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    Coronavírus no mundo no final de setembro de 2021 (12)
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    A Sputnik Brasil conversou com Alexandre Espírito Santo, economista na Órama Investimentos e professor de macroeconomia e finanças do Ibmec RJ, para discutir a questão da desigualdade social entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos.

    Nas últimas eleições na Noruega, a campanha do líder trabalhista, Jonas Gahr Store, foi focada em como enfrentar a desigualdade crescente no país com promessas de taxar fortunas. Segundo o candidato vencedor, chegou a hora de "pessoas comuns" falarem. Entretanto, esse fato chama a atenção, já que a pobreza não chega a ser um problema grave no país, que lidera nos rankings de igualdade, bem-estar e mobilidade social, onde menos de 1% da população vive em condições consideradas precárias.

    Segundo dados oficiais, o número de crianças vivendo em lares de baixa renda aumentou de 3,3% para 11,7% em oito anos – de 2011 a 2019. Além disso, o preço da moradia subiu mais do que os salários nos últimos 30 anos e ficou seis vezes mais caro, com os 20% mais ricos do país tendo a renda quatro vezes maior do que os 20% mais pobres. Quanto aos impostos, a quantidade paga pelos ricos é proporcionalmente menor. Daí surgem as promessas de Store quanto à redução de impostos para famílias de renda baixa, "pessoas comuns", e maior taxação dos mais ricos.

    No entanto, se comparamos a situação no país nórdico com a do Brasil, o quadro não parece ser tão grave. No Brasil, 19,3 milhões de pessoas, quer dizer 3,5 vezes a população da Noruega, vivem em condições de pobreza extrema e em má situação de segurança alimentar. A renda familiar média anual no Brasil é de US$ 12,7 mil (R$ 67,7 mil), segundo avaliações da OCDE, enquanto na Noruega é três vezes maior, US$ 35,7 mil (R$ 190 mil). Ademais, é medido que os noruegueses vivem oito anos mais do que os brasileiros, esse número caiu quase dois anos no Brasil por causa da pandemia.

    Não obstante o fato de que a desigualdade social aumentou para dois terços do mundo, segundo relatório anual da ONU, aqui surge a questão: como comparar a riqueza e igualdade em países tão diferentes como a Noruega e Brasil, países desenvolvidos e em desenvolvimento? No momento, o problema agrava-se pela crise provocada pela pandemia do coronavírus, o que dificulta a avaliação.

    Como se mede a riqueza do país?

    Quando surge uma questão sobre a riqueza de qualquer país, é preciso levar em consideração quais instrumentos se usam para a medir. A respeito disso, o professor destaca as diferenças entre dois modelos de medição artificiais – quantitativo e qualitativo.

    O modelo mais conhecido para medir a economia de um país é medição através do PIB, Produto Interno Bruto, o somatório dos bens e serviços produzidos pelo país durante um período do tempo. Mas, aponta o especialista, o problema é que esse indicador mede uma quantidade de riqueza expressa em termos de preço.

    Muitos economistas divergem dessa análise quantitativa, considerando essa análise na base do PIB enviesada e preferindo uma ótica qualitativa. Nesse sentido, foi criado um indicador chamado IDH, que é o Índice de Desenvolvimento Humano, o qual, diferentemente do PIB, tem um olhar mais sobre a qualidade de vida.

    Se compararmos as colocações do Brasil nos rankings globais por esses dois indicadores, recebemos duas situações diferentes: no ranking do PIB, entre cerca de 190 países, o Brasil está entre os dez principais PIBs do mundo. Porém, em termos de IDH, a colocação do Brasil será depois do 80º lugar.

    Conforme aponta Alexandre Espírito Santo, incluir o IDH na medição da riqueza faz mais sentido, especialmente durante a época de pandemia, porque o IDH dos países desenvolvidos é muito maior do que dos países emergentes.

    Homem passa por cartazes com o ministro da Economia Paulo Guedes e com o presidente Jair Bolsonaro, São Paulo, 30 de agosto de 2021
    © REUTERS / Amanda Perobelli
    Homem passa por cartazes com o ministro da Economia Paulo Guedes e com o presidente Jair Bolsonaro, São Paulo, 30 de agosto de 2021

    Influência da pandemia

    Falando em pandemia da COVID-19, do ponto de vista do professor, ela exteriorizou o que já vem acontecendo na economia global: ainda existe muita pobreza e muitas famílias vivendo abaixo do nível de miséria.

    "Nós tínhamos antes da pandemia uma sensação de que havia os países muito ricos em que a pobreza era simplesmente residual e outros países, como se tivéssemos uma divisão. E o mundo não é exatamente desta forma. A pandemia, infelizmente ou felizmente, contribui para mostrar que precisamos ainda fazer muitos progressos em relação à distribuição da renda e da riqueza."

    O exemplo da vacinação vai nessa linha: os principais países têm vacina e mostram maior sucesso na vacinação, enquanto uma parcela significativa da população dos países mais pobres não tem acesso à vacinação. No entanto, ressalta o economista, nos países desenvolvidos há mesmo pessoas que rejeitam se vacinar.

    'Educação é a base para mudarmos de patamar'

    No que diz respeito às possíveis raízes da situação atual que em parte podem explicar a baixa colocação do Brasil, o professor vê o problema na educação, em particular na falta do ensino fundamental: o país "ao longo de sua trajetória, especialmente nos anos recentes, vem investindo muito pouco em educação", conforme suas palavras.

