21:26 03 Abril 2020
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    Em abril do ano que vem serão realizadas as eleições presidenciais na França.

    Já está claro que o Palácio do Eliseu terá um novo dono, pois o atual chefe de Estado, François Hollande, não concorrerá à reeleição. Em entrevista à correspondente especial da agência RIA Novosti, Maria Kiseleva, o embaixador da França na Rússia, Jean-Maurice Ripert, revelou se é possível esperar uma melhora nas relações entre Moscou e Paris depois das eleições, se novas sanções podem ser adotadas contra a Rússia em função da crise na Síria, bem como enumerou as dificuldades para a normalização do conflito em Donbass.

    RIA Novosti: Em abril do ano que vem a França escolherá um novo presidente. Os candidatos ao cargo estatal supremo se referem de forma bastante calorosa à Rússia e anunciam a intenção de desenvolver um diálogo com os parceiros russos. Isso tudo é só retórica de campanha, ou realmente a França está inclinada a normalizar o diálogo com Moscou?

    Jean-Maurice Ripert: Todos os franceses gostam da Rússia, mas isso não significa que devemos concordar com a Rússia em tudo. Tenho certeza que na França existe uma grande quantidade de coisas, com as quais vocês não concordam. A Rússia está defendendo os seus interesses. A França defende os seus. Eu gostaria de destacar que o diálogo franco-russo permanece importante em todos os níveis. O presidente Putin mesmo disse que, em 2015, se reuniu e conversou por telefone com o senhor Hollande em 25 ocasiões. Eu não acredito que haja muitos chefes de Estado, com os quais o seu líder tenha conversado mais.

    Nos últimos dois anos, quase a metade dos ministros franceses visitaram a Rússia. Somente no último mês, Moscou recebeu o nosso ministro da Educação superior e pesquisas científicas, bem como o ministro da Economia e das Finanças. Mantemos uma cooperação muito ativa com a Rússia na área de cultura. Duas exposições russas excepcionais estão sendo realizadas agora em Paris: a de coleção de Shchukin, de Hermitage e do museu Pushkin, bem como a de arte moderna, no Centro Pompidou. No ano que vem, serão expostos em Moscou os vitrais de Sainte-Chapelle, que são obras únicas do período da Idade Média.

    No entanto, temos divergências em alguns temas diplomáticos. Síria e Ucrânia. Apesar disso, trabalhamos em conjunto para superar essas divergências. Os nossos ministros das Relações Exteriores realizaram quatro ou cinco reuniões desde o mês de setembro. E existem temas nos quais concordamos. Líbia, combate ao terrorismo, combate às mudanças climáticas. Digo isso no sentido de concordar. Os políticos que falam sobre a necessidade de dialogar com a Rússia estão absolutamente certos. É justamente o que estamos fazendo.

    RN: Porém, o tema da Rússia nunca teve tanto peso em campanhas eleitorais anteriores na França…

    JMR: Não quero de modo algum rebaixar a importância da Rússia na arena internacional, pois é um país muito grande e grandioso. Os temas principais da campanha, todavia, são o desemprego, a assistência social e a educação. As pessoas estão muito preocupadas com a situação no próprio país. Atualmente a França está vivendo um crescimento reduzido. A situação econômica está melhorando, o desemprego está reduzindo, mas tudo acontece lentamente. Outros dois temas também suscitam grande preocupação na França: o combate ao terrorismo e o futuro da União Europeia. Nos últimos um ano e meio, 230 pessoas foram vitimadas pelo terrorismo na França.

    RN: As autoridades dos EUA acusaram a Rússia de interferência nas eleições presidenciais americanas. Moscou negou essas acusações de forma reiterada. Na Alemanha, onde serão realizadas as eleições parlamentares em setembro próximo também foi manifestada a preocupação. Paris está preocupada com o fato da Rússia poder, de algum modo, interferir no andamento da campanha eleitoral na França?

