08:12 20 Março 2019
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    Bitcoin e uma nota de dólar, imagem ilustrativa

    Como economia global seria abalada em 2019?

    © Sputnik / Yevgeny Biyatov
    Economia
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    Tatyana Yudina
    Como foi o mundo em 2018 e o que prepara 2019 (11)
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    O ano passado foi muito rico em acontecimentos econômicos. A Sputnik Brasil decidiu falar com financistas que fizeram suas previsões sobre como estes eventos podem potencialmente se desenvolver em 2019 e se o mundo deve recear uma nova crise econômica global.

    Adeus ao dólar e às criptomoedas?

    Em 2018 as discussões sobre o abandono do dólar estadunidense no comércio global ganharam impulso em vários países, inclusive entre os aliados de Washington. Embora alguns especialistas acreditem que o volume de transações realizadas sem uso do dólar estadunidense está crescendo, o dólar continuaria sendo a principal moeda global em 2019, mas há perspectivas de lidar com essa hegemonia.

    Aleksandr Bakhtin, estrategista de investimentos da empresa financeira BKS Premier, declarou à Sputnik Brasil que o dólar norte-americano poderia ser substituído por uma moeda estável, uma reserva de valor, e para isso é preciso diversificar a economia do país emissor. Entretanto, há cada vez mais projetos que são realizados sem uso do dólar, por exemplo, a cooperação no setor de energia entre a Rússia e a China.

    Quanto às criptomoedas, 2018 não foi o ano de maior sucesso para o mercado de moedas digitais. Ao longo do ano o preço das principais moedas digitais caiu drasticamente. Hoje em dia o preço do bitcoin é de apenas 3.775 dólares (R$ 14.700). Entretanto, ainda é muito cedo para falar do fim da época das criptomoedas.

    "O mercado de criptomoedas é um mercado bem jovem, está na fase inicial da vida. Apesar das muitas dificuldades, a indústria continua avançando. Há novos projetos que, no caso de implementação bem-sucedida, permitiriam atender a cada vez mais necessidades através da tecnologia de blockchain", explicou Aleksandr Bakhtin.

    Segundo Bakhtin, nos próximos anos seria criado um campo para regulamentação jurídica das criptomoedas e seria aperfeiçoada a infraestrutura geral.

    "Muitos países já tentam implementar uma regulamentação desses instrumentos [criptomoedas] no sistema financeiro atual. No futuro isso levará ao aumento das operações financeiras com criptomoedas", prevê o especialista.

    Guerra comercial e economia global

    A guerra comercial iniciada pelos EUA contra a China foi um dos grandes destaques de 2018 que ameaça a estabilidade econômica global. Apesar da moratória de 90 dias na introdução de tarifas sobre produtos importados da China, acordada no fim do novembro, o conflito entre as duas potências poderia ganhar força em 2019.

    "Se o conflito comercial entre os EUA e a China continuar, ele poderia afetar a economia global, a conjuntura e o crescimento globais. A taxa de crescimento do PIB da China e do PIB global poderiam desacelerar para 6% e para 3%, respetivamente, se os EUA aumentarem as tarifas sobre todas as exportações chinesas, explicou à Sputnik Brasil o analista principal da empresa de investimentos Freedom Finance, Vadim Merkulov.

    Onde investir em 2019?

    O ano de 2018 se tornou o pior para os investidores. Em 2018, uns 90% dos investimentos em ações, obrigações, commodities e metais causaram perdas para os investidores, o que é o pior resultado desde o início do século ХХ. Em comparação com o ano passado, a cota-parte dos ativos que dão prejuízo aumentou 90 vezes.

    Quanto aos investimentos em 2019, Vadim Merkulov opinou que é melhor investir em ativos cujo principal motor do crescimento não depende do ciclo econômico, por exemplo em ações do setor das TI, que atualmente se negociam com desconto e são subestimados pelo mercado.

    Andrei Kochetkov, analista principal da corretora russa Otkrytie Broker, sublinhou que na época de turbulências econômicas se observa uma fuga de capitais aos ativos de refúgio.

