22:50 10 Julho 2020
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    A OTAN se preparava para realizar seu maior exercício militar em décadas, mas se deparou com um inimigo que não estava pronta para enfrentar - o coronavírus. Agora que a realização das manobras está em risco, seu verdadeiro objetivo vem à tona.

    A Aliança Atlântica se preparava para realizar os exercícios militares de larga escala Defender Europe 2020, que deveriam ser os maiores da aliança em mais de um quarto de século. Cerca de 20.000 soldados dos EUA e outros 17.000 militares participariam das manobras, programadas para decorrerem na Alemanha, Polônia e nos países bálticos.

    No contexto da propagação da pandemia de coronavírus, é cada vez mais improvável que os treinamentos em larga escala se realizem.

    O Comando das forças dos EUA na Europa informou, no início desta semana, que reduziria a participação dos Estados Unidos nas manobras. A notícia veio logo após a Noruega cancelar a realização de outro exercício da OTAN devido à epidemia, reportou a RT.

    Apesar da aliança ainda não ter anunciado o cancelamento do Defender Europe 2020, ou o cancelamento da participação dos EUA no mesmo, a probabilidade de tal acontecer é grande.

    "Eu não ficaria surpreso se esses exercícios fossem adiados por vários meses", disse o ex-funcionário do Pentágono Michael Maloof. Já Karen Kwiatkowski, tenente-coronel aposentada da Força Aérea dos EUA, acredita que as manobras podem vir a ser canceladas.

    De acordo com Kwiatkowski, os países ocidentais podem precisar dos seus soldados para lutar contra o coronavírus em seu país. As Forças Armadas podem ser necessárias para garantir o isolamento de grandes áreas, para aplicar a lei marcial ou controlar o movimento de pessoas.

    Soldados durante exercícios da OTAN
    © AP Photo / Alik Keplicz
    Soldados durante exercícios da OTAN

    Caso a situação com a COVID-19 venha a piorar, os governos podem precisar de seus exércitos para conter tensões sociais, acredita a militar.

    "Governos caíram e colapsaram por muito menos do que esta pandemia já causou. Esse é provavelmente o principal medo dos governos, incluindo o governo dos EUA. Por isso, ninguém quer que suas tropas estejam no exterior neste momento", disse Kwiatkowski.

    Além do mais, os soldados que retornarem do exterior podem colocar em risco a saúde pública de seus concidadãos, principalmente se forem enviados a regiões severamente atingidas pela pandemia.

    "O esforço que estamos fazendo é para que as pessoas fiquem no mesmo lugar, para tentar manter as deslocações a um número mínimo. Essa é mais uma razão para reduzir a escala dos exercícios", explicou Maloof.

    Além disso, de acordo com as normas dos EUA, os soldados enviados para a Europa para participar das manobras teriam que "passar por duas semanas obrigatórias" de quarentena, acrescentou o especialista.

    Falta de preparo?

    As forças da OTAN podem não estar preparadas para combater, ou mesmo realizar exercícios, diante de uma ameaça como o coronavírus. A falta de preparo se manifesta tanto em termos de equipamento, quanto de preparo psicológico.

    As tropas dos EUA "recebem treinamento de guerra biológica e têm equipamento para isso", disse Maloof, admitindo, no entanto, não estar seguro se "esse equipamento é suficiente para combater o coronavírus em um ambiente de campo de batalha".

    Soldados europeus da OTAN na Europa Oriental
    © AFP 2020 / MICHAL CIZEK
    Soldados europeus da OTAN na Europa Oriental

    Além disso, assim como qualquer cidadão comum, os soldados também podem estar sendo afetados pelo pânico geral suscitado pelo coronavírus.

    "O fator medo é real, talvez mais real do que o medo que é parte da rotina das tropas em combate", disse Kwiatkowski. "Se preparar para a presença de substâncias tóxicas no campo de batalha não é o mesmo do que se preparar para o que já está para além das linhas inimigas e está mesmo na sua própria cidade natal".

    Mas nem só os soldados estariam expostos a riscos. Exercícios militares desta monta demandam a realização de uma quantidade significativa de reuniões de alto escalão, colocando militares graduados da aliança em risco de infecção, lembra o pesquisador sênior do Instituto Russo de Estudos Estratégicos, Sergei Mikhailov.

    Imagem da aliança

    Enviar tropas para áreas afetadas pela COVID-19 sem motivo de força maior pode ser um desastre de relações públicas para os líderes dos países da OTAN, acredita Mikhail Khodarenok, coronel aposentado da Força Aérea russa.

    "Em tempos de paz, a ideia de colocar deliberadamente a saúde dos soldados em risco [...] dificilmente seria bem-vinda", acredita, "O público [...] dificilmente aceitaria."

    Assumir o risco de deteriorar a imagem da aliança poderia frustrar o objetivo principal dos exercícios, evento que foi planejado, em larga medida, para ser uma ação de relações públicas, acredita Mikhailov.

    Se o objetivo da OTAN era deixar claro para o mundo, e principalmente para o seu público interno, que a aliança segue poderosa e relevante, em tempos de coronavírus talvez essa não seja a mensagem entendida pelo eleitorado.

    "O coronavírus é um problema global", disse Maloof. "As pessoas estão pensando em outras coisas, como na sua sobrevivência e alimentação. Países inteiros estão se desligando e entrando em modo de isolamento. É isso que está chamando a atenção das pessoas, e não militares realizando manobras".

    Os exercícios Defender Europe 2020 estão planejados para ocorrer entre abril e maio de 2020, nos países do leste da Europa. Os EUA planejam enviar mais de 20.000 militares à região, o que seria o maior envio de forças norte-americanas para o continente europeu nos últimos 25 anos.

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    Tags:
    EUA, novo coronavírus, exercícios militares, Europa, defender, OTAN
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