18:27 20 Setembro 2021
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    A Sputnik Brasil conversou com um especialista para entender quais mudanças e novas negociações podem ocorrer no âmbito da segurança nuclear global dois anos após o fim do Tratado INF causado pela saída dos EUA do acordo.

    Após a saída dos Estados Unidos do Tratado sobre Eliminação dos Mísseis de Alcance Intermediário e de Menor Alcance - chamado de Tratado INF - em 2019, algumas consequências ainda são sentidas. A saída unilateral teria colocado em perigo a estabilidade estratégica global em segurança nucelar. Sergei Semyonov, coordenador do programa "Rússia e não-proliferação nuclear", do PIR Center, conversou com a Sputnik Brasil sobre como a saída dos norte-americanos comprometeu a estabilidade estratégica global em segurança nuclear.

    O coordenador relembrou o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário de 1987. Naquele ano, segundo ele, "foi possível eliminar completamente […] as duas classes mais desestabilizadoras de sistemas de mísseis, os mísseis de alcance intermediário e de menor alcance respectivamente", tais armas norte-americanos instaladas na Europa podiam atingir Moscou dentro de 7-8 minutos, "o que deixava muito pouco tempo para tomar uma decisão sobre retaliação ou seu adiamento em uma situação crítica", explicou o especialista.

    Destróier de mísseis guiados norte-americano USS John S.McCain, da classe Arleigh Burke, transita pelo mar do Sul da China realizando operação de rotina
    © Foto / Marinha dos EUA / Especialista em Comunicação de Massa da Primeira Classe Jeremy Graham
    Destróier de mísseis guiados norte-americano USS John S.McCain, da classe Arleigh Burke, transita pelo mar do Sul da China realizando operação de rotina

    "E agora que as restrições contratuais à produção e implantação de tais mísseis foram eliminadas, naturalmente aumenta o perigo de voltarmos à situação dos meados dos anos 80, quando esses sistemas de mísseis foram implantados na Europa, agora eles podem ser posicionados na Ásia nas imediações das fronteiras russas", pontuou. 

    Nova corrida armamentista

    Ele contou que a justificativa dos EUA para saída do Tratado INF foi o "fator da China" e agora alerta para um risco de uma nova corrida armamentista.

    "A maioria das forças de mísseis chinesas é representada por mísseis de médio e curto alcance, e supostamente Washington precisaria dar uma resposta ao potencial de mísseis de Pequim […] E tudo isso levará a uma espiral constante: uma resposta às medidas dos americanos, uma resposta às medidas dos chineses, digamos. Ou seja, se nós não acordarmos quaisquer novas restrições, então vamos viver em um constante limbo com risco de haver nova corrida armamentista", alertou. 

    De acordo com o tratado New START, a Rússia e os EUA têm, até 1.550 ogivas nucleares. Enquanto a China, segundo avaliações informais, tem cerca de 300. Por isso, a probabilidade de os EUA colocarem seus mísseis na Ásia é desacreditada pelo especialista, que pensa ser prematuro afirmar qualquer ação porque o "desequilíbrio é demasiado evidente". 

    "Há uma circunstância associada ao desequilíbrio no campo do INF: de acordo com cálculos americanos, até 90-95% do arsenal chinês de mísseis são meios de alcance intermediário e de menor alcance", diz Semyonov.

    Teste de novo míssil russo 9М333 da classe Strela-10M, fabricado pelo Grupo Kalashnikov
    © Sputnik / Serviço de Imprensa do Grupo Kalashnikov
    Teste de novo míssil russo 9М333 da classe Strela-10M, fabricado pelo Grupo Kalashnikov

    Retomada do Tratado INF

    A retomada do tratado depende da inserção da China. No entanto, Moscou afirmou não ter a capacidade de conectar Pequim às negociações sobre os acordos de desarmamento nuclear, mas Washington continuou insistindo no cumprimento desse requisito. De acordo com ele, é preciso pensar no que os EUA podem propor à China.

    "Por enquanto à China não foram feitas tais sugestões às quais ela estaria interessada em responder. Se falarmos do papel do fator chinês em todo este processo, a saída dos EUA do tratado INF obviamente influenciou o planejamento militar chinês".

