09:50 18 Agosto 2017
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    Irajá (nesta foto de 26 de junho de 2013) é uma favela no Rio de Janeiro, bonita e perigosa ao mesmo tempo

    ‘Um Ministério da Cultura isolado tem menos força’

    © AP Photo/ Nicolas Tanner
    Cultura
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    Vladimir Kultygin
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    Em sua segunda visita a Moscou, o renomado violinista brasileiro Fábio Zanon trouxe versão para violão de Schumann, além de Villa-Lobos e outros compositores brasileiros, e falou à Sputnik sobre a situação da música hoje em dia.

    Muito sério e concentrado, o violinista paulista Fábio Zanon deu na sexta-feira (27) um concerto na Embaixada do Brasil em Moscou, continuando a série de eventos culturais organizados pelo embaixador, Antônio José Vallim Guerreiro, e o setor cultural da embaixada, encabeçado por Igor Germano.

    O concerto começou com adaptações para violão da Kindersonate do austríaco Schumann e de umas danças do espanhol Enrique Granados (ambas originalmente escritas para piano). Esta parte foi, por assim dizer, a estreia parcial russa do disco de Zanon gravado pelo selo GuitarCoop, batizado "The Romantic Guitar" ("O Violão Romântico"). Ficou encerrada com uns trechos da Première Grande Polonaise do polonês Jan Nepomucen Bobrowicz. Já a segunda metade da apresentação consistiu de obras de autores brasileiros: inclusive o famoso (mesmo na Rússia) Heitor Villa-Lobos e Francisco Mignone. O show terminou com uma composição não prevista pela programação: Danza Paraguaya, de Agustín Barrios.

    Depois do concerto, o músico aceitou o convite para falar um pouco sobre a música e o Brasil.

    "A situação no Brasil hoje não tem uma resposta, se alguém teria uma explicação plausível, eu desconfiaria muito", disse à Sputnik Fábio Zanon. No atual âmbito de incerteza política, que tocou inclusive na área da cultura (lembrem da recente ardente discussão sobre Ministério ou Secretaria da Cultura), era impossível não perguntar a opinião do mestre.

    No mesmo quesito dos ministérios, Zanon se mostrou universalista.

    "Eu acho que a cultura tem que estar junto com a educação, com ciência, tecnologia, junto com a inovação. Um Ministério da Cultura isolado tem menos força. Então, eu pessoalmente sou a favor da junção de ambas as coisas. Primeiro, isso reduziria a burocracia estatal e segundo, eu acho que a música se beneficia do contato com outros setores que são interrelacionados", disse o músico, sem deixar de lembrar os exemplos da Alemanha e do Reino Unido, que não possuem uma pasta ministerial dedicada à cultura só.

    A Alemanha, com certeza, não tem nenhuma autoridade ministerial para cultura (há educação e ciência, juntas — a detentora da pasta é Johanna Wanka), e o Reino Unido misturou cultura com mídia e esporte no departamento homônimo, com estatuto ministerial.

    A Rússia, por sua parte, tem um Ministério da Cultura, do qual faz parte também a Agência Federal do Turismo (Rosturizm). O ministério é chefiado no momento por Vladimir Medinsky.

    No Brasil, o Ministério da Cultura, primeiro extinto pela gestão interina de Michel Temer e depois recriado, é chefiado pelo antigo secretario da Cultura do Rio de Janeiro, Marcelo Calero, sem partido. A decisão do governo interino de anular a extinção do ministério foi tomada depois de duras críticas e recusas de assumir o cargo de secretário da pensada Secretaria por parte de várias personalidades de renome e respeito na área cultural.

    Apesar da atual situação política instável no país, Fábio Zanon vê grande futuro para a música brasileira. Inclusive graças à maior inclusão.

    "O Brasil especialmente nos últimos 15 anos tem tido uma mudança de paradigma", assinala o violinista, sorrindo e explicando que a situação de hoje, com crianças de "todas as comunidades sociais" estudando música de orquestra, é bem diferente da situação dos anos 1970, quando estudava o próprio Zanon e quando "quem estudava a música clássica era gente de famílias da classe média, gente de família de imigrantes, família alemã, família italiana".

    Está inclusão tem uma imagem, relatada por Zanon nestas palavras: "Você vê um menino que mora na favela em uma família completamente destruturada e tocando trombone que nem um Apolo. Coisas incríveis que se veem no Brasil a toda hora".

    Trombone na favela já foi realidade: por exemplo, em 20 de novembro de 2015, o conjunto Tokyo Ska Paradise Ochestra tocou no Pereirão, organizando depois um ateliê de música para crianças
    © AFP 2017/ YASUYOSHI CHIBA
    Trombone na favela já foi realidade: por exemplo, em 20 de novembro de 2015, o conjunto Tokyo Ska Paradise Ochestra tocou no Pereirão, organizando depois um ateliê de música para crianças

    O concerto de Zanon continua a série de eventos culturais organizados pela Embaixada do Brasil em Moscou, que já trouxe à capital russa música erudita brasileira tocada por intérpretes brasileiros e russos. Além disso, a embaixada mostra o seu apoio à tradução para o russo de clássicos brasileiros, apresentando, em abril, a primeira tradução de Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (publicada pela editora Symposium em 2015), entre outros lançamentos.

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    Tags:
    favela, música, Embaixada do Brasil na Rússia, Antonio José Vallim Guerreiro, Fábio Zanon, Moscou, Brasil
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