    JMR: Essas perguntas devem ser feitas aos embaixadores dos Estados Unidos e da Alemanha. Estamos unicamente preocupados com o cumprimento da democracia, que é o momento fundamental da existência da União Europeia. Precisamos garantir a defesa dos valores democráticos de todas as ameaças, inclusive do terrorismo. Não podemos permitir que algo enfraqueça os nossos valores democráticos. Quando eu falo em terrorismo, eu tenho em mente aquele terrorismo, contra o qual lutamos junto com a Rússia.

    RN: Rússia e França, durante alguns meses, prepararam a visita do presidente da Rússia, Vladimir Putin, à Paris. A visita, no entanto, não ocorreu. França planeja repetir esse convite?

    JMR: Isso já foi feito. Em outubro, o presidente Putin decidiu não ir para Paris. O presidente Hollande convidou ele a participar de uma reunião de trabalho sobre Síria no Palácio Eliseu. O presidente Putin preferiu recusar o convite. No entanto, sem dúvida, o convite permanece. Os dois líderes conhecem muito bem um ao outro. Na semana passada, o presidente francês transmitiu ao presidente Putin uma mensagem, na qual manifestou profunda tristeza da França e a solidariedade por ocasião do assassinato do embaixador russo na Turquia. Eu, pessoalmente, fiquei profundamente abalado com o ocorrido, pois conheci o embaixador Karlov quando trabalhei na Turquia. Ele era uma pessoa extremamente simpática, que amava a vida. Eu um diplomata muito bom. Estamos unidos no combate à todas as formas de terrorismo.

    Retornando à sua pergunta, acredito que 2017 poderá ser um ano muito auspicioso para a realização da visita, pois estaremos comemorando os 300 anos da embaixada de Pedro I, o Grande, em Paris, que marca o início das relações diplomáticas franco-russas.

    RN: A França, entretanto, continua insistindo para que o tema principal da visita seja a Síria?

    JMR: Naquela época, em outubro, era difícil falar de qualquer outra coisa. Milhares de civis morreram em Aleppo — mulheres, crianças, idosos. Foram varridos da face da terra todos os hospitais em Aleppo oriental. Os raros comboios humanitários, liberados pelo regime, não levavam medicamentos, nem remédios. Houve tentativas de enviar comboios humanitários da Cruz Vermelha, da ONU, com medicamentos, mas eles foram esvaziados pelas autoridades sírias. O governo sírio dizia o seguinte: não queremos que os combatentes de Aleppo recebam ajuda médica, não queremos que sejam medicados. Todos os hospitais foram destruídos. Todos.

    França considera que foram cometidos sérios crimes de guerra em Aleppo. Manifestamos a nossa satisfação com o fato da Assembleia Geral das Nações Unidas, na quarta-feira, com ampla maioria de votos, aprovou a resolução para criar uma comissão, que ficará incumbida de investigar todos os crimes de guerra. Sobre isso, porém, é preciso conversar também.

    Foi justamente com a Rússia que realizamos negociações para uma resolução humanitária, que há pouco tempo foi aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU. Essa foi uma iniciativa francesa, que permitiu o acesso da ONU à Aleppo, de modo a auxiliar a retirada da população civil. Claro que desejamos trabalhar com a Rússia e outros parceiros para pôr fim à guerra. E Moscou está de acordo com isso. Mesmo não estando prontos para medidas concretas neste momento, concordamos sobre a necessidade de trabalhar em conjunto. Estamos sendo movidos pela mesmo objetivo — erradicar o terrorismo.

    RN: Considerando que as acusações do Ocidente sobre crimes de guerra na Síria se dirigem, em sua maioria, contra Damasco e Rússia, isso significaria que a decisão da Assembleia Geral está dirigida contra a Rússia e as autoridades sírias?

    JMR: Absolutamente não. Segundo a resolução, é necessário investigar todos os crimes realizados por todas as partes do conflito. Não é permitido atirar em civis, em comboios humanitários e em hospitais. Infelizmente, em situação de guerra, os crimes são cometidos por todas as partes. O comitê de investigação vai analisar tudo o que aconteceu. Repito mais uma vez: isso se refere a todos os crimes praticados na Síria.

