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    Shell, a réplica da maior bomba nuclear soviética detonada, a AN-602 (Tsar-Bomb), em exposição em Moscovo, Rússia, 31 de agosto de 2015

    Como a 'Tsar Bomba' soviética ajudou a evitar uma guerra nuclear

    © REUTERS/ Maxim Zmeyev
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    Cinquenta e cinco anos atrás, a União Soviética detonou uma bomba de 50 megatoneladas em uma ilha desabitada ao norte do Círculo Ártico. Este teste da arma termonuclear mais poderosa já construída pelo homem deu a paridade nuclear à URSS com os EUA.

    A superbomba era uma necessidade

    O "degelo" nas relações soviético-americanas depois da visita do líder soviético Nikita Khrushchev aos Estados Unidos no outono de 1959 terminou em 1 de maio de 1960, quando um avião espião norte-americano U-2 pilotado pelo piloto da CIA Francis Gary Powers foi abatido no espaço aéreo soviético durante o reconhecimento aéreo do cosmódromo de Baikonur e de uma série de instalações militares e nucleares soviéticas. 

    Powers, que se evacuou de paraquedas, foi capturado e admitiu a natureza militar da sua missão. Como resultado, Khrushchev cancelou a abertura prevista de uma Cúpula Leste-Oeste, em Paris. 

    O incidente levou a uma deterioração acentuada das relações EUA-URSS, especialmente depois de emigrantes cubanos apoiados pelos EUA terem feito uma tentativa de invadir Cuba em abril de 1961. 

    A moratória proposta por Moscou sobre os ensaios nucleares na União Soviética, nos EUA e na Grã-Bretanha, em vigor desde 1958, tinha deixado a URSS muito atrasada em relação EUA no que tange aos arsenais nucleares. Até 1960, os norte-americanos tinham usado a moratória para aumentar o número de suas ogivas nucleares e termonucleares de 7.500 em 1958 para 18.600. 

    Em julho de 1961, Nikita Khrushchev decidiu revogar a moratória e começar a elaborar armas termonucleares superpoderosas para restaurar a paridade nuclear com os EUA. Ele também anunciou a necessidade de construir uma bomba de hidrogênio de 100 megatoneladas como meio de fazer os norte-americanos chegar a acordo. 

    Uma réplica da Tsar Bomba termonuclear em Moscou
    © Sputnik/ Mikhail Voskresenskiy
    Tsar Bomba 

    Uma equipe de quatro físicos nucleares foi encarregada de projetar e construir um dispositivo termonuclear em apenas 15 semanas. 

    Oficialmente designada como a bomba de hidrogênio AN602, a "Tsar Bomba" tinha três estágios: a reação de fissão principal era utilizada para iniciar a reação secundária que, por sua vez, iniciava a reação da terceira fase. 

    Explosão recorde

    Às 9:00 de 30 de outubro de 1961, um bombardeiro estratégico Tu-95-202 especialmente modificado transportando a bomba e um avião-laboratório Tu-16A decolaram rumo ao arquipélago Novaya Zemlya no Oceano Glacial Ártico. 

    Com 27 toneladas, a "Tsar Bomba" pesava quase tanto como o Tu-95 que a transportava e era tão grande que a tripulação teve de modificar algumas partes do avião, a fim de instalá-la. 

    Às 11:30 o dispositivo explosivo foi lançado de paraquedas à altitude 10.500 metros. O paraquedas era necessário para que a bomba levasse algum tempo a cair e as aeronaves pudessem deixar a área – tiveram rigorosamente 188 segundos para o fazer. A bomba explodiu a uma altitude de 4.200 metros. A explosão sem precedentes deveria atingir uma potência de 51,5 megatoneladas. Na realidade, o seu poder foi estimado em entre 57 e 58,6 megatoneladas. 

    A bola de fogo da explosão atingiu 4,6 quilômetros de diâmetro e era visível a uma distância de 1.000 quilômetros, apesar das nuvens densas. A nuvem radioativa levantou-se a quase 70 quilômetros e tinha um diâmetro de 95 quilómetros. 

    Por cerca de uma hora depois da explosão, foram observadas distorções do sinal de rádio na distância de centenas de quilômetros do epicentro devido à ionização da atmosfera. A onda de choque circulou o planeta três vezes. 

    Rescaldo 

    Embora a "Tsar Bomba" nunca pretendesse entrar em serviço ativo, a sua criação confirmou a capacidade nuclear da União Soviética. 

    Foi com essa percepção em mente que os Estados Unidos pararam de aumentar o seu arsenal nuclear e assinaram um tratado que proibia testes nucleares na atmosfera, no espaço exterior e subaquático. O documento foi assinado pela União Soviética, os Estados Unidos e o Reino Unido. 

    Desta forma, o evento de 30 de outubro de 1969, o teste da bomba de hidrogénio soviética, jogou assim um papel crucial na obtenção da paridade nuclear entre a União Soviética e os Estados Unidos e na prevenção de uma guerra nuclear.

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    Tags:
    arma nuclear, Nikita Khrushchev, EUA, URSS
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