21:31 17 Dezembro 2017
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    Mariana Gomes.

    Brasileira Mariana Gomes está com Balé Bolshoi nos palcos de Rio e São Paulo

    Cultura
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    Após 16 anos, a maior referência da dança clássica no mundo, o Balé Bolshoi de Moscou, está de volta ao Brasil em turnê pelo Rio de Janeiro e São Paulo. Uma de suas estrelas, a bailarina Mariana Gomes, a primeira brasileira a dançar na grande companhia russa, falou com exclusividade à Sputnik Brasil.

    Além de Mariana, estão na turnê dois outros brasileiros do Bolshoi – Erick Swolkin e Bruna Gaglianone, ambos, como Mariana, formados pela Escola Bolshoi de Joinville, Santa Catarina, a única do Bolshoi fora da Rússia. Mais seis alunas da escola catarinense fazem parte dos balés “Spartacus” e “Giselle”, agora encenados nos palcos carioca e paulista.

    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, no Rio de Janeiro, a bailarina Mariana Gomes fala dos 9 anos de trabalho na companhia russa. Primeira brasileira a ser contratada pelo Bolshoi, ela começou a dançar aos sete anos na Escola de Balé Adalgisa Rolim, na Bahia, e aos 14 anos, incentivada por uma professora, participou de um teste na Escola Bolshoi de Joinville, sendo selecionada entre os 4.700 currículos enviados. Mais tarde, Mariana foi convidada a concluir os estudos em Moscou.

    Mariana Gomes no estúdio da Rádio Sputnik, no Rio de Janeiro.
    Sputnik / Jussara Razze
    Mariana Gomes no estúdio da Rádio Sputnik, no Rio de Janeiro.

    A bailarina contou que sua adaptação na Rússia foi muito difícil, tanto no dia a dia do Teatro quanto junto aos outros bailarinos, pois Mariana foi a primeira estrangeira a chegar à companhia. “Foram inúmeras dificuldades”, diz ela. “Eu cheguei ao Bolshoi e eles não estavam acostumados com ninguém de fora. Eles não sabiam bem como lidar com isso. Cheguei a um ponto em que, certa vez, cinco minutos antes de começar o “Lago dos Cisnes”, que ia ser apresentado no Kremlin, eu não tinha um figurino para vestir, porque ninguém sabia que eu ia dançar, e as camareiras não conseguiam se comunicar comigo. Eu também não podia receber o salário no banco, como todo mundo, porque eu era estrangeira.”

    Hoje, no entanto, Mariana Gomes lembra com bom humor as dificuldades para aprender a língua e os problemas para conseguir se comunicar com a família, porque “há 10 anos não havia tanta facilidade de internet e tecnologia”. Ela recorda: “Foi bem difícil, eu não falava nada de russo, nenhuma palavra. Hoje, quando eu lembro assim meus primeiros dias, meu primeiro ano no Bolshoi, às vezes me pergunto como aguentei, da onde veio tanta força, porque 10 anos atrás não havia a facilidade de hoje com telefone, internet e wi-fi, eu passava meses sem falar com meus pais, sem saber o caminho para ir para casa ou de ir para o Bolshoi, então eu me virava, assim como coisa de filme.”

    Mariana Gomes conta que agora está ajudando os compatriotas Erick Swolkin e Bruna Gaglianone a lidar com o dia a dia na Rússia. O casal está há quatro anos na companhia, em Moscou. “Foi muito interessante quando eles chegaram, porque só eu poderia comparar a chegada de mais dois brasileiros com a minha chegada. A reação das pessoas foi totalmente diferente, óbvio, porque os bailarinos russos já sabiam a origem, já sabiam da onde vinham, e até comigo a relação mudou. Eles já entenderam que a Escola de Joinville realmente leva bailarinos para a Rússia. Erick e Bruna também vieram em outra época, com mais tecnologia, e todos os problemas com documentação e banco eu já tinha ensinado ao Bolshoi, mas é claro que eles devem ter passado também suas dificuldades, como aprender o russo, porque eles sempre conversam entre eles.”

    Em relação à performance internacional de Erick e Bruna, Mariana ressalta que ambos são muito talentosos. “Eles estão indo muito bem, eu sou fã do Erick Swolkin, porque esse balé “Spartacus” é um balé praticamente masculino, montado por Yuri Grigorovich em 1986, então são três atos em que os meninos dançam muito mais do que as meninas, e a gente adora, porque o tanto que a gente dança no “Lago dos Cisnes” eles compensam agora no “Spartacus”. Já no balé “Giselle”, a gente tem muito mais trabalho, os meninos não fazem quase nada, e aí eles vão para a praia [risos].”

