05:15 26 Agosto 2019
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    Presidente do Equador Rafael Correa

    Assange não usou embaixada do Equador em Londres para espionagem, diz Correa

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    O presidente equatoriano Rafael Correa disse em diálogo com a Sputnik que o ciberativista australiano Julian Assange, fundador do site WikiLeaks, não realizou atividades de inteligência implicando hackers russos enquanto tinha asilo na embaixada do país sul-americano em Londres.

    "Nós não soubemos de atividades de inteligência de Assange [...] e nós nunca teríamos permitido se fosse o caso, se tivéssemos conhecimento do fato", declarou o ex-mandatário.

    Em 2012, Assange se refugiou na embaixada do Equador, depois de perder todas as apelações contra a extradição para a Suécia que o Reino Unido estava pronto para atender, a pedido de um procurador sueco que queria que ele fosse julgado por supostos crimes sexuais.

    O ciberativista rejeitou sua extradição alegando que a Suécia iria entregá-lo para os EUA, onde ele poderia enfrentar a pena de morte por publicar milhares de documentos secretos sobre operações militares dos EUA no Iraque e no Afeganistão.

    O Equador cancelou o asilo ao ciberativista australiano em 11 de abril deste ano.

    Em 15 de julho, a rede norte-americana CNN informou que "Assange transformou a embaixada em uma sede para interferir nas eleições de 2016 nos EUA", graças à ajuda de "hackers russos".

    Correa disse à Sputnik que a reportagem era uma "montagem" e "puro show", e que não partiu de uma própria investigação do veículo, mas sim de outras fontes, como o relatório do investigador especial americano Robert Muller, que analisou o suposto conluio entre a Rússia e a campanha do presidente Donald Trump.

    "Isto já é conhecido. É como quando queriam invadir o Iraque e fizeram uma campanha dizendo que havia armas de destruição em massa, começando com a CNN, para que as pessoas, incluindo as de bom coração, aplaudissem a invasão de uma guerra que custou mais de 100.000 vidas. Estão fazendo o mesmo com Assange, começando com um linchamento para extraditá-lo para os EUA e lhe condenem à prisão perpétua, lhe apliquem uma pena desproporcional e as pessoas aplaudam", acrescentou.

    Correa admitiu que Assange divulgou a partir da embaixada equatoriana informações "prejudiciais" para Hillary Clinton em sua campanha contra Trump, e essa foi a razão pela qual o governo decidiu suspender o acesso dele à internet em 17 de fevereiro de 2016, mas disse que isso não significa que o jornalista tenha montado um "centro de operações" de inteligência na sede do país, como a CNN indicou.

    Presidenciável republicano Donald Trump (à esquerda) junto com a presidenciável democrata Hillary Clinton (à direita).
    © REUTERS / Mike Segar
    Presidenciável republicano Donald Trump (à esquerda) junto com a presidenciável democrata Hillary Clinton (à direita)

    "Suspendemos a Internet para Assange não porque ele estava fazendo espionagem, mas porque foram publicadas informações prejudiciais a um dos candidatos. Não sei como foram obtidas, mas, dizer que foram obtidas com hackers russos, a partir da embaixada em Londres que espionou o Partido Democrata, há uma distância enorme", avaliou.

    Correa afirmou que a partir do momento em que ele estava divulgando informações que só beneficiavam Trump, ele entendeu que Assange estava interferindo nos assuntos internos de outro país.

    "Isso não íamos permitir, porque somos respeitosos à soberania de cada Estado. Foi dito várias vezes para Assange, e uma vez que não cumpriu e continuou a publicar apenas informações que danificavam um lado, pessoalmente, eu pedi para que fosse suspensa a sua internet até que as eleições presidenciais dos EUA passassem", relembrou.

    Em 18 de abril, o Departamento de Justiça dos EUA publicou o relatório final da investigação de Mueller sobre as alegações de suposto conluio entre Trump e a Rússia e a suposta interferência de Moscou nas eleições.

    Mueller não encontrou conluio entre as autoridades russas e a campanha de Trump, mas disse que Moscou tentou interferir na eleição.

