07:01 26 Setembro 2021
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    Sputnik Brasil conversou com economista sobre o atual momento da indústria nacional, os desafios do setor em uma economia pós-pandemia e como o governo pode mitigar os impactos da crise.

    Uma pesquisa divulgada na semana passada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que os efeitos da pandemia do novo coronavírus têm impactado fortemente a oferta de insumos para o setor, fazendo com que a falta e o alto custo das matérias-primas fossem citados como o principal problema das indústrias no segundo trimestre de 2021.

    "A combinação de atividade aquecida e estoques limitados faz com que a falta ou o alto custo das matérias-primas continue a ser o problema mais assinalado pelos empresários industriais entre [os problemas] enfrentados no segundo trimestre de 2021. Embora o percentual de assinalações tenha recuado na comparação com o trimestre anterior [de 67,2% para 63,8%], é o quarto trimestre consecutivo em que esse é o problema mais selecionado", afirma comunicado da CNI.

    A elevada carga tributária e a taxa de câmbio fecham o pódio de principais entraves enfrentados pelo setor no país, citados, respectivamente, por 34,9% e 23,2% das indústrias pesquisadas.

    Para discutir o atual momento da indústria nacional, os desafios do setor em uma economia pós-pandemia e como o governo federal pode mitigar os impactos da crise, a Sputnik Brasil conversou com a economista Juliana Inhasz, coordenadora do curso de graduação em Economia do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

    Preços nas alturas

    Segundo a pesquisa da CNI, a preocupação com a falta ou o alto custo das matérias-primas teve um salto do segundo trimestre de 2020 para o terceiro trimestre do mesmo ano: de 23,8% para 57,8%. No quarto trimestre de 2020, 64,3% citam esse como o principal problema do setor e desde então esse indicador não ficou abaixo da casa dos 60%.

    Movimentação na indústria Bralyx, do setor de máquinas e equipamentos, em São Paulo, no dia 20 de abril de 2016
    © Folhapress / Bruno Santos
    Movimentação na indústria Bralyx, do setor de máquinas e equipamentos, em São Paulo, no dia 20 de abril de 2016

    Juliana Inhasz afirma que a alta no preço das matérias-primas ocorre por uma série de fatores. Com o início da pandemia, muitas indústrias pararam, o consumo caiu e a incerteza cresceu.

    "O consumo de boa parte dos produtos caiu bastante. Essa queda fez com que muita indústria se desarticulasse, muita gente parou de produzir como produzia antes. Muita empresa quebrou e quando todo mundo quis retomar sua produção e procurou insumos, esses insumos não estavam disponíveis. Isso fez com que os preços disparassem. Os preços disparam porque há uma produção menor", começa por explicar a especialista.

    A professora do Insper acrescenta que a desvalorização do real também é um elemento a ser levado em consideração, uma vez que os produtores de insumos brasileiros acabam despertando o interesse das cadeias produtivas internacionais, que também se desarticularam e viram o custo das matérias-primas locais subirem bastante. Por isso, eles têm buscado suprir essa deficiência de insumos em outros lugares onde a moeda deles está mais valorizada, como no Brasil.

    "A gente tem uma produção menor porque muita gente quebrou, mas a gente tem também uma disponibilidade menor dentro do mercado interno porque parte da matéria-prima está indo para fora […]. [E] quando falamos da indústria de alimentos a gente também sofre bastante com o aumento do preço das commodities, vemos aumento do preço da soja, do aço e de tantos outros produtos que também geram um encarecimento para várias cadeias produtivas."

    Além disso, há o aumento do preço do petróleo, que gera um encarecimento generalizado das cadeias produtivas, porque se é preciso deslocar uma matéria-prima de um local para outro, os custos aumentam.

