18:26 06 Julho 2020
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    Após as imprevisíveis eleições presidenciais nos EUA em 2016, a atenção da comunidade internacional se focou em uma das mais velhas democracias da Europa e do mundo em geral – na França. Lá, o equilíbrio de forças não para de se alterar, com os rankings dos candidatos mudando de um mês para outro.

    Desde o início da campanha, a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, tem sido considerada uma das principais concorrentes ao posto de presidente. Porém, a lista dos seus rivais não continua a mesma. Primeiramente, a maioria das mídias considerava como seu principal rival no segundo turno François Fillon, candidato dos Republicanos (partido fundado pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy).

    Entretanto, sua popularidade acabou por ser consideravelmente abalada pelo recente escândalo relacionado com a mulher do político, e já outro presidenciável, o candidato independente e ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, começou a ganhar terreno. Agora, parece que este também corre o risco de ser alvo do escrutínio público.

    A coisa é que uma quantidade significativa de figuras próximas ao presidenciável francês, Emmanuel Macron, foram condecorados na época em que o futuro candidato era secretário-geral-adjunto da presidência de François Hollande, bem como ministro da Economia. Apenas uma coincidência ou tráfico de influência? A Sputnik França conduziu uma investigação jornalística.

    Basta ressaltar que os escândalos relacionados com condecorações de todo o tipo já custaram a carreira a vários políticos franceses. Porém, tais escândalos continuam surgindo.

    Um mês atrás, a Promotoria Financeira Nacional iniciou uma investigação para estabelecer se há alguma ligação entre a atribuição da Grã-Cruz da Legião de Honra a Marc Ladreit de Lacharrière ("por iniciativa do primeiro-ministro") e o emprego de Penelope Fillon, esposa do presidenciável François Fillon, na revista La Revue des Deux Mondes (da qual, por sua vez, o condecorado era proprietário).

    De acordo com o jornal Le Monde, os juízes de instrução acreditam que poderia ter tido lugar "um ato de tráfico de influência com o objetivo de receber a condecoração".

    O que quer dizer "tráfico de influência"? Em termos legais, essa atividade é considerada como ato de corrupção e é perseguida por lei. A medida punitiva pelo crime estabelecido no artigo 432-11 do Código Penal se aplica em relação a um "funcionário que, se aproveitando da sua influência, fornece ou manda fornecer benefícios ou quaisquer bens materiais, inclusive condecorações, em troca de privilégios para este mesmo funcionário", explicou à Sputnik França o advogado Stéphane Babonneau.

    Não é de excluir que isto tenha sucedido nos casos de condecoração de umas 10 pessoas, membros do movimento Em Marcha e próximos dele, condecorados pessoalmente por Emmanuel Macron ou por sua diretiva.

    Deste modo, a Laurent Bigorgne, amigo fiel de Macron desde os tempos universitários, foi atribuída a Ordem Nacional do Mérito em 2015, sendo que ele concedeu instalações ao movimento Em Marcha ainda na fase da sua formação.

    Além disso, Bigorgne chefia o Instituto de Montaigne, centro analítico de corrente liberal, o que não impede Macron de rejeitar qualquer ligação com esta entidade influente e próxima do Movimento de Empresas da França (MEDEF).

    No que se trata da Associação pela Renovação da Vida Política, apoiante do Em Marcha, essa é encabeçada pela esposa de Bigorgne, comunicou a edição online Mediapart.

    Outro condecorado é Henry Hermand, que faleceu no ano passado e foi uma figura marcante na esfera do comércio varejista e mentor de Macron. Tendo sido condecorado como Comodoro da Ordem Nacional da Legião de Honra em 2013, este patrocinador de centros analíticos próximos do Partido Socialista (tais como a Terra Nova e A República das Ideias) acolheu Macron, jovem talentoso e com perspectiva, ainda na época em que este estava no início da sua carreira.

    "[Emmanuel Macron] nunca tomou uma decisão importante sem me consultar", afirmou Henry Hermand em uma entrevista ao Le Monde no ano de 2015. Alguns até dizem que ele apoiou Macron de forma tão decidida que lhe teria alocado 550 milhares de euros para a compra de um apartamento e concedeu umas instalações aos primeiros ativistas do movimento Em Marcha.

