19:21 14 Junho 2021
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    O diretor de cinema brasileiro Tony Valentte já estreou com um documentário sobre o preconceiro - contra nordestinos em São Paulo. Agora ele busca muçulmanos de todo o mundo para fazer um filme sobre o Islã no mundo. O projeto se chama "Nações Unidas, sou muçulmano". A Sputnik Brasil contatou o cineasta para saber detalhes.

    Sputnik: A primeira pergunta não podia deixar de ser esta: o senhor é muçulmano?

    Tony Valentte: Não sou e nem tenho religião, mas também não sou ateu.

    S: O que levou o senhor a começar este projeto?

    TV: Trabalho com produção audiovisual educativa a mais de 15 anos e escolhi esse ano de 2016 (quando completo 40 anos) de fazer um vídeo documentário que o tema abordado fosse de grande relevância social e que além disso, a abordagem pudesse de alguma maneira colaborar com a sociedade. Pesquisei muitos temas e motivado por um amigo convertido muçulmano, entendi a necessidade de se fazer um filme documentário que mostra-se para a sociedade que ser muçulmano é uma escolha religiosa e cultural e que além disso resta um ser humano, um cidadão, com sonhos, família, com obstáculos no seu dia a dia e ainda precisa lidar com o extremo preconceito por ser muçulmano, que inclusive atrapalha ainda mais sua vida. Então, decidi que esse era o tema, mas não irei contar a história muçulmana, irei retratar histórias emocionantes de pessoas que enfrentaram e enfrentam grandes desafios por ser muçulmano na luta para sobreviver, realizar seus sonhos e cuidar da sua família. Quero emocionar o público e fazer a sociedade enxergar as pessoas como elas são e desconstruir essa associação da religião com o terrorismo. Pois em todas religiões existem pessoas que fazem escolhas ruins e são também terroristas, corruptos, ladrões, pedófilos, enfim, escolher esses caminhos de vida, não tem nada a ver com sua escolha religiosa.

    S: Se não me engano, há diversas considerações sobre o número dos muçulmanos no Brasil, que variam entre 45 mil e 1,5 milhões. De todos modos, mesmo sendo uma minoria, a comunidade muçulmana no Brasil parece estar crescendo. A que o senhor atribui este crescimento?

    TV: O crescimento se dá pela fácil adaptação deles no país, somos uma nação de pluralidades culturais e por enquanto hospitaleiros. Mas os reflexos da grande campanha mundial contra o povo muçulmano vem atingindo e manipulando as pessoas por aqui, ainda mais com as ameaças que sofremos. Por isso, precisamos urgente de uma campanha esclarecedora do que é ser muçulmano e acredito que o documentário irá ajudar a trabalhar positivamente e esclarecer quem são e por que são muçulmanos.

    Uma mulher vestindo niqab em Casablanca, Marrocos (foto de arquivo)
    © Sputnik / Natalia Seliverstova
    Uma mulher vestindo niqab em Casablanca, Marrocos (foto de arquivo)

    S: A atual crise de refugiados na Europa repercutiu na América Latina também, o Brasil, no ano passado, foi listado como o país latino-americano que mais refugiados da Síria recebe. Como isso se reflete na sociedade brasileira?

    TV: Hoje os reflexos ainda não são negativos, somos um país geograficamente grande e ainda não existe declaradamente uma rejeição, mas temo que é uma questão de tempo, para esse quadro mudar. Principalmente devido a campanha do medo que é feita por alguns segmentos da mídia generalizadora.

    S: O Brasil deveria continuar aceitando imigrantes e refugiados de regiões muçulmanas do mundo?

    TV: Acredito que sim, ainda não enfrentamos o problema de alguns países com super população, temos problemas sociais como muitos outros, hoje enfrentamos uma declarada crise politica, mas ainda somos um País maravilhoso em todos os sentidos e podemos receber sim imigrantes, como sempre recebemos, temos que ajudar os povos, pois tirando a bandeira e idioma, somos todos seres humanos e portanto, devemos ajudar uns aos outros.

    S: Quais condições devem ser criadas para os muçulmanos no Brasil? As atuais são suficientes?

    TV: No Brasil os imigrantes se adaptam bem, claro que enfrentam os mesmos problemas que os brasileiros com  a atual crise, mas o povo muçulmano é diferenciado, normalmente em sua maioria ótimos comerciantes e todos que eu conheço conseguem se estabilizar socialmente melhor que os próprios brasileiros. Não vejo necessidade de se criar condições especiais para receber os imigrantes muçulmanos.

    Muçulmanos chineses celebram o início do mês sagrado de Ramadã na mesquita de Pequim, em 1 de julho de 2016
    © AFP 2021 / NICOLAS ASFOURI
    Muçulmanos chineses celebram o início do mês sagrado de Ramadã na mesquita de Pequim, em 1 de julho de 2016

    S: Como as tensões políticas no Brasil contribuem para o desenvolvimento da comunidade muçulmana? Os muçulmanos têm uma postura política consolidada neste sentido?

