22:01 24 Maio 2019
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    Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e líder da China, Xi Jinping, durante a visita do presidente português à China

    Que papel pode desempenhar Portugal na iniciativa chinesa Nova Rota da Seda?

    © AFP 2019/ MADOKA IKEGAMI / POOL
    Europa
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    Caroline Ribeiro
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    O presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, encerrou nesta quarta-feira (1º) uma visita à China, onde participou da segunda edição do Fórum "Faixa e Rota". Especialistas indicaram à Sputnik Brasil o que está por trás do interesse de Portugal em ser parceiro estratégico nesse plano global do governo chinês.

    O relacionamento não é de hoje e 2019 marca duas datas importantes para Portugal e China. São 40 anos desde o estabelecimento de relações diplomáticas oficiais e 20 anos da transferência da região administrativa de Macau do governo português para o chinês. No último mês de dezembro, o presidente Xi Jinping esteve em Lisboa pela primeira vez. A agenda resultou na assinatura de 17 acordos de cooperação bilateral e na promessa de elevar a parceria entre os dois países para um novo patamar.

    A viagem de Marcelo Rebelo de Sousa teve como pano de fundo a participação na segunda edição do Fórum "Faixa e Rota", programa do governo сhinês que pretende criar infraestruturas terrestres e marítimas para ampliar o fluxo de comércio da China com o mundo. No entanto, o presidente português também atuou como "garoto-propaganda" para atrair mais investimentos chineses.

    "Esta oportunidade é magnífica para vos deixar duas mensagens. Uma é de agradecimento por terem apostado em Portugal em um momento de crise, que era um momento importante e difícil para a economia portuguesa. Estiveram presentes quando outros, que poderiam estar, não estiveram. A segunda palavra é virada para o futuro. Nós queremos que não fiquem por aqui. Queremos que, da vossa parte e da parte de outros investidores chineses, continue a haver a compreensão da importância de estarem presentes em Portugal", afirmou o presidente português durante um jantar com diretores das maiores empresas chinesas investidoras no país.

    Para os especialistas, a estratégia é necessária. "Tem que ser feita uma política externa para mostrar aos chineses aquilo que eles não veem e que os pode interessar. Acho que essa visita se insere nessa lógica", analisa para a Sputnik Brasil o professor e presidente do Instituto do Oriente, unidade de pesquisa da Universidade de Lisboa, Nuno Canas Mendes.

    "Chegou um momento em que a relação que Portugal tinha com a China estava condicionada pela questão de Macau, mas nesta fase em que o país está em uma outra posição no plano mundial, de grande destaque, a competir claramente com os gigantes, numa fase em que os Estados Unidos estão em conflito aberto com a própria China, Portugal deve se posicionar nesse jogo", complementa o professor.

    Atualmente, Portugal concentra o segundo maior montante de investimentos chineses na União Europeia, atrás apenas da Finlândia. A entrada significativa de capital da China veio logo depois da crise de 2008, quando Portugal se viu obrigado a pedir um resgate financeiro à chamada Troika para sobreviver.

    "A China aproveitou essa oportunidade para entrar de uma forma muito assertiva na economia portuguesa, com investimentos em áreas como aviação, saúde, setor financeiro, energia. Apesar dos receios de vários analistas, isto acabou por ser uma relação positiva para os dois. Portugal precisava de investimentos e a China tem uma estratégia geopolítica de longo prazo", avalia para a Sputnik Brasil a professora catedrática do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, Carla Guapo Costa.

    Faixa e Rota

    Durante a passagem de Marcelo Rebelo de Sousa, Portugal e China assinaram um memorando de entendimento para o estabelecimento de um diálogo estratégico, confirmando a promessa de Xi Jinping de subir o patamar do relacionamento entre os dois países. "Essa abertura, no fundo, faz parte de uma abordagem global. A China percebe que Portugal tem uma posição interessante, porque, estando na Europa, pode abrir portas para outras partes", explica o professor Nuno Canas Mendes.

    Uma das portas que Portugal pode facilitar para a China vai ser no âmbito do programa "Faixa e Rota", que reforça as infraestruturas terrestres e marítimas para ligar a região ocidental do país à Europa e ao oceano Índico. O programa também é conhecido como a "Nova Rota da Seda", alusão ao período histórico em que as trocas comerciais entre a Ásia, Mediterrâneo e África eram realizadas por caminhos desbravados por mercadores chineses.

    A iniciativa foi lançada em 2013 e prevê o incremento de ferrovias e autoestradas, que vão cruzar a Rússia e a Ásia Central, e o estabelecimento de uma rede de portos no Mediterrâneo e na África. "A 'Faixa e Rota' nasce originalmente como forma de resolver uma série de problemas internos que a China atravessa. Apesar de ser a segunda maior economia do mundo, é a maior potência comercial do mundo, mas tem debilidades estruturais muito grandes. Por exemplo, a questão das disparidades regionais. Algumas regiões menos desenvolvidas são também atravessadas por tensões políticas e independentistas muito significativas. Portanto, 'Faixa e Rota' preenche aquela necessidade muito grande por parte de China de tentar disseminar os frutos do crescimento econômico por todo o seu território", avalia a professora Carla Guapo Costa.

    A professora ressalta ainda a necessidade de a China querer diversificar o seu modelo econômico, internacionalizar a moeda e ter acesso a recursos naturais. No programa, um dos pontos de interesse em Portugal passa pela utilização dos portos. "O porto de Sines e o porto de Leixões geograficamente estão em uma posição favorável, ligando o Mediterrâneo e o Atlântico. Se conseguirmos construir, como está previsto, ligações ferroviárias desses portos com o interior da Espanha, serão um dos pontos de chegada da Nova Rota da Seda e depois de partida para outros destinos", analisa a professora.

    O chefe do Executivo de Macau, Chui Sai On, declarou, durante o último dia da visita do presidente português, ter "plena confiança de que Portugal se tornará no eixo europeu desse projeto".

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