    Marc Simoncini, fundador e diretor do site de encontros Meetic, foi condecorado com a Ordem Nacional da Legião de Honra em 2014, quando Macron, por sua vez, ocupava o posto de secretário-geral-adjunto junto da Presidência da República.

    Levando em conta que a edição francesa Les Échos o qualifica como um dos mais próximos de Macron, Simoncini se ocupou de organizar os encontros entre o futuro presidenciável e os gerentes de "start-ups" para "testar" suas ideias, segundo comunicam os jornalistas da rádio Europe 1. Em setembro de 2016, Simoncini afirmou que apoiaria Macron logo que este apresentasse sua candidatura às presidenciais.

    A estas três pessoas se pode acrescentar, pelo menos, mais sete figuras que correspondem aos mesmos critérios, o que talvez cause pasmo entre os juristas.

    "A promotoria financeira, depois de ler o artigo, decidiu que era necessário efetuar uma investigação à nomeação da esposa de François Fillon como sua assessora parlamentar", diz o advogado Geoffroy de Vriès do Colégio de Advogados de Paris.

    "Então, por que eles iniciam uma investigação em relação a um candidato por ele ter condecorado uma determinada pessoa, mas não se efetua a mesma investigação em relação a outro candidato que condecorou um grupo inteiro de pessoas?", pergunta o advogado, se referindo a uma espécie de duplos padrões.

    "Se a imprensa começasse a escrever sobre o fato de na equipe do candidato haver muitas pessoas que receberam privilégios e algumas condecorações com ou sem ajuda do candidato, ou com alegada ajuda do candidato ou do grupo que lhe é próximo, a justiça talvez tivesse interesse no assunto", afirmou.

    Porém, isto pode não funcionar, contradiz Stéphane Babonneau:

    "É preciso estabelecer uma ligação causal entre o privilégio recebido e aquilo que uma pessoa acordou em fornecer em troca deste privilégio. Não é fácil fazê-lo", por isso "mesmo que se travem muitas investigações sobre alegado tráfico de influência, não são muitos os que, no final, são sentenciados."

    Mas será que Emmanuel Macron se está preocupando com tal cenário? Durante os debates televisivos que tiveram lugar em 20 de março no canal francês TF1, sua rival Marine Le Pen mencionou "as condecorações nacionais que se distribuem a uns e a outros, sendo que depois todas essas pessoas se encontram na equipe de um ou de outro candidato".

    Macron, por sua vez, se apressou a dizer: "Aquilo que a senhora mencionou representa em si um conflito de interesses e não é um crime penal. Por isso, aquilo que a senhora Le Pen acabou de dizer é uma calúnia, ou então seja, por favor, mais exata nas suas afirmações e se dirija à Justiça do nosso país […], de qualquer maneira, eu não lhe permitirei espalhar calúnias!"

    Surge uma pergunta: será que Macron quis evitar a conversa sobre tráfico de influência, já que isto faria a líder da Frente Nacional soar de modo demasiado convincente, ou ele apenas se irritou para não dar vantagem a Le Pen neste debate?

    Talvez a Justiça francesa independente nos possa dar uma resposta a esta pergunta.

    P.S. A Redação da Sputnik França solicitou comentários de todas as figuras mencionadas na presente investigação. Os comentários não chegaram a ser enviados, exceto os de Philippe Arraou, que considera "injustificado" compará-lo com Marc Ladreit de Lacharrière e nega todas as acusações de "nepotismo" e "arranjos amistosos". "Foi um prazer para mim pedir que Emmanuel Macron me concedesse esta condecoração, mas não pelos favores a qualquer uma das partes, mas pela amizade que nos une", especificou Philippe Arraou. Sem dúvida, a redação da Sputnik França está disposta a ouvir outros representantes do movimento Em Marcha se eles quiserem dar algumas explicações aos leitores em relação aos assuntos abordados neste artigo.

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    Tags:
    corrupção, eleições presidenciais, presidenciável, En Marche, Emmanuel Macron, François Fillon, Marine Le Pen, França
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