10:31 24 Setembro 2018
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    Chanceleres de Portugal e da Rússia, Augusto Santos Silva e Sergei Lavrov, durante o encontro em Moscou, Rússia, julho de 2016 (foto de arquivo)

    Conheça os 5 motivos que fizeram Portugal não expulsar diplomatas da Rússia

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    Europa
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    Envenenamento de ex-espião russo (101)
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    Portugal foi um dos 9 países dentre os 27 que compõem a União Europeia (UE) que não expulsou diplomatas russos, em resposta ao suposto envolvimento de Moscou com o episódio do envenenamento de um ex-agente duplo russo no Reino Unido.

    A decisão, porém, não deve ser tomada com surpresa, sobretudo para aqueles que acompanham de perto a recente postura portuguesa no cenário internacional – no que se inclui as relações diplomáticas com o Kremlin, um país importante na geopolítica atual.

    O site Observador listou cinco bons motivos que ajudam a entender as razões para Lisboa ter somente chamado de volta o seu embaixador de Moscou, a fim de colher mais detalhes sobre a polêmica em torno do envenenamento de Sergei Skripal e sua filha, Yulia, em Salisbury.

    Eleição de Guterres e liderança na OIM

    A postura da Rússia durante a campanha que elegeu Antônio Guterres como secretário-geral das Nações Unidas (ONU) é tida como um importante elemento das relações atuais entre Lisboa e Moscou, sobretudo em razão do Kremlin não ter exercido o seu poder de veto, sobretudo porque havia uma prerrogativa do novo dono do posto ser do Leste europeu.

    O Observador destaca uma visita feita em setembro de 2016 por uma comitiva portuguesa, que incluía o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-presidente Jorge Sampaio, e o primeiro-ministro Antônio Costa. A moderação de Portugal em lugar da hostilidade dos vizinhos pode ter ajudado Guterres a ficar com o posto.

    O próprio Guterres se mostrou contrário à política de sanções adotada pela UE contra a Rússia. De olho no posto da direção-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM) – com Antônio Vitorino –, Lisboa conta com o apoio russo e de sua influência política internacional para, quem sabe, conseguir mais essa vitória na arena externa.

    Moderação político-partidária

    A oposição acusou o governo de Portugal de estar condicionado pelo Partido Comunista Português (PCP) e pelo Bloco de Esquerda (BE) para não seguir o exemplo dos demais europeus e expulsar toda a diplomacia russa do país. Porém, as relações entre Lisboa e Moscou são mais profundas, com oscilações, mas consideradas boas nos últimos 10 anos.

    Do primeiro embaixador de Portugal na Rússia, em 1799, até o presente muito se desenrolou e, historicamente, cinco países do sul europeu – Portugal, Itália, Malta, Chipre e Grécia – costumam ter boas relações com os russos. Diante de uma reaproximação iniciada em 2008, Lisboa vem seguidamente adotando medidas mais moderadas do que o resto da UE.

    A estabilidade dá aos portugueses um papel de importância diplomática como interlocutor em momentos de conflito, como o atual. Sem o poder militar dos vizinhos, Portugal ganha pontos no campo diplomático com tal atitude. Se ainda há tensões mais sérias, estas estão relacionadas ao fato de Portugal integrar a OTAN e, por vezes, ter de agir.

    Pouca presença no Kremlin

    Três diplomatas. É tudo o que Portugal possui hoje em Moscou. O "braço curto" diplomático é outro aspecto que Lisboa teve de considerar até aqui para não expulsar nenhum diplomata russo de seu território. Seria o risco de ver uma comitiva tão pequena também se ver obrigada a voltar para casa, a título de uma retaliação que provavelmente viria do Kremlin.

    Segundo a mídia portuguesa, o Reino Unido viu como uma mensagem de apoio a medida de Portugal convocar o seu embaixador na capital russa para consultas. Isso ajudou, por enquanto, ao governo português ficar em uma boa posição com os dois lados antagônicos na disputa pelo que de fato aconteceu em Salisbury.

    No dia 16 de abril, ministros de Relações Exteriores europeus irão se reunir e há a expectativa que, até lá, mais informações sejam conhecidas a respeito do envenenamento dos Skripals. Somente isso, em princípio, pode forçar Portugal a rever a sua postura de momento.

    Laços econômicos

    De acordo com o governo de Portugal, o regime de sanções aplicado pela UE contra a Rússia, ainda por conta dos episódios vividos na Ucrânia em 2014 (e a posterior volta da Crimeia ao território russo, por meio de um referendo), vem prejudicando a economia do país. Um exemplo é a venda de carne de porco, que os russos não compram de países da UE como retaliação.

    Nos últimos anos, Lisboa tem feito esforços econômicos para se reaproximar de Moscou – em 2017 as exportações portuguesas para a Rússia cresceram 23%, e as importações advindas dos russos subiram 30% —, em um claro indicativo de relações comerciais saudáveis e com espaço para otimização. O turismo também teve papel de destaque, com a Rússia sendo o quarto país que obteve mais vistos especiais.

    Esquerda teve pouco peso

    Deputados oposicionistas questionaram a coalizão que governa Portugal hoje, sendo formada "por dois partidos que são contra a integração europeia, que são contra a integração de Portugal na OTAN", como descreveu o deputado Paulo Rangel, citado pelo Observador. Para ele e outros, não expulsar diplomatas russos não passaria de uma jogada ideológica.

    Contudo, para analistas, a diplomacia portuguesa apresenta uma postura notoriamente estável, independente do governo estar mais à esquerda ou à direita. Tanto o PCP quanto o BE apoiaram a decisão de convocar o embaixador português em Moscou, evitando a histeria que parece ter se instalado por toda a UE.

    Tão ação de Lisboa deve facilitar a vida do ministro de Relações Exteriores de Portugal, Augusto Santos Silva, que sempre teve uma relação positiva com o chanceler russo Sergei Lavrov.

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    Tags:
    sanções, relações bilaterais, envenenamento, expulsão, diplomacia, União Europeia, Bloco de Esquerda (BE), Partido Comunista Português (PCP), Organização Internacional das Migrações (OIM), ONU, Augusto Santos Silva, Paulo Rangel, Antônio Vitorino, Yulia Skripal, Sergei Skripal, Jorge Sampaio, Marcelo Rebelo de Sousa, Sergei Lavrov, Antônio Costa, Antonio Guterres, Reino Unido, Salisbury, Europa, Lisboa, Portugal, Moscou, Rússia
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