13:04 14 Dezembro 2017
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    Homem cruza a área de Bogside, na Irlanda do Norte, no dia 22 de março de 2017, quando foi enterrado Martin McGuiness, um dos ex-comandante do grupo terrorista Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em inglês)

    Por que o Brexit e a aliança de May podem reabrir velhas feridas na Irlanda?

    © AFP 2017/ BEN STANSALL
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    Brexit: reações e consequências (121)
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    “Um desastre”. “Não se sabe”. Entre analistas e políticos conhecidos e não conservadores no Reino Unido, é comum essas serem as opiniões quanto ao futuro das relações entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, às vésperas do início formal das negociações em torno do Brexit.

    O ‘tiro no pé’ dado pela primeira-ministra britânica Theresa May na semana passada, com a vitória nas eleições parlamentares com uma redução nas cadeiras do Partido Conservador, a jogou no caminho dos norte-irlandeses do Partido Unionista Democrático (DUP, na sigla em inglês), único a firmar a coalizão com May.

    A nova influência da legenda já deu início a uma série de pressões, a começar pela Ordem Laranja (Orange Order), organização religiosa e política de estilo maçônico e hiperconservador, que surgiu do conflito sectário de séculos de séculos da Irlanda do Norte. A ordem quer que o banimento às suas marchas, alvos de críticas históricas, seja revisto.

    O próprio DUP esteve no centro de uma sangrenta divisão sectária durante a era conhecida como “Problemas da Irlanda do Norte” – um conflito envolvendo grupos paramilitares rivais e o Exército britânico, que reivindicou mais de 3.600 vidas ao longo de 30 anos (1968-1998). A marcha foi banida há quase 20 anos, após confrontos violentos e a morte de três jovens.

    Sem o apoio dos Liberais e com o fortalecimento dos Trabalhistas, May foi obrigada a se aliar ao DUP em prol de obter uma maioria, negando-se a seguir os pedidos para que renunciasse – os quais ecoaram até mesmo entre os Conservadores. Na tentativa de demonstrar força, a primeira-ministra avisou no fim de semana, em conversa com a chanceler alemã Angela Merkel, que as negociações formais para a saída da União Europeia começarão nas próximas semana, possivelmente a partir do dia 19 ou 20 de junho.

    Iniciado o processo de saída da UE, há um prazo de dois anos para sua conclusão. Se isso não ocorrer e uma dilatação do prazo não for concedida pelos 27 membros europeus do bloco (algo improvável, dado o caráter traumático que acompanha o Brexit desde o início), a suspensão do vínculo entre Reino Unido e UE pode ser violento. Inclusive dentro da nação.

    Embora a Irlanda do Norte (que, ironicamente, teve uma maioria de 56% dos cidadãos que queriam permanecer no bloco europeu) seja parte da Grã-Bretanha, a República da Irlanda é parte da UE. Dada a história dos conflitos entre Católicos e Protestantes na Irlanda, mesmo o retorno de postos de checagem entre os dois países pode reabrir velhas feridas, abrindo espaço para uma perigosa escalada das tensões e o retorno da violência entre grupos menos moderados.

    “Se o Reino Unido e a República da Irlanda pudessem concordar com um caminho a seguir na fronteira, teríamos a melhor chance de limitar o dano. É do interesse de todos nós, incluindo os nossos parceiros europeus, para que isso aconteça”, afirmou o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. “Uma fronteira dura entre os países seria um desastre e estou certo de que todos devem fazer tudo para evitar”.

    O temor causado na região pelo Brexit foi expressão no encontro do último domingo entre May e primeiro-ministro irlandês Enda Kenny. Dias antes, o negociador-chefe da UE para o Brexit, procurou afastar o bloco de qualquer polêmica ao dizer, em visita à República da Irlanda, que “há sempre um caminho quando existe vontade”.

    A atual primeira-ministra britânica já tocou em velhas feridas do conflito entre irlandeses ao longo da recente campanha parlamentar, ao atacar o líder trabalhista Jeremy Corbyn e seus encontros com líderes do Sinn Fein, braço político dos terroristas do Exército Republicano Irlandês (IRA), nos anos 1970. Em sua defesa, Corbyn disse que as tratativas sempre foram em prol da paz entre os dois países à época.

    Em posição favorável, a líder do DUP Arlene Foster deu a entender que quer sim trabalhar com May por um bom acordo no Brexit. Entretanto, as pautas do partido que possuem um potencial para deflagrar novos episódios de violência entre Católicos e Protestantes na Irlanda deverão ser trazidas para os holofotes.

    “Nós ficamos em uma plataforma política clara de querer fortalecer a União, de trabalhar para um bom negócio para a Irlanda do Norte, uma vez que o Reino Unido sai da EU […]. Usaremos a posição em que nos encontramos para fazer o que prometemos”, adiantou.

    A manutenção de uma fronteira livre entre os dois países é vista como pontapé fundamental para a paz continuar na região. Dados publicados pelo jornal britânico de The Guardian apontam que mais de 1,85 milhão de carros cruzam os quase 200 pontos da fronteira entre os dois países. O impacto de qualquer impedimento a esse fluxo de pessoas é palpável.

    “Depois de duas décadas de uma fronteira aberta e a construção de paz transfronteiriça, qualquer um dos resultados [controles fronteiriço e alfandegário] seria uma complicação indesejada tanto para os governos irlandeses como britânicos, bem como para toda a ilha da Irlanda”, escreveram Blair Horan e Andrew Gilmore, do Instituto de Assuntos Internacionais e Europeus, em Dublin.

    Contudo, como uma fronteira sem restrições e que se adorne segundo os preceitos de países parceiros, mas não membros da UE, será alcançada? Só o tempo e as negociações dirão.

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    acordo migratório, conservadorismo, economia, política, diplomacia, Brexit, Partido Democrático Unionista, Partido Liberal, Partido Trabalhista britânico, Partido Conservador, União Europeia, Arlene Foster, Jeremy Corbyn, Theresa May, Tony Blair, Irlanda do Norte, Irlanda, Inglaterra, Grã-Bretanha, Reino Unido
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