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    Um pôr do sol em Carauari, em 21 de agosto de 2015

    'Mudança de ave destruiria tudo'

    © AFP 2017/ NELSON ALMEIDA
    Cultura
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    "As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá". O poeta tinha toda razão, quando, comparou Portugal ao Brasil.

    As aves que gorjeiam em Moscou são mais distintas ainda. O livro “Eram vozes – que uniam-se co’as brisas” publicado pela editora Rudomino, com o apoio da embaixada do Brasil na Rússia, trouxe um pouco do canto do sabiá para o clima setentrional da capital russa.

    O livro reúne uma seleção de poemas representativos do romantismo brasileiro: Antônio Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Luiz Fagundes Varela e Antônio Castro Alves. A obra é caraterizada pela editora como "jovem", tanto em relação à tradutora, que acaba de concluir sua graduação pela Universidade Estatal de Linguística de Moscou, como em relação à própria poesia brasileira, jovem se comparada com a europeia. Sendo assim, a autora não segue o padrão de escolha das editoras brasileiras, selecionando obras específicas. Por exemplo, no Gonçalves Dias do livro, você encontra o sabiá, mas o índio não é tão índio como em edições brasileiras.

    Desde o surgimento da ideia, o livro levou dois anos para ser publicado. É uma edição bilíngue, o que permite ao leitor, que sabe português, conferir o original e "até propor uma opção diferente" da tradução.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Varvara Makhortova, a tradutora, explica os critérios de escolha das obras e autores e falou sobre o que a literatura brasileira proporciona ao leitor estrangeiro, em especial ao russo.

    ***

    Sputnik: Por que você escolheu precisamente o romantismo brasileiro? Como você escolheu os autores e as obras? Qual obra de toda a literatura brasileira tem mais significado para você?

    Varvara Makhortova: Há duas razões para a escolha do romantismo brasileiro. Primeiro, o romantismo brasileiro desempenhou um papel enorme no estabelecimento da literatura nacional do Brasil. Os poetas do romantismo brasileiro se esforçaram, no século XIX, para tornar a literatura do Brasil independente. E eles conseguiram, sem dúvida. Segundo, uma parte do movimento poético brasileiro, tão importante para o país, tem sido muito raramente traduzida para o russo, tornando difícil o acesso aos leitores russos. Eu achei tal lacuna infundada e pretendi preenche-la.

    O romantismo brasileiro é um fenômeno polifacético. Eu gostaria que o leitor tivesse a possibilidade de descobrir as obras dos representantes mais brilhantes das três gerações do romantismo brasileiro. A primeira delas é o indianismo, que destaca a natureza, o interesse à cultura indígena e ao passado histórico do Brasil. Gonçalves Dias é o poeta que mais se destacou nesta geração. Muitos brasileiros conhecem, desde quando crianças, versos da "Canção do Exílio", escrita em 1843, e que, alguns, fazem parte do hino nacional.

    Casimiro de Abreu, o "poeta da alvorada", cujo ideal e a tranquilidade foram perdidos na infância, e Fagundes Varela, o poeta da noite, cujos versos são impregnados de misticismo, merecem menção especial como representantes da trágica "Geração Byroniana".

    E, por fim, a Geração Condoreira. O condor, pássaro dos Andes, vê todo o mundo da altura do seu voo. O escritor que mais se destacou nesta geração foi Castro Alves, cujo legado tem poesia de cunho social e lírica amorosa.

    Um condor catalogado como N. 428 visto na Califórnia (foto de arquivo)
    © AP Photo/ Angela Woodsite/Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos EUA
    Um condor catalogado como N. 428 visto na Califórnia (foto de arquivo)

    Por isso eu escolhi obras destes autores brilhantes. Todas estas poesias são preciosas para mim, de uma forma ou de outra.

    Falando sobre a literatura brasileira como um todo, por causa da sua riqueza e diversidade, eu hesito em escolher uma obra distinta. Eu até acho que as obras de Machado de Assis e de Jorge Amado são especialmente parecidas com as escolhidas.