    E continuou, "agora, na comunidade de especialistas e na mídia está em andamento uma viva discussão sobre a China ter começado a construção ativa de duas áreas de instalação de lançadores de mísseis balísticos intercontinentais, o que em teoria pode lhe permitir aumentar o arsenal de mísseis balísticos intercontinentais quase até 800 unidades. […] a China teme que os EUA criem nas proximidades das fronteiras chinesas um potencial de primeiro ataque e estão tomando as medidas correspondentes de prevenção", acredita Semyonov.

    Pressão pela OTAN e governo Biden

    Segundo o coordenador, a Rússia não violou os termos do Tratado INF e teria sido condenada injustamente por pressão da OTAN por acusações infundadas dos norte-americanos sobre a instalação de mísseis 9M729, supostamente proibidos pelo acordo. Ele conta que os 9M729 nunca foram testados e que a Rússia teria adotado "medidas de transparência sem precedentes, demonstrando o contêiner de lançamento deste míssil aos adidos militares credenciados em Moscou", defendeu.

    E aponta que por outro lado, os EUA é que deveriam ter sido enquadrados na definição de violação do acordo por uso de antimísseis, mísseis de alcance intermediário, de menor alcance ou seus elementos individuais e desenvolvimento ilimitado pelos EUA dos programas de veículos aéreos não tripulados equipados com meios de ataque, lista Semyonov referindo-se às proibições do acordo.

    Caça F-15C Eagle da Força Aérea dos EUA disparando o míssil AIM-120 AMRAAM
    Caça F-15C Eagle da Força Aérea dos EUA disparando o míssil AIM-120 AMRAAM

    O atual presidente dos EUA Joe Biden teria alterado a política de Trump apenas em relação ao New START, mas não sobre o Tratado INF, sobre o assunto Semyonov diz acreditar que Biden agiu "de acordo com o senso comum", já sobre os mísseis de alcance intermediário e de menor alcance ele aponta que especialistas próximos aos círculos democratas e à administração de Biden, "continuam convencidos de que foi a Rússia que violou o tratado", alegando que a Rússia tinha colocado os mísseis na Europa primeiro.

    Ele explica que mesmo que o governo Biden demonstre menor interesse na colocação imediata de mísseis na região Ásia-Pacífico ainda há o potencial. E que por isso, a Rússia teria sugerido aos EUA pensarem uma nova equação estratégica visando estabilidade global.

    "No tocante às perspectivas, ainda talvez é difícil falar de qualquer novo tratado, porque estamos ainda começando o processo de negociações com os norte-americanos, e formalmente isso não é um processo negocial, mas consultas interdepartamentais, a primeira rodada das quais foi realizada em 28 de julho em Genebra", contou o analista.

    Expectativas para os próximos passos

    Ele espera que os EUA continuem cumprindo a moratória sobre a instalação de tais mísseis, proposta pela Rússia: "Vamos esperar que assim continue. Porque é sempre mais fácil chegar a um acordo sobre o que não ainda foi instalado do que mais tarde chegar a um acordo sobre procedimentos concretos de remoção, eliminação, verificação e controle de todo este processo", crê.

    No entanto, a priori, os países da OTAN se opuseram a esta moratória alegando insistentemente que a Moscou já instalou tais mísseis. Atitude que o especialista critica, afirmando que é preciso "se afastar dessa posição de superioridade moral com referência a alegados dados de inteligência irrefutáveis".

    "Quem não quer falar com Lavrov, vai falar com Shoigu", referindo-se respectivamente aos ministros das Relações Exteriores e da Defesa russos.

    Ele conta que o presidente Putin já instruiu na criação de versões terrestres de sistemas de mísseis antinavio Tsirkon. "Este é um cenário hipotético, por enquanto, mas a Rússia será forçada a garantir sua segurança já aplicando medidas técnico-militares, instalando os sistemas correspondentes", diz Semyonov.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Rússia, EUA, China, segurança, estabilidade, nuclear, arma nuclear, corrida armamentista
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