    Em meio ao trabalho como bailarina do elenco principal do Bolshoi, Mariana Gomes contou que também se formou em Pedagogia em Dança Clássica. “A carreira está indo muito bem, já tenho 10 anos de Teatro”, conta ela. “Sou artista de primeira categoria do Corpo de Baile e danço vários solos, trios e quartetos. Então, estou indo bem. Terminei minha faculdade de Pedagogia em Dança Clássica, que fiz em quatro anos em Moscou. Ainda tenho mais 10 anos para trabalhar – são 20 anos, normalmente, de carreira. Tenho que aproveitar a carreira curta que a gente tem, e mais tarde a gente começa a pensar nas segundas opções.”

    Ao ser questionada sobre o que vai fazer quando chegar o término da carreira no palco, e se, como pedagoga, vai trabalhar na Rússia ou voltar para o Brasil, Mariana diz que é uma pergunta difícil, mas que o lugar dela é no Brasil. “Eu vejo que aqui no Brasil as portas vão se abrir para mim, até por eu ter sido a primeira brasileira no Bolshoi. Eu acho que as oportunidades no Brasil vão ser enormes, e espero que seja, porque aqui é a minha casa. Ter uma escola de dança é uma das opções, talvez até que tenha uma porcentagem ou o total de crianças carentes, porque eu sei a dificuldade e a dedicação de crianças que têm mais necessidades, elas se dedicam muito mais ao balé. Eu também nunca fui de uma família rica, e então meus objetivos e vontade de crescer talvez tenham sido maiores por isso. Essas crianças que têm menos condições – e no Brasil são muitas –, eu acho que elas, sim, podem dar um futuro para a dança no Brasil.”

    Mariana faz um balanço da carreira e explica que conseguiu chegar aonde queria. “Eu não me considero uma estrela”, diz. “Por outro lado, lembrando a fase de criança, acho que alcancei exatamente o que eu queria, mas a gente sempre quer mais. Ultimamente eu tenho repetido muito uma frase que acho que descreve a história da minha vida, que é: eu não sabia que era impossível, fui lá e fiz. Muitos impossíveis ainda tenho pela frente, por exemplo, a segunda fase da minha vida, que, depois que terminar de dançar, com certeza vou querer continuar trabalhando com dança e arte, e vai começar o meu segundo impossível.” 

    A temporada do Balé Bolshoi no Rio de Janeiro “tem um gostinho especial”, pois, segundo Mariana Gomes, é a primeira vez que está dançando no Theatro Municipal do Rio. Para a bailarina, “é uma emoção diferente toda vez que se está no palco, mas quando se sabe que está no Brasil e que a plateia é sua, que o público fica procurando você no palco, isso é especial”. Ela comenta: “É a primeira vez, por incrível que pareça. Apesar de ter dançado muito no Brasil na época da Escola do Teatro Bolshoi, nunca dancei no Rio de Janeiro. Foi preciso eu viajar pelo mundo inteiro para poder voltar ao Rio de Janeiro. A primeira apresentação [que aconteceu na quarta-feira, 17 de junho] foi com o balé “Spartacus”, e foi ótima, o público nos recebeu superbem. Os russos até comentaram que mais parecia um jogo de futebol, com a plateia gritando.”

    Nos dias em que não há espetáculo no Rio, a bailarina diz que, por ser brasileira, está atendendo à imprensa, enquanto os colegas russos se divertem pelas praias da cidade. “São muitos ensaios e apresentações todos os dias, e no intervalo de tempo livre, claro, meus amigos russos estão aproveitando a cidade, estão indo às praias, mas estou atendendo à mídia com o maior prazer, embora meus amigos russos não entendam por que não saio com eles.”

    E sobre a vida amorosa? Mariana Gomes explica que para uma bailarina do Bolshoi ter tempo para namorar é complicado, bem como arrumar quem entenda a vida dedicada ao balé. “Meu príncipe, só tenho na atuação. Minha vida afetiva é simples, é uma mulher que não tem nenhuma sexta, sábado e domingo, tem uma segunda-feira de folga que é para colocar todos os problemas em dia, para começar a semana de novo, e que trabalha de 6 a 10 horas por dia. É difícil achar alguém que acompanhe e que entenda. Isso é o que a Bruna já tem de vantagem, porque ela é namorada do Erick.”

    A temporada do Balé Bolshoi no Theatro Municipal do Rio de Janeiro acontece até domingo, 21, Depois a companhia segue para São Paulo, onde se apresenta no Teatro Bradesco – Shopping Bourbon, até o dia 28.

    Tags:
    bailarina brasileira, dança clássica, balé, Spartacus, Lago dos Cisnes, Teatro Bradesco, Theatro Municipal, Balé Bolshoi, Escola do Teatro Bolshoi, Kremlin, Yuri Grigorovich, Mariana Gomes, Bahia, Joinville, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Moscou, Rússia, Brasil
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