    Bomba de petróleo impresso em 3D e logo da OPEP
    © REUTERS / Dado Ruvic
    Bomba de petróleo impresso em 3D e logo da OPEP

    Produto nacional perde competitividade

    Juliana Inhasz comenta que há anos não ocorre um investimento adequado na indústria nacional, que possui uma tecnologia bem inferior ao que deveria ter. Para piorar, com o encarecimento das matérias-primas, os produtos nacionais vão sofrer ainda mais concorrência internacional.

    "Está caro para produzir, para conseguir manter a produção você precisa garantir lucro, mas hoje para garantir lucro, com esse custo mais alto, os preços precisam ser bem mais altos. E aí a concorrência com os produtos externos começa a ficar mais desleal", explica a professora.

    No curto prazo, as pessoas vão continuar comprando o produto nacional porque o real está muito desvalorizado, mas a especialista recorda que a taxa de câmbio deve começar a cair com o aumento mais persistente das taxas de juros. Dessa forma, os importados vão ficar mais baratos e o produto nacional vai continuar mais caro porque o custo de produção está caro e isso pode gerar um desincentivo da indústria nacional.

    "Ainda que o dólar permaneça muito valorizado, em algum momento o preço do produto doméstico vai encostar no preço do produto externo. É óbvio que muita gente vai preferir comprar produtos de fora. Então isso coloca uma limitação dentro do crescimento da indústria nacional. A gente está colocando a indústria nacional dentro de uma gaiola e impedindo que ela cresça. Porque esse mecanismo vai fazer com que a gente tenha dificuldades para crescer, capitalizar essa indústria, para ela ter lucro, para gerar incentivos a novos investimentos na indústria", alerta a economista.

    Dólar dos EUA (imagem referencial)
    © Foto / Pixabay / geralt
    Dólar dos EUA (imagem referencial)

    Aprofundamento das desigualdades sociais

    Os preços altos estão fazendo com que o consumidor brasileiro, que perdeu poder de compra durante a pandemia de COVID-19, repense seus hábitos de consumo. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego no Brasil ficou em 14,7% no trimestre encerrado em abril e se manteve em patamar recorde, atingindo 14,8 milhões de pessoas.

    "Isso afeta o bolso do consumidor com o aumento do custo de vida. É um consumidor que vai gastar mais, se ele tiver como gastar […]. No limite, [ele vai] ver o que é essencial e muitas coisas vão deixar de ser consumidas. Isso coloca mais um problema para a indústria. Porque a gente vai passar a ter certamente pessoas a consumir menos do que a expectativa da indústria", comenta Juliana Inhasz.

    Esse cenário coloca ainda mais pressão em algumas indústrias, principalmente nas de produtos supérfluos, que podem ficar em situação delicada caso os consumidores mudem os seus hábitos. O cenário atual aponta que muitas indústrias vão demorar a se recuperar e absorver parte dos trabalhadores que foram colocados no desemprego e as consequências disso são péssimas.

    "Isso faz com que essas pessoas fiquem à margem da sociedade, sem acesso a serviços de saúde, educação, moradia […]. [Assim,] pessoas que estão em uma classe social mais baixa se distanciam cada vez mais daquelas pessoas em classes sociais mais altas e a gente acaba vendo um aprofundamento de situações de vulnerabilidade […]. Permanecer mais tempo nessa condição pode fazer com que se aprofundem esses abismos sociais e isso tem consequências, tem preço para o Brasil. É o preço de uma produtividade menor lá na frente porque são pessoas menos qualificadas, que tem menor qualidade de vida", afirma a especialista.

    Distribuição de marmitas no centro da cidade de Curitiba. Muitos brasileiros passam necessidade pela falta de emprego e economia inflacionada pelo pandemia, em 1º de abril de 2021.
    © Folhapress / Luis Pedruco
    Distribuição de marmitas no centro da cidade de Curitiba. Muitos brasileiros passam necessidade pela falta de emprego e economia inflacionada pelo pandemia, em 1º de abril de 2021.

