15:10 03 Agosto 2021
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    Restaurantes em Portugal terão prejuízo de até € 20 mil (R$ 127.800) na virada do ano devido ao cancelamento de eventos. A determinação governamental de fechar as portas dos estabelecimentos às 22h30 na noite de Réveillon afetou empresários, incluindo brasileiros.

    A decisão tomada pelo Conselho de Ministros às vésperas do Natal frustrou as expectativas de donos de restaurantes que já estavam com reservas feitas para jantares na noite desta quinta-feira (31). Até então, o horário de funcionamento autorizado pelo governo era até 01h00. A segunda onda da pandemia de COVID-19 levou a que a hora do encerramento fosse antecipada, fazendo com que o planejamento de todo um ano fosse perdido em alguns casos.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o carioca Maumau Horsth conta que, há um ano, estava organizando o evento do restaurante Villam, do qual é chef-executivo. O estabelecimento fica em Vizela, distrito de Braga, no norte de Portugal, e faria um jantar com música para 50 clientes, ao preço de € 400 (R$ 2.550) por pessoa, segundo Horsth. Com a alteração no horário, tiveram que cancelar as reservas e devolver o valor adiantado.

    "Isso dá € 20 mil brutos. Já tínhamos contratado pessoas para fazer fogueira, com três tendas aquecidas (uma com música eletrônica, outra jazz e uma terceira, com música popular), cuspidores de fogos, pessoas vestidas a caráter medieval e canecas personalizadas com o nosso nome para dar de lembrança e agregar valor. Mas quem vai sair de casa para ficar no restaurante das 20h às 22h30? Eu não sairia. Estamos de mãos atadas sem ver um futuro. É muito triste", lamenta Horsth.
    O carioca Maumau Horsth, chef-executivo do restaurante Villam, no norte de Portugal
    © Foto / Divulgação/Tempero Musical
    O carioca Maumau Horsth, chef-executivo do restaurante Villam, no norte de Portugal

    Ele diz que o restaurante vai guardar parte do estoque possível para um evento a ser realizado em abril ou maio dependendo do quadro da pandemia de COVID-19 até lá. Consultor gastronômico e dono da empresa Tempero Musical, Horsth explica que os prejuízos não se restringem apenas aos restaurantes, mas à cadeia produtiva, que abrange funcionários de empresas alimentícias, grandes fornecedores, carregadores, pessoal de limpeza, motoristas e seguranças contratados para eventos. Apenas na ceia do Villam trabalhariam 25 funcionários.

    "Perdemos pelo menos 40 eventos incluindo o Réveillon. Em Portugal, tem uma coisa muito forte que são os eventos de fim de ano das empresas. Não tivemos nenhum. Teve uma grande empresa que faria um jantar de fim de ano para mais de 100 pessoas, mas desistiu por causa das mudanças nas regras. São tantas leis, pormenores, que as pessoas desistem. Tínhamos grandes marcações do ramo da hotelaria e empresários que foram canceladas, infelizmente", exemplifica.

    Horsth acrescenta que, normalmente, os eventos de Réveillon geravam uma receita extra para compensar o mês de janeiro, em que o movimento costuma ser mais fraco. No início de 2021, ele vai estrear um programa com conteúdo audiovisual em uma plataforma digital para ensinar as pessoas a preparar boa comida em casa. 

    "Esse ano não teve Réveillon nem dezembro para sustentar os próximos meses. Isso quebrou muita gente. Muitos bons profissionais perceberam que podem trabalhar em outras coisas que não em restaurantes. Isso faz com que percamos mão de obra qualificada. Vamos ter que nos reinventar. Estamos às cegas, sem luz no fim do túnel", conclui.

    Dono do Clube Mogan, restaurante que funciona há dois anos no Parque Florestal de Monsanto, em Lisboa, o chef Alex Lima calcula em € 7 mil (R$ 44.730) os prejuízos na noite de Réveillon. Ele teve que cancelar um jantar com música ao vivo para 50 pessoas que já haviam feito a reserva. Mesmo adotando as recomendações da Direção-Geral de Saúde, órgão central do Ministério da Saúde, com as restrições de horário, o evento não será mais possível. 

    Morando há 20 anos em Portugal, o baiano diz que só viu uma crise parecida em 2008. Questionado por Sputnik Brasil o que poderia ser feito de diferente por parte do governo para ajudar os empresários do setor, Lima é econômico nas palavras.

    "Eu não estou à espera de nada. É complicado, muito triste. É lutar e não desistir", comenta Lima.

    Restaurante brasileiro multado sob alegação de descumprir horário

    O receio em falar é o mesmo do empresário brasileiro Honorato Regi, dono de restaurantes no Cacém, a cerca de meia hora de Lisboa. Em um deles, o Rota 84, estava previsto um evento com música ao vivo, DJ e fogos de artifício. Com o preço de € 85 (R$ 543) por pessoa, o cardápio incluiria entrada, quatro opções de carne, guarnições e sobremesa, além de "bar aberto até 00h30 com os vinhos da casa, sangria branca, frutos vermelhos e maracujá, imperial, refrigerante e água", segundo o cardápio divulgado em uma rede social.