    "Trata-se geralmente de títulos da dívida pública seguros (dos EUA, da Alemanha) e de valores eternos, por exemplo o ouro. Em geral, uma futura crise da dívida seria um golpe contra as divisas, tanto dos países desenvolvidos como dos países em desenvolvimento", disse ele.

    Nova crise à vista?

    Uma questão mais preocupante para os investidores é a possibilidade de recessão na economia dos EUA e desaceleração do crescimento global.

    "Quanto à economia dos EUA, o ciclo econômico corrente já dura há 115 meses e possivelmente vai bater o recorde de 120 meses de março de 2001. Outro índice importante é o número de pessoas empregadas na economia. A taxa de desemprego nos EUA é de 3,7%, um mínimo desde 1966. É de assinalar que a diferença entre o rendimento dos títulos do Tesouro de prazo mais longo e de prazo mais curto é mais um fator importante. Embora essa diferença tenha se tornado menor, ela ainda é positiva […] Acredito que a recessão é pouco provável no próximo ano", disse Vadim Merkulov.

    A situação na Europa, por sua vez, causa preocupação entre os especialistas entrevistados pela Sputnik Brasil, porque a saída do Reino Unido, o principal centro financeiro europeu, da União Europeia causa incerteza entre os investidores.

    O mercado do petróleo também causa preocupação aos investidores, revelou Merkulov.

    "A volatilidade se manteria em 2019. Apesar do acordo da OPEP para reduzir a produção de petróleo no primeiro semestre de 2019, para prevenir o aquecimento global, ainda existe um risco de excesso de oferta. Em 2019 seria ainda mais difícil para os países da OPEP chegar a um acordo sobre reduções da produção porque alguns países já cortaram significativamente sua produção de petróleo e querem aumentar a produção para apoiar os orçamentos. Mais um fator importante que pode afetar os preços do petróleo são as mudanças na demanda. Quedas nos mercados de ações poderiam levar à recessão nas economias dos maiores consumidores", explicou Merculov.

    Yaroslav Khudorozkov, da empresa de investimentos Veles Capital, por sua vez, não acredita que a crise abale a economia global em 2019.

    "O ano de 2019 não seria o início de uma crise, mas um período de transformação. Sem dúvidas, 2019 não será fácil, mas é muito cedo para prever o início de uma crise global, as oportunidades que surgiram como resultado do ataque de pânico de 2018 criaram uma longa perspectiva de estabilização dos mercados, especialmente dos mercados de ações como um ponto de crescimento em 2019 e nos próximos anos", explicou Khudorozkov.

    Para Andrei Kochetkov, analista principal da corretora russa Otkrytie Broker, em 2019 a economia global poderia enfrentar uma crise da dívida.

    "Os riscos de crise financeira global aumentaram, o que poderia levar a novos problemas de dívida. Em um período de juros do Fed [banco central dos EUA] perto de zero, as empresas e os Estados contraíram empréstimos imponderados e o serviço da dívida vai aumentar. Por conseguinte, a gigante dívida mundial está se transformando de uma ameaça potencial em uma ameaça real. Segundo as nossas estimativas, a possibilidade de uma crise global nos anos 2019-2020 aumentou significativamente e a crise está se tornando inevitável, pelo menos a nível regional", comentou Kochetkov à Sputnik Brasil.

    "A Turquia e a Argentina já se tornaram as primeiras vítimas desse processo, elas lidaram com as crises cambiais com bastante facilidade, mas ainda pode haver problemas reais pela frente", acrescentou ele.

    "Todos os maiores problemas de 2018 manterão sua atualidade no próximo ano. Em 2019 vamos seguir atentamente os dados macroeconômicos globais, as guerras comerciais, os preços do petróleo e a situação geopolítica", concluiu o estrategista da BKS Premier.

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    Tags:
    dívida, guerra comercial, crise econômica, economia, PIB, Turquia, Argentina, Rússia, China, EUA
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