    'Os EUA se consideram os donos do mundo'

    O ex-mandatário equatoriano assegurou que os EUA acusaram a Rússia de ter interferido e realizado atividades de espionagem durante suas eleições de 2016 porque acreditam que são os donos do mundo.

    "Eles acham que são donos do mundo, mas, obviamente, o envolvimento da Rússia neste caso é por um aspecto geopolítico. Às vezes envolvem a China, pois ambos são os maiores rivais mundiais dos EUA. Isso está perfeitamente claro", disse Correa.

    "Se Assange tinha roubado segredos da Rússia e da China e se refugiasse na embaixada britânica em Quito, teriam lhe dado um salvo conduto para que pudesse ir para um país seguro e teriam feito a ele um monumento como um herói da liberdade de expressão, mas como foi contra os EUA, então devemos crucificá-lo", complementou.

    O jogo do Reino Unido

    O ex-presidente do Equador disse à Sputnik que a Europa é uma aliada dos EUA no caso contra ativista cibernético Julian Assange, dizendo que "os britânicos jogam com as palavras" quando dizem que não enviarão o fundador do WikiLeaks para um país que ameaça a sua vida.

    "Há um linchamento midiático contra ele e ameaças dos falcões americanos para julgá-lo com leis como a pena de morte [...] os britânicos estão jogando com as palavras, porque embora a pena de morte contra Assange esteja excluída, se você condená-lo a 30, 40 anos, é praticamente sentenciá-lo à prisão perpétua até o fim de seus dias", avaliou.

    O australiano foi preso pela polícia britânica no dia 11 de abril, quando o Equador pôs fim ao seu asilo na embaixada do país sul-americano em Londres, onde ele tinha se refugiado. O fundador do WikiLeaks agora aguarda julgamento de extradição para os EUA, previsto para fevereiro de 2020.

    Fundador do WikiLeaks, Julian Assange, é visto saindo de delegacia em Londres
    © REUTERS / Peter Nicholls
    Fundador do WikiLeaks, Julian Assange, é visto saindo de delegacia em Londres

    O ministro britânico para as Américas e Europa, Alan Duncan, reafirmou na segunda-feira que Assange não será extraditado para qualquer país com a pena capital.

    Por sua parte, Correa declarou que "esperamos serem verdadeiras as palavras" do ministro britânico.

    "A Europa está jogando como aliada dos EUA no caso de Assange. Antes havia um pouco mais de independência por parte da União Europeia, mas agora a deriva que tomou o mundo sobre todo o século 21 com a direita e o capitalismo liberal mudou isso", comentou.

    O ex-presidente equatoriano disse que seu governo deu asilo a Assange não porque concordava com ele em tudo o que ele tinha feito, mas porque não havia garantias internacionais do devido processo.

    "Se Assange tivesse roubado segredos da Rússia e da China, lhe teriam dado um passe para que pudesse ir para um país seguro e teriam feito um monumento como um herói da liberdade de expressão. Apesar de existirem padrões internacionais dúbios, e apesar da justiça só ser uma conveniência, o interesse do mais forte [prevalecer], nos falta um longo caminho a percorrer para ter uma sociedade humanista real", refletiu Correa.

    A Europa também "retrocedeu", antes era o "continente de luzes" e "agora, em muitos aspectos é pior do que os EUA", prosseguiu.

    "Os EUA são um país que respeito muito porque eles começaram 30 anos antes que as repúblicas latino-americanas. Eles fizeram bem as coisas e nós não, por isso se desenvolveram. Mas é claro que sua política externa, especialmente para a América Latina e para os governos que não são do seu agrado, deixa muito a desejar. Infelizmente, está cada vez mais coincidindo com a Europa, o que é uma pena, porque eu também admiro a Europa", concluiu.

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    Tags:
    vazamentos, espionagem, extradição, WikiLeaks, interferência russa, Donald Trump, Julian Assange, Rafael Correa, Suécia, China, Rússia, Londres, Reino Unido, Equador
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