13:20 17 Maio 2021
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    A Sputnik Brasil falou com a professora catedrática portuguesa Inês Duarte, do Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para saber se realmente há uma possibilidade de separação linguística entre Portugal e o Brasil.

    Não é segredo que no Brasil já começaram a se ouvir vozes de que o português brasileiro se distinguiu demasiadamente do português europeu. A linguista Duarte acusa o purismo na linguística brasileira que depois foi substituído por modernismo radical: 

    "O século XIX no Brasil, sobretudo os últimos 50 anos do século XIX, é um tempo em que aparece um purismo em relação à língua. Há intelectuais brasileiros a pedirem que os brasileiros falem a língua de Camões. Quando digo a língua de Camões não é metaforicamente, é literalmente, isto é, que vão aos textos do século XVI, falar como supostamente aqueles escritores falavam, o que é completamente idiota."

    Para Inês Duarte, uma das consequências desse purismo é a atitude que os modernistas brasileiros têm em relação ao idioma apostando na distinção como se fossem idiomas diferentes. 

    "O que acontece é que o modernismo insiste na especificidade do brasileiro. Curiosamente, o que nós temos depois, nos anos 70 e 80, são linguistas que, ao contrário dos antigos gramáticos (o Brasil teve gramáticos surpreendentes, melhores que os portugueses, durante o século XX, há um espetacular, Manuel Said Ali). O que acontece é que a nova geração de linguistas brasileiros dos anos 70 e 80 entram nessa onda do modernismo, eu penso que em alguns casos não como afirmação da cultura brasileira, é mais por desconhecimento do que era o português falado em Portugal", afirma. 

    Porém, agora a situação tenta se moderar e linguistas brasileiros já entendem que as duas variedades do idioma português não são tão diferentes no fim das contas, acredita a professora. Isto já cria condições para uma cooperação maior entre Portugal e o Brasil na área linguística.  

    "Agora decidir que as duas variedades são línguas diferentes tem mais a ver com questões políticas e econômicas do que com questões linguísticas", disse.

    Homem coberto com fita adesiva segura uma bandeira portuguesa e um cartaz dizendo “Quem lucra com os incêndios?”, enquanto centenas de pessoas se juntam na Praça do Comércio, Lisboa, em 21 de outubro de 2017, para protestar contra a resposta do governo aos recentes fogos florestais em Portugal
    © AFP 2021 / PATRICIA DE MELO MOREIRA
    Porém, este cenário é ruim para a linguista portuguesa:

    "Se nós insistimos em dizer que há duas línguas, nós perdemos no panorama mundial, porque no limite iríamos ter um português de Angola, outro de Moçambique etc… O que é mais importante para nós, é dizer que somos uma língua, como dizem os ingleses, os americanos ou os de Singapura, ou dizer que temos não sei quantas linguazinhas?"

    E os outros?

    Obviamente, a situação entre português brasileiro e português europeu não é a única. Há outros exemplos de diferenças até mais explícitas que não resultam em separação linguística por razões políticas e econômicas, explica a professora Duarte. 

    "Se nós olharmos para o que se passa nas línguas dos antigos impérios coloniais, o inglês, o espanhol, o francês, aquilo que nós verificamos é que, por exemplo, as diferenças entre o francês falado na França ou no Canadá são gigantescas, mas ninguém diz que o francês do Canadá não é francês. As diferenças entre o espanhol falado na Península Ibérica ou em São Domingos [capital da República Dominicana] são gigantescas, mas ninguém diz que há dois espanhóis." 

    Tags:
    língua portuguesa, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Brasil, Portugal
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