    "Na hora em que o país efetivamente se conscientizar que educação é a base para mudarmos de patamar, eu acredito que teremos um grande ganho", disse.

    O professor está seguro que a educação fundamental ajuda em vários sentidos, inclusive na formação de uma sociedade educada em que cada um entende o seu papel na construção do país. Outro aspecto é que o governo não investe em nenhuma disciplina de educação financeira: "É muito importante que as pessoas tenham consciência da relevância de ter o orçamento equilibrado".

    Outro ponto, na maneira de ver do economista, é o ambiente político brasileiro polarizado.

    Mulher em uma tenda no Rio de Janeiro, 26 de maio de 2021
    © AP Photo / Silvia Izquierdo
    Mulher em uma tenda no Rio de Janeiro, 26 de maio de 2021

    "Até onde minha vista alcança, eu imagino que ficaremos polarizados entre o atual presidente, que provavelmente vai concorrer à reeleição, e o ex-presidente Lula, que voltou a ter seus direitos políticos. Se for isto, eu vejo 2022 com muita dificuldade, que vamos viver neste ambiente e potencialmente a economia vai se ressentir, porque o espaço para debatermos reformas no Congresso, que é um fórum adequado, diminui", prevê o analista.

    Mais do que isso, a desigualdade se intensifica também por causa da inflação, que cresce cada vez mais: de acordo com o professor, a inflação é uma forma disfarçada de imposto, em que os mais ricos e a classe média conseguem de alguma maneira se proteger, conseguem os instrumentos para investir o seu dinheiro e de alguma forma perder menos da inflação ou até não perder.

    Mas existe certa "discrepância", onde aqueles de classes de renda mais baixa somente perdem integralmente da inflação e tal situação aumenta a amplitude entre os ricos e os pobres.

    Avanço dos extremos

    A desigualdade social acabou virando tema central na eleição do país "mais igualitário" do mundo, a Noruega, que encabeça os rankings globais de igualdade, bem-estar e mobilidade social, mas viu crescer a diferença entre ricos e pobres. Em meio ao avanço da centro-esquerda, o candidato eleito prometeu taxar mais as grandes fortunas e dar voz às "pessoas comuns".

    Nesse sentido, Alexandre Espírito Santo relembra resumidamente a evolução da mentalidade e da economia global: depois da Segunda Guerra Mundial e durante época da Guerra Fria, o mundo estava polarizado, existindo no âmbito de "americanos vs. soviéticos".

    No final da década de 1980, e mais especificamente com a queda do Murro de Berlim, dava para sentir que o mundo estava mudando: o professor destaca o ressurgimento do pensamento liberal e a globalização financeira.

    Governos liberais em diversos países chegaram ao poder. "Em função disso, nós tivemos um ganho extraordinário para a economia global: ela crescia naquela oportunidade com inflação muito baixa". Mais do que isso, uma parte significativa da população global que estava a margem do mercado consumidor ganhou espaço, bem como os países emergentes, inclusive o caso do Brasil.

    O economista ressalta a importância desses processos porque ajudaram também a reduzir a pobreza. No entanto, a crise financeira de 2008, cujo movimento inicial ocorreu no mercado imobiliário americano, mudou esse pensamento liberal e nós resgatamos algo "mais intervencionista", de acordo com suas palavras.

    "Nesse sentido, o que me parece fundamental de explicar aquilo, surge uma resposta política a tudo isso que, na minha visão, é uma espécie de antiglobalização, cujo clímax é a vitória de Donald Trump e alguns outros", afirma. Na sua visão, a chegada de Jair Bolsonaro ao poder no Brasil ou Recep Tayyip Erdogan na Turquia vai um pouco nessa direção.

    Manifestantes passam por uma imagem do presidente Jair Bolsonaro durante uma marcha contra sua gestão da pandemia e políticas econômicas que, segundo os manifestantes, prejudicam os interesses dos pobres e da classe trabalhadora, São Paulo, 19 de junho de 2021
    © AP Photo / Marcelo Chello
    Manifestantes passam por uma imagem do presidente Jair Bolsonaro durante uma marcha contra sua gestão da pandemia e políticas econômicas que, segundo os manifestantes, prejudicam os interesses dos pobres e da classe trabalhadora, São Paulo, 19 de junho de 2021

    O mundo se polarizou e mais uma vez caiu nos extremos, inclusive nos países que têm mais qualidade de vida e educação, como por exemplo na França com Marine Le Pen e o novo possível presidenciável Éric Zemmour, de extrema direita. E isso não é bom, na visão do professor, porque "afugenta o debate".

    Essa situação vai provavelmente ficar durante algum tempo, e a pandemia de novo trouxe essa interferência do Estado, porque nós precisamos ajudar àqueles que são mais vulneráveis. Isso vem acontecendo globalmente e não será diferente no futuro previsível, opina o economista.

    "O meu único receio é que possam estar ocorrendo novamente exageros, que podem, por sua parte, trazer novas crises", se expressou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Coronavírus no mundo no final de setembro de 2021 (12)

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    Tags:
    economia, macroeconomia, economia mundial, desigualdade, Brasil, Noruega
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