    TV: Ao meu ver, as atuais tensões politicas não contribuem com o desenvolvimento de nenhuma comunidade, e falando dos muçulmanos pelo que eu notei em minhas entrevistas e pesquisas, as tensões que sentem são causadas pelas as recentes ameaças (Daesh), pois caso se consolide, pode fazer crescer o preconceito e rejeição do povo brasileiro, de forma declarada e isso sim é preocupante.

    Um muçulmano fotografa a Grande Mesquita de Moscou durante a celebração de Eid al-Adha em 2016
    © Sputnik / Vladimir Astapkovich
    Um muçulmano fotografa a Grande Mesquita de Moscou durante a celebração de Eid al-Adha em 2016

    S: Há uma comunidade significante de pessoas com raízes no Oriente Médio nos altos escalões do poder brasileiro: o próprio Michel Temer, Geraldo Alckmin, Fernando Haddad… Eles não são muçulmanos; mas o senhor já imaginou um alto funcionário brasileiro muçulmano: presidente, presidente da Câmara, do Senado, ou prefeito ou governador? Como seria esta experiência?

    TV: Eu imagino que independente de qual religião seja o ocupante de um cargo de alto escalão, se ele for bom gestor, certamente toda nação ganha. 

    S: Um dos esportistas olímpicos brasileiros, Jadel Gregório, converteu-se ao Islã em 2005. Há algum período em que a quantidade das conversões cresce? Quais são?

    TV: Enfrentamos uma crise de fé, as pessoas buscam doutrinas que lhes passe credibilidade, que seja estruturada e que tenha tradição, e o islamismo tem essas qualidades. O aspecto negativo que vejo em muitas religiões é o radicalismo em querer provar que é a melhor ou a correta e a intolerância com a visão contrária da sua fé.  Se Deus é amor, devemos praticar esse amor incondicional. E deixar com que cada individuo conheça todas as formas de praticar sua fé e ele vai escolher qual ele se identifica. O mais importante é vivermos em paz com todos os diferentes e respeitando cada ser vivo, para podermos viver seguros e felizes.

    S: Muitos contemporâneos nossos, que assistem aos comunicados da mídia, têm às vezes uma ideia do Islã que o liga ao extremismo religioso. No entanto, no Brasil há pelo menos duas pessoas públicas que já usaram a alcunha de Bin Laden, famoso terrorista islamista: um deles candidatava-se a deputado federal em 2012 e outro, MC Bin Laden, está se preparando agora para dar um concerto em Nova York. Segundo o senhor, o uso de nomes como este em um contexto de diversão é apologia e exploração excessiva de uma imagem famosa ou não? Como o senhor qualificaria este fenômeno?

    TV: Eu não acho positivo se apropriar de nomes que marcaram a história da humanidade com ódio e derramamento de sangue de inocentes. Entendo que fazem isso, justamente para serem populares e ganharem espaço na mídia. Qualifico isso como mau gosto. E triste, pois nossas crianças absorvem tudo isso.

    S: O senhor já ouviu falar sobre ameaças que o Daesh ("Estado Islâmico") fez contra o Brasil? Os receios são justificados?

    TV: Certamente será uma ótima estratégia (de guerra) dos terroristas, pois promoverá mais medo no mundo. E por isso, certamente devemos ter receio. Pois vamos ter um evento mundial de esporte, várias nações estarão aqui e será ideal para terrorista fazerem sua propaganda do medo e sentir-se empoderados. Isso é muito preocupante.

    S: O que a comunidade islâmica brasileira faz para combater a propaganda terrorista do Daesh e para fomentar o Islã pacífico?

    TV: Eu vejo que existem tentativas pelas redes sociais com postagens esclarecedoras, mas ainda isoladas e sem grande repercussão. Temos que conseguir espaço na grande mídia e por isso, vejo grande potencial com o filme de vídeo documentário Nações Unidas, sou muçulmano. Pois nele vou além de mostrar três emocionantes histórias, irei provocar a sociedade a refletir, o quão tolos somos quando generalizamos, seja por conveniência ou falta de informação.

    ***

    Tony Valentte no seu estúdio
    © Foto / Foto de arquivo pessoal de Tony Valentte
    Tony Valentte no seu estúdio

    No final da entrevista, Tony Valentte acrescentou este trecho justificando a sua proposta como um desafio ao preconceito:

    "Sobre o projeto "Nações Unidas, sou muçulmano".

    Preciso encontrar boas histórias e quero aproveitar esse espaço disponibilizado pelo amigo jornalista e dizer que muçulmanos não brasileiros também podem fazer contato, desde que mandem sua história em português, para que eu possa avaliar.

    E que recentemente eu sofri preconceito também, pois sempre tive um grande financiador de meus filmes que desta vez apenas por que eu decidi fazer um vídeo documentário sobre muçulmanos ele me abandonou, pois me disse a seguinte frase: Me desculpe amigo, não vou financiar filme sobre essa gente, são terroristas, se não gostarem do filme, vão nos matar! Desta vez não conte comigo!

    Bom, isso demonstra a importância de que esse projeto precisa ser feito, para mostrar que os muçulmanos na sua maioria não são terroristas e assassinos!"

    Tony Valentte com sua câmera
    © Foto / Foto de arquivo pessoal de Tony Valentte
    Tony Valentte com sua câmera
    Tags:
    islã, religião, Tony Valentte, Brasil
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