05:22 25 Outubro 2020
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    Cientistas estudaram como o tipo de sangue Dantu, descoberto no Quênia, se defende do parasita mais perigoso transmissor da malária, concluindo que pode oferecer alta proteção contra a doença.

    Os pesquisadores descobriram que a rara variante do sangue Dantu, identificado em 2017, e encontrada regularmente apenas em partes da África Oriental, oferece algum grau de proteção contra a malária. Cientistas de uma equipe internacional estabeleceram agora como aumentar a proteção contra a doença.

    A malária é uma doença causada por cinco espécies de parasitas transmitidos por mosquitos, que tiram a vida de 435.000 pessoas por ano em todo o mundo, 61% das quais são crianças menores de cinco anos de idade.

    Em Kilifi, uma cidade da costa queniana, 10% da população tem uma cópia do gene Dantu, o que confere até 40% de proteção contra a malária. Um por cento da população tem duas cópias.

    Os parasitas se infiltram nos glóbulos vermelhos usando o sistema de "porta com fechadura". A pesquisa de uma vacina contra a doença tem se concentrado em mudar a "fechadura" de nossos glóbulos vermelhos ou manipular a "chave", mas as soluções encontradas oferecem apenas 35% de proteção contra as formas mais mortíferas da doença, no melhor dos casos.

    O tipo de sangue Dantu elimina a própria "porta" com uma cópia do gene, oferecendo até 40% de proteção contra todas as formas graves de malária, e até 70% se houver cópias de cada um dos parentes.

    Além disso, mesmo duas cópias do gene não oferecem efeitos adversos à saúde, ao contrário dos portadores do chamado traço falciforme, que confere 80% de proteção contra a malária mas pode causar doença séria caso uma pessoa tenha duas cópias do gene.

    "Na verdade, a variante Dantu aumenta ligeiramente a tensão da superfície dos glóbulos vermelhos", explica ao portal Phys.org a geneticista Silvia Kariuki do Programa de Pesquisa da instituição filantrópica Wellcome Trust do Instituto de Pesquisa Médica do Quênia.

    "É como se o parasita ainda tivesse a chave para a fechadura, mas a porta é pesada demais para ele a abrir", descreve.

    Mecanismos do gene

    Desta vez, os pesquisadores examinaram amostras de sangue de 42 crianças saudáveis em Kilifi, cujos resultados publicaram na revista Nature, testando como os glóbulos vermelhos do sangue Dantu respondem ao Plasmodium falciparum, o parasita que provoca a forma mais mortal da malária.

    Especialistas da organização internacional Médicos sem Fronteiras em campanha contra a malária na República Centro-Africana
    © AFP 2020 / Andoni Lubaki
    Especialistas da organização internacional Médicos sem Fronteiras em campanha contra a malária na República Centro-Africana

    Um vídeo feito a partir do microscópico com lapso de tempo revela que os glóbulos vermelhos Dantu criaram uma defesa até então desconhecida, formando uma membrana celular mais "apertada" e impedindo a entrada do parasita.

    Os autores teorizam que, ao mudar a expressão de certas proteínas da membrana, o tipo de sangue Dantu possui células com uma membrana esticada como se fosse um tambor, prevenindo a infecção e a proliferação do parasita no sangue.

    Após analisar amostras de sangue em alta resolução, a equipe científica encontrou consideravelmente mais parasitas enredados nos glóbulos vermelhos com tensões superficiais mais baixas, o que pode explicar por que o Plasmodium falciparum costuma preferir o sangue dos mais jovens, cujas células têm tensão mais baixa em geral.

    "A membrana dos glóbulos vermelhos só precisa estar um pouco mais tensa do que o normal para bloquear a entrada dos parasitas da malária", diz a biofísica Viola Introini, da Universidade de Cambridge, Reino Unido.

    "Desenvolver um medicamento que aumente esta tensão pode ser uma forma simples, mas eficaz de prevenir ou tratar a malária", conclui.

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    Tags:
    África, Phys.org, Nature, Revista Nature, Universidade de Cambridge, Reino Unido, Quênia
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