    É importante destacar o problema do uso de armas químicas. Foi criados um mecanismo especial, inclusive com a participação da Rússia, que permitirá realizar investigações para apurar os casos de uso de armas químicas. O relatório desse comitê determina de forma clara o papel em sua proliferação e uso por forças armadas do governo sírio. E o presidente da França justamente disse que esses crimes não podem ficar impunes. Os culpados devem ser julgados. Essa discussão ocorre no Conselho de Segurança da ONU. Eu espero que vamos alcançar um acordo sobre os mecanismos para monitorar essa situação. É preciso chamar as coisas pelo que elas são. Estamos falando de atividades realizadas pelas tropas regulares do exército sírio, que usaram de modo deliberado armas químicas contra população civil.

    RN: Mais cedo circularam notícias de que os países do Ocidente, inclusive a França, estariam avaliando a possibilidade de adotar sanções contra a Rússia em função da crise na Síria. Neste momento não se ouve mais sobre isso. A França abandonou essa ideia?

    JMR: Queremos que a ONU determine a adoção de sanções contra os responsáveis pelo uso de armas químicas. Isso dependerá dos resultados de negociações e da decisão da ONU. Não seria uma decisão só da França, bem como não seriam sanções especificamente contra a Rússia. Vamos propor aos nossos parceiros no Conselho de Segurança a possibilidade de adotar algumas medidas depois de conhecer os resultados da investigação.

    RN: Que medidas seriam essas?

    JMR: Ainda veremos quais, pois a discussão está somente começando. Em geral, no entanto, as sanções são adotadas contra pessoas específicas, ou contra organizações específicas, grupos de pessoas. Podem ser adotadas medidas de embargo contra algum tipo de atividade comercial.

    RN: Empresários franceses, ao vir para a Rússia, declaram a necessidade de revogar as sanções da UE contra a Rússia. Na Alemanha, há mais ou menos seis meses, foi apresentada uma iniciativa de revogação de sanções antirrussas por etapas. A França apoia essa ideia?

    JMR: No que diz respeito à Ucrânia, todos queremos que as sanções sejam revogadas. Essas sanções são prejudiciais tanto para a Rússia, quanto para a Ucrânia e para a Europa. Mas as sanções não podem ser revogados até os acordos de Minsk serem cumpridos. A discussão continua no nível técnico, no nível dos conselheiros do chanceler e dos presidentes, no nível dos ministros das Relações Exteriores, e até no nível dos chefes de Estado. Infelizmente o processo avança devagar. Falta confiança entre as partes.

    RN: As partes do Quarteto da Normandia estão trabalhando para solucionar a crise ucraniana há mais de dois anos. Será que não está na hora de tentar novas abordagens para a normalização da crise?

    JMR: Por enquanto não há outras iniciativa na agenda. Ainda achamos que os acordos de Minsk são bons. Não há alternativa a eles, por enquanto. Estamos preocupados, porém, com a volta das tensões e da violência. Foram reportadas trocas de tiros entre o exército ucraniano e aqueles que os russos chamam de independentistas, e nós chamamos de separatistas. Queremos alcançar um cessar-fogo e uma troca de prisioneiros, bem como a continuidade do fornecimento de eletricidade e de água em Donbass.

    RN: A Rússia e a Ucrânia interpretam os acordos de Minsk cada um a sua maneira. Por exemplo, a Rússia afirma que, antes de tudo, é necessário realizar eleições locais, e somente depois disso entregar o controle da fronteira russo-ucraniana. As autoridades ucranianas pensam exatamente o contrário…

    JMR: Justamente para encontrar uma saída de situações complexas como essa são necessários os diplomatas. França e Alemanha desenvolveram um guia de ações, com pequenas medidas que permitirão sair dessa situação. Paris e Berlim, todavia, são somente intermediários.

    RN: O ministério da Defesa da Rússia confirmou as informações divulgadas pela imprensa do deslocamento de sistemas de mísseis móveis Iskander-M para a região de Kaliningrado. A França considera a presença de sistemas de mísseis russos no Báltico uma ameaça para a sua segurança?

