11:55 19 Novembro 2017
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    Vladimir Roslik durante estudos em Moscou

    Culpado por ser russo: documentário conta sobre a última vítima da ditadura uruguaia

    © Foto: Mary Zavalkin
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    Em 1984, o assassinato de Vladimir Roslik foi o último cometido pela ditadura uruguaia de extrema-direita. O motivo: ser descendente de russos e ter estudado na União Soviética. Um documentário sobre esta figura estreia na tela grande. Sputnik Mundo falou com o diretor e com a viúva e o filho de Roslik.

    Depois de mais de uma década de ditadura militar, em 1984 se vislumbrava uma saída da fase mais escura da história uruguaia. Na época, começou germinando a transição para um governo democrático, mas nos quartéis a repressão continuava. Em abril desse ano, o regime encontrou a sua última vítima: o médico da origem russa Vladimir Roslik.

    Agora, mais de três décadas passadas depois desta morte, um documentário não deixará o caso ficar sepultado no esquecimento.

    "Roslik e o povo das caras suspeitamente russas" (Roslik, y el pueblo de las caras sospechosamente rusas) mostra a tragédia através dos relatos de duas pessoas que viveram na sua própria carne as consequências do assassinato do médico: sua esposa, María Cristina Zabalkin, e o filho, Valery. Segundo disse o diretor da obra, o filme "é uma reconstrução do passado através da atualidade".

    Roslik havia sido preso, torturado e enviado para a prisão em 1980 sob a desculpa insólita de fazer parte de um complô para planejar uma invasão soviética através do rio Uruguai. Foi liberado um ano depois. Não teve a mesma sorte em 1984, quando os militares o levaram novamente de sua casa. Poucos dias depois foi encontrado morto, em circunstâncias não esclarecidas, mas com sinais de tortura e um relatório de autópsia que ocultava a repressão militar.

    "Depois das 24 horas em que levaram meu marido e me devolveram seu corpo, não sei o que foi que me iluminou. Talvez a injustiça e a mentira. Eu levei o cadáver e fui a outra cidade para fazer outra autópsia", contou María Zabalkin a Sputnik.

    Velório de Vladimir Roslik
    © Foto: Mary Zavalkin
    Velório de Vladimir Roslik

    A arbitrariedade e a autópsia falsa ganharam visibilidade nacional com uma investigação do semanário Jaque. Em pouco tempo, todo o país estava ciente da injustiça cometida pelos militares. Desde então, María Zabalkin se tornou ativista do movimento para manter viva a memória de Valodia (o diminutivo de Vladimir em russo) e para esclarecer os fatos que tiraram a vida a seu marido.

    "Para mim e para o meu filho foi muito traumático. Ele não recorda nada disso, mas contaram para ele e isso também é traumático", confessa Zabalkin.

    Vladimir Roslik com família
    © Foto: Mary Zavalkin
    Vladimir Roslik com família

    Em uma das cenas aparece uma mochila que pertencia ao médico assassinado. A cena simbólica mostra como María entrega essa mochila ao filho. Dentro dessa mochila há coisas que continuam doendo nos corações dos moradores de San Javier, povoado em que nasceu e viveu Roslik e que foi fundado por imigrantes russos em 1913. Muitos se encontraram automaticamente sob suspeita de uma possível ligação com a URSS devido a suas origens.

    "Temos que continuar procurando a justiça, porque há uma ausência total neste caso, e é capaz de eu, com 64 anos, já não conseguir vê-la. Isso eu compreendi quando eu tinha 30 e provavelmente Valery também não seja capaz de fazê-lo, mas talvez meus netos… um dia nós temos que saber por que aconteceu tudo isso", lamentou a viúva de Roslik.

    Valery disse à Sputnik Mundo que o problema de sua geração é que não viram a ditadura com seus próprios olhos: "Não sabemos mais do que podemos ouvir, ler ou ver. É por isso que apoiamos tanto o documentário, para que estas gerações saibam o que aconteceu."

    "O meu velho era para mim uma pessoa muito boa, com um coração grande e bem humilde, do povo, que dava tudo pelo próximo", disse o filho de Vladimir e María.

    O registro do documentário muda de acordo com a parte que narra. As partes mais cruas são contadas através de animação. Goyoaga explicou que, ao começar falando com Valery, o jovem disse que ele viveu todo "um conto" do que os outros iam transmitindo, pois tinha poucos meses de vida quando seu pai morreu.

    "Ele era um personagem importante dessa história, e para muita gente a foto de Vladimir com ele nos braços é um ícone. Então, daí surgiu a ideia de contar algumas coisas com animação, que por um lado nos permite narrar momentos difíceis sem cair no golpe baixo, e por outro lado também tem a questão mais infantil, de alguém que está construindo essa história", explicou o diretor do documentário.

    Vladimir Roslik com seu filho Valery nos braços
    © Foto: Mary Zavalkin
    Vladimir Roslik com seu filho Valery nos braços

    Na época, quando parecia que a Justiça ia poder investigar os crimes da ditadura, o Parlamento uruguaio aprovou uma lei para proteger da ação dos magistrados os casos ocorridos na ditadura. Como outros, o assassinato de Roslik "ficou preso nessa impunidade que se estava formando".

    Em San Javier, o fato provocou feridas. De acordo com Zabalkin "dividiu o povo". "Há gente que sabe que tudo foi uma mentira, porém há outros que ficaram duvidando. Quando começam essas dúvidas e as suspeitas quanto a um vizinho, a sociedade começa se dividindo", disse a viúva de Roslik.

    María Cristina Zabalkin, viúva de Vladimir Roslik, e seu filho Valery visitam o escritório da Sputnik em Montevidéu
    © Sputnik/ Sputnik
    María Cristina Zabalkin, viúva de Vladimir Roslik, e seu filho Valery visitam o escritório da Sputnik em Montevidéu

    A impunidade judicial fez com que María mantivesse viva a memória de Vladimir através de ONGs para o benefício da população de San Javier.

    Valery concluiu que "há que continuar lutando para que se saiba a verdade", apesar de ele e sua mãe estarem "um pouco cansados". No entanto, isso não é obstáculo para que ambos mantenham seu compromisso de fazer "tudo o que podem".

    "Ela [María] já está muito esgotada. Ela já não tem o físico como antes e faz anos que eu lhe estou ajudando. Depois seguirei eu", concluiu Valery Roslik.

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    Tags:
    história, ditadura, União Soviética, Uruguai
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