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    Pesquisadores que escavaram sítios contendo caçadores-coletores no Peru encontraram uma jovem mulher caçadora de nove mil anos, chegando à conclusão de que ela estava longe de ser uma exceção.

    Os caçadores-coletores das montanhas dos Andes, no Peru, praticavam igualdade entre os sexos, com mulheres caçando presa animal tal como os homens, de acordo com um estudo publicado na revista Science Advances.

    Durante uma escavação na região em 2013, Randy Haas, professor de antropologia na Universidade da Califórnia, Davis, EUA, contou que estava trabalhando quando um habitante local chegou e relatou que havia centenas de ferramentas de pedra antigas espalhadas nas proximidades. Mais tarde, o local passou a ser chamado Wilamaya Patjxa.

    Após finalmente resolver problemas logísticos, sua equipe começou a escavar a região em 2018, encontrando diversos sepultamentos até 2019.

    WMP6, uma mulher de 17 a 19 anos com conjunto de ferramentas de caça in situ datada de 9 mil anos (A) Foto ortoretificada, georreferenciada. (B) Mapa vetorial mostrando posições de materiais do esqueleto e bens de sepultura associados. (C) Artefatos in situ do chão do poço de sepultamento incluindo pontas de projéteis (1 a 7), escamas não modificadas (8 a 10), escamas retocadas (11 a 13), uma possível faca de suporte (14), raspadores de miniaturas (15 e 16), raspadores/cortadores (17 a 19), pedras de queimar (17, 20 e 21) e nódulos de ocre vermelho (22 a 24)
    Restos de uma mulher com equipamento de caça encontrados durante escavações em Wilamaya Patjxa, no Peru

    Em um deles foi encontrada uma mulher de nove mil anos, que na época tinha entre 17 e 19 anos de idade, algo confirmado por uma análise detalhada das proteínas de seus dentes.

    O fato de ter estado enterrada com ferramentas de pedra não indica necessariamente que era caçadora, pois podia ser um costume cultural. Porém, Kathleen Sterling, professora de antropologia da Universidade de Binghamton em Nova York, EUA, que não fez parte do estudo, argumenta ao portal Live Science que tal fato não é costume quando homens são enterrados com ferramentas, pois indica que eram caçadores. Por isso, a identidade de caçadora não deveria ser duvidada sem uma boa razão.

    Mito ou realidade?

    De forma a verificar se a presença da mulher caçadora era uma exceção ou uma norma, os cientistas pesquisaram a literatura de outros funerais de caçadores-coletores do fim do período Pleistoceno (que terminou cerca de 11.700 anos atrás) e do início do Holoceno (que começou cerca de 12.000 a 11.500 anos atrás), e procuraram locais de sepultamento desse período em toda a América.

    WMP1, um homem de 25 a 30 anos de idade com pontas de projéteis associados in situ. (A) Mapa com foto ortoretificada. (B) Mapa vetorial mostrando posições de materiais e artefatos esqueléticos. (C) Pontas de projéteis in situ incluindo uma ponta 3E ígnea preta e uma ponta 3B de cerne branca
    Restos de um homem com equipamento de caça encontrados durante escavações em Wilamaya Patjxa, no Peru

    Arqueólogos encontraram sepultados com ferramentas de caça 15 indivíduos masculinos e 11 femininos, definindo com posterior análise estatística que entre 30% e 50% desses caçadores eram mulheres, o que levou os arqueólogos a concluir que os papéis de gênero não eram tão bem definidos como muita gente pensava nesse tipo de sociedades.

    Arqueólogos conduzem escavações em Wilamaya Patjxa, no Peru
    © AFP 2020 / Universidade da Califórnia, Davis, EUA / Randall Haas
    Arqueólogos conduzem escavações em Wilamaya Patjxa, no Peru

    Sterling afirma que a idade seria mais importante que o sexo, pois os métodos usados para caçar e o tamanho dos grupos sociais na época "significa que deveríamos ter assumido isso sempre, uma vez que a maioria das crianças e adultos mais velhos teriam sido necessários para conduzir rebanhos a penhascos ou armadilhas, ou para disparar projéteis em rebanhos que se moviam na mesma direção".

    "Estas descobertas ressaltam a ideia de que os papéis de gênero que tomamos como garantidos na sociedade atual, ou que muitos tomam como garantidos, podem não ser tão naturais quanto alguns pensavam", disse o autor principal Randy Haas, professor de antropologia na Universidade da Califórnia, Davis, EUA.

    "Este estudo deve ajudar a convencer as pessoas de que as mulheres participaram de grandes caçadas", concorda Sterling.

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    Tags:
    Science Advances, Universidade da Califórnia, Américas, Peru, EUA, Nova York
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