    No mesmo dia em que o governo divulgou a decisão de antecipar o horário de encerramento para as 22h30 na noite do dia 31, a TVI exibiu uma reportagem que mostrava o restaurante sendo fechado e multado pela Polícia de Segurança Pública (PSP) sob a alegação de estar aberto além do horário permitido. Na matéria jornalística, Honorato diz que o último cliente havia pagado a conta às 22h18 e que estava sendo perseguido. Procurado pela Sputnik Brasil, ele preferiu não se manifestar.

    O português Paulo Rocha, dono do restaurante Rovany II, em Lisboa, sempre cumpriu as regras determinadas pelas autoridades. Mas pondera que as normas não estão sendo estabelecidas com tempo hábil de colocá-las em prática com planejamento. No último sábado (26), por exemplo, o horário de fechamento das 13h00 foi estendido até 15h30, mas ele só ficou sabendo na tarde da véspera. Telefonou, então, para seus três funcionários brasileiros para avisá-los do funcionamento em cima da hora. 

    O português Paulo Rocha, dono do Rovany II, entre dois funcionários brasileiros, Laura e Murilo
    © Sputnik / Lauro Neto
    O português Paulo Rocha, dono do Rovany II, entre dois funcionários brasileiros, Laura e Murilo

    Para a virada do ano, ele havia planejado um jantar para 40 pessoas, com um músico brasileiro, mas sem dança, seguindo as normas de distanciamento. Já havia feito a divulgação nas redes sociais e fechado 23 reservas, metade delas de clientes brasileiros. Com o cancelamento do evento, ele estima um prejuízo de € 2.400 (R$ 15.330). Trabalhando há 13 anos no setor, ele diz não lembrar de um mês de dezembro tão fraco quanto este, gerando metade da faturação que costuma ter nos outros anos.

    "Tínhamos ajeitado o fim de ano e tivemos que anular tudo. Inicialmente, disseram que seria igual ao Natal [com encerramento à 01h00] e, no último comunicado disseram que éramos obrigados a encerrar às 22h30 no dia 31. Foi terrível. Se formos pela parte econômica, é péssimo. É a noite em que os restaurantes podem salvar uma parte do mês, ainda que não seja o mês todo. Andamos a gerir empresas ao dia. Em vez de gerir empresas, como deve ser, ao mês e ao ano. São as leis que temos", diz Paulo Rocha à Sputnik Brasil.

    Ele ressalta ainda que o horário de encerramento às 13h00, determinado pelo governo português para os três primeiros dias de 2021, é igualmente prejudicial para os restaurantes.

    "Ninguém vai almoçar no dia 1º [de janeiro] antes das 13h00. É o mesmo que dizer que estamos encerrados. Pela parte humana, também é péssimo, pois as pessoas querem se divertir e não podem", pontua.

    Empresária cearense fechou 3 filiais, mas mantém esperança

    A situação da empresária cearense Sheyla Lima é ainda mais delicada. Dona do Lisboa Cheia de Graça, um restaurante de comida típica portuguesa que chegou a ter cinco unidades, ela agora conta com apenas duas. Teve que fechar três filiais durante a pandemia, dispensando 23 funcionários. Agora, como plano B, transformou um dos estabelecimentos em culinária japonesa e mantém apenas um funcionário para atender, cozinhar e servir, enquanto ela faz o mesmo, sozinha, na casa principal.

    A cearense Sheyla Lima, dona do restaurante Lisboa Cheia de Graça: fé em dias melhores
    © Foto / Divulgação
    A cearense Sheyla Lima, dona do restaurante Lisboa Cheia de Graça: fé em dias melhores

    Há 17 anos em Portugal, ela abriu seu primeiro restaurante em 2008, ano em que a crise financeira global atingiu o país. No entanto, Sheyla diz que nada se compara ao atual momento. Para o Réveillon, ela estava com uma reserva de jantar para 12 pessoas, nova capacidade máxima devido às normas de distanciamento, apesar de o estabelecimento comportar até 22. Com a restrição de horário, as reservas foram canceladas, e ela calcula um prejuízo de, no mínimo, € 1.300 (R$ 8.300).

    "O governo mudou o horário de funcionamento, e acabaram por cancelar [a reserva], pois o horário escolhido era para as 22h30. E, depois da mudança de horário, ninguém mais fez reservas. Estou há 15 dias sem clientes. Minhas casas sempre estiveram cheias. Já passei por inúmeras situações, mas nada se compara a essa. [É um] desgaste mental e financeiro. Eu tinha restaurantes que, em uma noite normal, tinham faturação por volta de € 2.900 (R$ 18.530). Já fiz de tudo aqui nas minhas ementas para atrair os poucos que passam e [agora é] mesmo zero. Essa hora [19h00], dia 30 de dezembro, e ninguém para jantar", conta Sheyla à Sputnik Brasil.

    Ainda assim, a brasileira não desanima e mantém a esperança de que, com o início da vacinação contra COVID-19, o ano de 2021 seja melhor. 

    "A vacina é a minha única esperança. Quem continuar com as portas abertas, mesmo contando com a sorte, será sobrevivente dessa situação. Eu estou aqui dia e noite porque nada abala minha fé de dias melhores", acredita Sheyla.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    pandemia, COVID-19, Portugal, réveillon, Brasil, restaurante
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