20:33 20 Maio 2018
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    Das 25 mil cidadanias concedidas por Portugal em 2016, cerca de 8 mil foram para requerentes brasileiros

    Os filhos da desesperança: mais e mais brasileiros pedem cidadania europeia

    Tânia Rego/Agência Brasil/Fotos Públicas
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    Assustados com a violência crescente no Brasil, com as oscilações da economia, da política, do elevado custo de vida e sem ver saída em curto e médio prazo, cada vez mais brasileiros tentam pedir cidadania na União Europeia (UE), notadamente em Portugal, na Itália e Espanha, segundo o Eurostat, o escritório de estatísticas da UE.

    Levantamento divulgado agora pelo órgão, relativo a 2016, mostra que pela primeira vez o Brasil entrou no ranking dos dez países que mais pediram cidadania. Em Portugal, por exemplo, das 25 mil cidadanias concedidas naquele ano cerca de 8 mil foram para brasileiros. Os três países que mais concederam o título de cidadão para brasileiros foram Portugal (36%), Itália (27%) e Espanha (15%). No total, os países da UE concederam, em 2016 (último dado disponível), 995 mil cidadanias a estrangeiros, 21 mil dos quais para brasileiros. Os países que mais solicitaram esses títulos foram Marrocos, Albânia e Índia.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Marcus Vinícius Freitas, professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), diz que essa é a terceira onda migratória brasileira para o exterior. Segundo ele, a primeira ocorreu na década de 80, quando o país enfrentou um processo de hiperinflação. A segunda nos anos 90 e início de 2000 aconteceu para os Estados Unidos, com milhares de brasileiros se mudando para diversas cidades, em especial Miami, que passou por um boom imobiliário. Agora é a vez da Europa.

    "Morei em Portugal na década de 80, e o interessante daquele fluxo migratório era de gente que vivia uma situação econômica muito complicada no Brasil. Depois os Estados Unidos, em Miami, na década de 90. Nos últimos tempos, também em razão da insegurança no Brasil e do custo muito grande de ser brasileiro, vemos uma retomada do fluxo de brasileiros retornando, dessa vez selecionando a Europa. Muitos brasileiros, em razão de sua ascendência, conseguem a nacionalidade particularmente em Portugal, na Espanha e na Itália", diz o professor.

    O curioso, na visão de Freitas, é que dessa vez o êxodo é formado por pessoas da classe média alta e da própria classe média em busca de melhor qualidade de vida, ou seja, tranquilidade de locomoção e regras claras em relação ao funcionamento do país e da economia. O processo de gentrificação — o deslocamento de populações para a periferia das grandes cidades, resultado da valorização exacerbada do preço dos imóveis — tem provocado um certo sentimento de xenofobia em relação aos estrangeiros que chegam. O professor da FAAP conta que a receptividade aos brasileiros na década de 80 era diferente da atual. Segundo ele, também contribuiu para isso o fato de que os migrantes daquela época tinham uma renda menor dos atuais. 

    "A grande tristeza é que, ao fazer essa opção (emigrar), o brasileiro leva em consideração que é muito mais caro hoje em dia ser brasileiro do que ser europeu. Ser brasileiro tem um custo, o da segurança, do condomínio, de pagar IPVA todo o ano. Ser brasileiro hoje em dia é muito caro", finaliza Feitas.

    Uma das brasileiras que já está de malas prontas para viajar para Portugal e escolher onde vai viver é a publicitária carioca Diana Ramos. Ela embarca no próximo dia 18 para viagem de um mês, e já tem um roteiro pronto das cidades que vai visitar, começando por Lisboa. Diana conta que o aumento da violência no Rio e no Brasil, o alto custo de vida e as constantes incertezas na política e na economia brasileiras foram determinantes para a decisão de trocar o Brasil por Portugal.

    "É uma viagem de prospecção, já que tirei a cidadania em 2015, sem pensar ainda nisso, mas no final de 2016 e começo de 2017 essa ideia começou a ficar mais forte até que no final do ano passado resolvi agendar a viagem. Dentro do meu mercado tem havido muita dificuldade, tenho colegas desempregados ou trabalhando, mas com uma qualidade de vida muito baixa. O custo de vida é muito alto para a qualidade que a gente tem e a violência é cada vez maior. Cada vez saio menos de casa", diz a publicitária, que é especialista em marketing digital, com foco em gestão estratégica.

    Diana diz que tem vários amigos morando na Europa — “cada vez vai um”. São três na Inglaterra, duas em Barcelona, uma em Madri e seis atualmente em Portugal. Ela admite que a grande procura de estrangeiros em investir em Portugal acabou criando uma bolha imobiliária, principalmente em Lisboa, onde os preços de aluguel, compra e venda quase dobraram do ano passado para cá.

    "Estava pesquisando dois dormitórios. Em outubro do ano passado, em Lisboa, você conseguia um por 450 mil euros, hoje você só consegue a 700 mil. No Porto, para onde as pessoas também vão muito, havia imóveis de dois dormitórios por 300 mil e agora já está a 500 mil. Com isso, as pessoas estão se afastando das capitais e ficando nos arredores a meia hora, 40 minutos do centro. Como o transporte público e as rodovias são muito boas, vou pesquisar os arredores onde os preços ainda são viáveis", diz a publicitária. No roteiro que traçou, Diana pretende prospectar oportunidades nas cidades do Porto, Vila Nova de Gaia, Oeiras e Leiria, as duas últimas nos arredores de Lisboa.

    Diana admite que o processo para se obter cidadania portuguesa não é tão simples e rápido. Mesmo tendo um avô de nacionalidade portuguesa, que viveu no Brasil, ela conta que levou cerca de um ano e gastou cerca de R$ 3 mil para obtenção de documentos e comprovações exigidas em um total de sete processos. Ela reconhece, porém, que o custo de vida, de maneira geral, é inferior ao do Brasil, mesmo o euro valendo quatro vezes o valor do real. Segundo ela, uma compra mensal de supermercado para um casal, incluindo supérfluos, sai em torno de 350 euros.

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    Tags:
    emigração, burocracia, imóveis, sociedade, violência, economia, Fundação Armando Álvares Penteado, Eurostat, Diana Ramos, Marcus Vinicius Freitas, Portugal, Brasil
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