    Como mudar a realidade

    A pesquisa da CNI mostra que, apesar de o cenário atual não ser animador, as expectativas das indústrias pesquisadas são positivas. Todos os indicadores de expectativas cresceram em julho e estão acima da linha de 50 pontos e da média histórica, "o que indica otimismo intenso e disseminado", lê-se do relatório.

    Para ir ao encontro desse otimismo, perguntamos a Juliana Inhasz quais políticas públicas poderiam ser adotadas para mitigar os impactos persistentes da pandemia no setor industrial brasileiro. Incialmente, a especialista sugere políticas de incentivo à produção porque, uma vez produzindo e com o país voltando a crescer, uma parte desse aumento do custo de produção pode ser revertido.

    "O governo agora pode abrir mão de algum tipo de receita ou pensar em medidas que fomentem o crédito para essas indústrias cobrando delas resultado daqui pra frente. Em algum momento elas vão aumentar a produção, o Brasil vai voltar a crescer e então o governo pode tirar esses auxílios de forma vagarosa e pouco traumática. Gerar crédito, sem dúvida, seria uma forma interessante", garante.

    Por outro lado, a professora do Insper afirma que tabelar ou controlar o preço dos insumos não é uma política interessante para ser adotada pelo governo federal. "Porque isso gera uma sensação de que está tudo bem, quando a gente sabe que em algum momento a bomba vai estourar."

    O problema de políticas que fomentem ou impulsionem a atividade produtiva, recorda a especialista, é que essas iniciativas gerariam perda de receita para um governo que hoje precisa desse dinheiro.

    "Hoje o governo não se pode dar o luxo de abrir mão de receita. Tanto que vemos todas as medidas que ele tem feito para tentar restabelecer o seu caixa com mudanças, inclusive tributárias que vão afetar as empresas", alerta.

    O presidente Jair Bolsonaro participa da cúpula do Mercosul ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes
    O presidente Jair Bolsonaro participa da cúpula do Mercosul ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes

    Focar no BRICS

    Uma forma de baixar os preços dos insumos para as indústrias do país seria o Brasil conseguir fazer acordos comerciais que garantissem preços de matérias-primas mais confortável para o setor, negociando condições melhores.

    O Brasil precisa de matérias-primas que produz muito pouco e poderia procurar parceiros comerciais com essa finalidade. Tendo isso em vista, Juliana Inhasz acha que o Brasil deveria procurar fazer acordos comerciais não com os países do Mercosul, mas do BRICS, grupo que reúne Rússia, Brasil, China, Índia e África do Sul.

    "O Brasil vende muito produto para fora, muitas commodities e isso tem evitado quedas grandes do PIB. Manter esses laços é importante, no caso da indústria também porque garante uma condição mais favorável de entrada de matérias-primas […]. Só que para isso o Brasil precisa se empenhar em fazer acordos que sejam estratégicos, dando condições boas para os outros países do acordo, mas também obtendo condições boas de comercialização. A gente tem visto nos últimos anos alguns acordos que muitas vezes são poucos favoráveis para o Brasil", comenta.

    A economista explica que esses acordos não tão bons ocorrem em decorrência da fragilidade econômica e política do Brasil. E acrescenta que nesse momento a nossa fragilidade política é muito elevada, o que poderia resultar em uma dificuldade extra para fechar acordos que fossem mais vantajosos para o Brasil.

    "Acho que fica uma lição para que a gente repense de fato como nós temos nos posicionado no ambiente internacional, mas, sem dúvida, seria uma saída interessante para conseguir fazer com que o custo de produção ficasse mais próximo daquilo que hoje a economia brasileira consegue suportar. Ajudaria muito o controle da inflação, o controle da retomada do crescimento e a melhoria do ambiente dentro do Brasil", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    matéria-prima, economia, economia, economista, indústria, indústrias, indústria nacional, indústria brasileira, Brasil, Mercosul, BRICS
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