    JMR: Acompanhamos com atenção o deslocamento desses sistemas de mísseis. Naturalmente, isso não configura uma ameaça direta para França, mas estamos preocupados com o aumento das tensões. Justamente por isso, gostaríamos de manifestar a satisfação pela reunião do Conselho Rússia-OTAN, no nível dos representantes permanentes, que foi realizada três vezes este ano. No entanto, todos alí se encaram de uma forma suspeita. A Rússia pensa que a aliança é uma ameaça. OTAN pensa que a ameaça parte de Moscou. Como a França é membro da OTAN, posso assegurar que na França ninguém pretende usar a aliança para ameaçar a Rússia, nem para promover nenhum tipo de troca de regime no seu país. De todo modo, é necessário que a Rússia e a OTAN conversem mais, trabalhem mais para reduzir as tensões.

    RN: O senhor se reúne com certa frequência com empresários. Quais são os principais problemas que os empresários franceses encontram na Rússia?

    JMR: É verdade. Encontro muito ele. São encontros bilaterais, bem como encontros no âmbito de organizações. Por exemplo, temos um trabalho muito ativo da câmara de indústria e de comércio franco-russa, da qual participam cerca de 700 empresas francesas. Devo dizer que 38 das 40 maiores empresas francesas estão na Rússia.
    Existem alguns tipos de problemas, sobre os quais eles me contam. O primeiro seria a redução do crescimento da Rússia, bem forte em 2015 (3,7% negativos) e menos forte em 2016 (1% negativo). Essa desaceleração afeta, por exemplo, bens de consumo, automóveis, eletrônicos. O rublo baixo afetou o poder de consumo dos russos. Esperamos que essa situação melhores, pois o Banco Central da Rússia anunciou algum crescimento para 2017, com aceleração maior em 2018. Isso explica porque nenhuma empresa francesa deixou o mercado russo.

    O segundo grupo de problemas está relacionado à retaliação das sanções (por parte da Rússia). Elas afetam menos as grandes empresas, que possuem meios para desenvolvimento. O prejudicado foi o pequeno e médio empresário, que não consegue financiamento para mais de 3 meses no mercado internacional.

    E, por fim, a terceira categoria de problemas, o clima para os negócios. Isso engloba a complexidade da legislação, barreiras de caráter não tarifário, bem como, em alguns casos, a corrupção. Em todos esses problemas estamos cooperando com as autoridades russas. Em geral estamos conseguindo solucionar os problemas existentes. Temos recebido ajuda bastante concreta do ministro da Indústria da Rússia, Denis Manturov, bem como do ombudsman Boris Titov.

    Além disso, porém, gostaria de destacar que existe uma tendência de aumento do fluxo no comércio russo-francês. O que é mais importante, é que a Rússia recebeu grandes investimentos franceses. Graças a isso, a França, a partir de 2015, é o maior investidor em seu país (Rússia). França investiu na agricultura, no setor automotivo, setor de saúde, bem como no setor de novas tecnologias. A França é o país europeu com o maior número de StartUps. Algumas delas cooperam com StartUps russas.

    RN: Quanto à terceira categoria de problemas, alguma coisa melhorou? A corrupção diminuiu?

    JMR: Sim, é verdade. Penso que o governo russo está interessado em promover investimentos estrangeiros na Rússia. Sem dúvida, a Rússia está começando a levar muito mais a sério as questões referentes à justiça e ao direito na área dos negócios. Quanto à transparência, Rússia tem melhorado de 4 a 5 posições anualmente segundo os dados da organização Transparency International

    RN: O que a França pensa sobre as empresas francesas que querem trabalhar na Crimeia?

    JMR: Nós não reconhecemos a anexação da Crimeia. Consideramos ela ilegal. Existe uma decisão da União Europeia que proíbe a importação de produtos da Crimeia, bem como a realização de investimentos na região. Por isso não há possibilidade de falar sobre nenhum tipo de comércio ou de atividade na Crimeia.

     

    Tags:
    Quarteto da Normandia, sanções, relações internacionais, eleições presidenciais, Donbass, Síria, França, Rússia
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