13:39 06 Abril 2020
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    Grupos de brasileiros que estão retidos em Portugal por causa dos cancelamentos de voos internacionais criticam a postura do governo federal na divulgação de informações relativas às viagens de retorno ao país.

    Até o momento, nenhuma ação de repatriamento foi realizada pelo governo brasileiro, confirma à Sputnik Brasil o presidente do Conselho de Cidadãos Brasileiros em Lisboa, órgão que atua como ponto de contato entre a comunidade brasileira e o Consulado. "Eu vi ontem o ministro Ernesto Araújo falando em repatriação, isso a meu ver é brincar com as pessoas", diz Ricardo Amaral.

    Em entrevista à CNN Brasil neste domingo (22), o titular do Ministério das Relações Exteriores confirmou que Portugal é o país com o maior número de brasileiros retidos, dois mil atualmente. O ministro afirmou que já foram repatriados cerca de 1.500 através de negociações com várias companhias aéreas. No entanto, Amaral explica que o que tem sido realizado é um diálogo do governo brasileiro com o governo português e com as empresas, para que abram mais voos de retorno e facilitem o acesso dos brasileiros, e não ações de repatriamento custeadas com recursos federais.

    O representante do Conselho tem dado apoio aos brasileiros que vão ao aeroporto para tentar resolver a situação. "Infelizmente só consigo atuar junto à TAP, que tem sede no local. As demais companhias estão fechadas. Estou tentando ver se entro em contato com os responsáveis. Agora o problema maior é que não sou o mandatário do governo brasileiro, quem é mandatado do governo até agora não deu as caras, que é o embaixador e o cônsul", diz Ricardo Amaral.

    Desde a semana passada, quando Portugal e União Europeia tomaram medidas para fechar fronteiras aéreas, por causa da pandemia de COVID-19, a Embaixada do Brasil em Portugal tem intensificado o uso das redes sociais para repasse de informações. Os posts se limitam a solicitar envio de dados por email, preenchimento de formulários e repasse de links para que os prejudicados acionem diretamente as companhias aéreas.

    "Nossa hospedagem era só até hoje às 10 da manhã e nosso dinheiro já acabou, porque a gente fez uma previsão certinho para ficar até hoje. Agora estamos no aeroporto, sem saber o que fazer", conta à Sputnik Brasil a auxiliar de enfermagem Karina Lisboa.

    Karina Lisboa e Priscila Pereira no aeroporto, depois de terem o voo cancelado
    © Foto / Arquivo pessoal / Karina Lisboa
    Karina Lisboa e Priscila Pereira no aeroporto, depois de terem o voo cancelado

    Karina viaja com uma amiga. As duas deveriam ter embarcado nesta segunda em um voo para São Paulo. Ao chegarem ao aeroporto, descobriram que tinha sido cancelado. As amigas tentaram buscar informações com a agência pela qual fizeram as reservas. Alterações ou compra de novas passagens têm alto custo no momento. "As passagens são abusivas. R$ 14 mil, com conexão R$ 7 mil,  R$ 8 mil. Então a gente não sabe mais o que fazer. Estamos aqui paradas", diz Karina.

    O jornalista baiano Gil Rocha também aguarda em Lisboa por uma definição. "O que a gente tem acompanhado aqui, através das redes sociais, site, jornais, é que está sendo passada uma imagem de que as autoridades estão fazendo de tudo, quando na verdade quem embarcou até agora teve que arcar com valores exorbitantes", afirma o jornalista à Sputnik Brasil.

    A repatriação é uma coisa organizada, que a gente vai pra um lugar e espera pelo transporte pra voltar ao Brasil. As operadoras estão se aproveitando desse momento de desespero de algumas pessoas, enquanto que a gente assiste a demora das autoridades em tomar uma atitude. Eu consultei uma passagem que estava 30 mil reais. As pessoas na verdade estão é se endividando para comprar uma coisa que já está paga. E ninguém nem quer ser repatriado, todo mundo já veio pra cá com tudo pago, valores todos certinhos, queremos uma definição", diz o jornalista.

    A Sputnik Brasil questionou o Ministério das Relações Exteriores sobre a situação dos brasileiros em Portugal e sobre ações de repatriamento, mas, até a publicação desta reportagem, não houve resposta. O site oficial do Itamaraty reforça que foi criado um Grupo Consular de Crise para atendimento dos viajantes que estão com situação indefinida e lista os contatos disponíveis em vários países.

    O aeroporto de Lisboa chegou a ter longas filas de espera do lado de fora, de passageiros com voos cancelados que buscavam uma solução
    © Foto / Arquivo pessoal / Gil Rocha
    O aeroporto de Lisboa chegou a ter longas filas de espera do lado de fora, de passageiros com voos cancelados que buscavam uma solução

    Até as 17h30 da tarde desta segunda-feira em Lisboa (14h30 no Brasil), a Embaixada brasileira tinha publicado três posts: um informando canais via email e telefone para quem precise de atendimento de saúde, o segundo informando sobre um pedido de contato feito pela companhia aérea Azul e o terceiro comunicando que a CVC, empresa turística responsável pelas vendas de passagens de muitos dos retidos, "contratou voos charter para a repatriação de seus clientes", lê-se no post.

    O texto deixa claro que esta é uma ação totalmente realizada pela empresa. "A companhia está contactando diretamente seus clientes a respeito do voo de hoje e dos próximos. Os clientes devem pôr-se em contato com a própria CVC para tirar eventuais dúvidas. A Embaixada do Brasil está em contato com as autoridades portuguesas para autorizar novas frequências de voos e informará tão logo as necessárias autorizações tenham sido concedidas pelo Governo português".

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    Tags:
    Ernesto Araújo, brasileiros, Portugal, pandemia, novo coronavírus
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