naquele dia", lembra Eduardo Gomes. Da janela de casa, o aposentado e a esposa "cantaram  a Grândola", como se diz. "É sempre bom comemorar, é muito importante".

    Povo e militares em Lisboa
    © Foto / Acervo da Associação 25 de Abril
    Povo e militares em Lisboa

    Celebrações suspensas

    Por causa das medidas de combate à pandemia, a Associação 25 de Abril começou, dias antes, a espalhar a convocatória para a cantoria pelas janelas. Toda a programação habitual da data, que envolve desfiles, shows, exposições, ações variadas por todo o país, foi cancelada.

    A única atividade oficial mantida foi a Sessão Solene realizada pela Assembleia da República, o Parlamento nacional. Com várias restrições e número reduzido de participantes, os representantes do Governo e do Estado lembraram a importância da data. "Em tempos excepcionais de dor, sofrimento, luto, separação e de confinamento, é que mais importa evocar a pátria, a independência, a república, a liberdade e a democracia", disse o presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, no discurso.

    Quem também enalteceu a data, no Brasil, foi Chico Buarque. "Infelizmente não estou aí, mas nesta tarde deixarei na janela cravos vermelhos e cantarei em alto e bom som Grândola, Vila Morena", disse o compositor em um vídeo divulgado pelas redes sociais.

    O compositor deveria estar em Lisboa não apenas pela data, mas também para receber o Prémio Camões, maior distinção da literatura de língua portuguesa. A cerimônia de entrega foi mais uma das atividades canceladas neste 25 de abril por causa da pandemia.

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    Tags:
    ditadura, Revolução dos Cravos, Antônio de Oliveira Salazar, COVID-19, novo coronavírus, pandemia, Portugal
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