    S: Você teve alguma dificuldade durante o seu trabalho? Por exemplo, quando tentava preservar a rima, o ritmo e a ideia inicial do poema ao mesmo tempo?

    VM: A tradução de poesia é sempre uma façanha pouco fácil e por isso é especialmente interessante.

    Cada poema é um sistema complexo, todos os componentes significativos e formais dele se interligam e se entrelaçam. Ao traduzir um texto poético, é preciso ter em conta todos os elementos deste sistema, tentando recriar aquela ligação viva que reflete as principais particularidades do original.

    Durante o meu trabalho, para mim era importante, de um lado, traduzir a essência nacional, que é um aspecto muito importante para o romantismo brasileiro, e do outro, fazer com que esta poesia se aproxime mais do leitor russo.

    Falando em dificuldade, eu destacaria alguns momentos ligados à natureza brasileira e à cultura indígena, pois os poetas do romantismo brasileiro escolheram o sabiá como o símbolo do Brasil. Esta ave aparece em várias obras de muitos poetas, inclusive na "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias. Apesar de o sabiá ser desconhecido pelo público russo, eu achei importante conservar esta imagem [e o nome, escrito em cirílico, é explicado em nota de rodapé — Redação]. Uma mudança de ave destruiria todo o poema.

    Uma ave da espécie Turdus amaurochalinus vista na Argentina em 4 de novembro de 2009
    © AFP 2017/ DANIEL GARCIA
    Uma ave da espécie Turdus amaurochalinus vista na Argentina em 4 de novembro de 2009

    Há uma peculiaridade indígena, que é a saia de pena chamada arazoia. Durante a cerimônia nupcial, o noivo veste a noiva com tal acessório para comemorar o ato de matrimônio. Para saber isso e traduzir esta realidade corretamente, foi preciso consultar um dicionário do idioma tupi.

    Um homem e uma mulher indígenas passam com a tocha de inauguração dos Jogos Mundiais Indígenas em Palmas, Tocantins, em 23 de outubro de 2015
    © AFP 2017/ CHRISTOPHE SIMON
    Um homem e uma mulher indígenas passam com a tocha de inauguração dos Jogos Mundiais Indígenas em Palmas, Tocantins, em 23 de outubro de 2015

    Em certos poemas, como "Napoleão", de Fagundes Varela, cada detalhe tem um significado: o famoso manto de Napoleão, Marengo, Austerlitz e o salgueiro da ilha de Santa Elena. Eu devia levar tudo isso em consideração durante a tradução.

    Além disso, vale notar que os poetas do romantismo brasileiro gostavam de testar a sonoridade, buscando novas formas capazes de transportar os seus sentimentos da melhor maneira possível. Por isso o aspecto rítmico-melódico é essencial para esta escola. Um dos poemas de Casimiro de Abreu, "A Valsa", segue a melodia da dança. Era importante, durante a tradução, recriar uma sonoridade parecida que se aproximasse da original.

    S: Qual é o potencial, segundo você, que o leitor russo tem para com a literatura brasileira traduzida ao russo?

    VM: Eu acho que este potencial é enorme, porque a cultura do Brasil não pode deixar de interessar o leitor russo. Para muitas pessoas na Rússia, o Brasil é um mundo maravilhoso e pitoresco, longínquo e misterioso. E, contudo, mesmo que pareça um paradoxo, eu acho que as personalidades brasileira e russa têm muito em comum, e isso abre possibilidades para o intercâmbio cultural e enriquecimento recíproco.

    O encontro com a poesia brasileira é uma brilhante possibilidade de conhecer melhor a cultura do Brasil, muito diversa e original. Pois não se diz em vão que a poesia reflete o espírito do povo.

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    Tags:
    literatura, tradução, Varvara Makhortova, Brasil, Rússia
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