12:51 09 Agosto 2020
Ouvir Rádio
    Ciência e tecnologia
    URL curta
    COVID-19 desafia mundo no início de junho (54)
    2130
    Nos siga no

    Desde o aparecimento do novo coronavírus que os cientistas têm se esforçado por encontrar um tratamento e uma vacina. Mas muitas equipes também estão trabalhando para determinar como surgiu.

    Teria tido origem em um morcego? Em um pangolim? Teria havido vazamento acidental de um laboratório? Seria uma arma biológica? Várias hipóteses têm sido colocadas ou alvo de especulação.

    Contudo, uma equipe internacional liderada por Xiaojun Li, da Universidade de Duke (EUA), confirma, em um estudo recentemente publicado, que o vírus é resultado de uma combinação de dois vírus, um do morcego e outro do pangolim.

    Segundo o portal Trust My Science, que analisou a pesquisa, as análises anteriormente realizadas do genoma do novo coronavírus eram relativamente ambíguas.

    Assim, se alguns cientistas asseveravam que o SARS-CoV-2 tinha vindo de uma população local de morcegos, outros apontavam para os pangolins, mamíferos em vias de extinção e que são comercializados ilegalmente no Sudeste Asiático.

    Na realidade, segundo o estudo, ambos são responsáveis, pois o SARS-CoV-2 formou-se com fragmentos de vírus de morcego combinados com vírus dos pangolins, o que teria sido decisivo para a transmissão para humanos.

    Vírus diferentes trocam informações

    Como é que vírus de duas espécies diferentes podem se unir desta forma? Através da recombinação genética, uma troca de informações entre dois genomas diferentes ou entre dois cromossomas. Este é, na verdade, um processo essencial para a evolução das espécies. O fenômeno também pode ser observado nos vírus, onde a recombinação pode ocorrer em células infectadas por dois vírus diferentes.

    Enquanto na maioria das vezes a troca ocorre entre fragmentos de DNA, uma troca de RNA também é possível (especialmente no caso de certos vírus como a gripe): pedaços de RNA misturados podem formar novas combinações genéticas.

    Mas no caso do novo coronavírus, que tem uma molécula de RNA particularmente longa, o processo é diferente: a enzima responsável pela cópia do RNA pode se desprender repentinamente do cordão de RNA copiado, enquanto permanece presa à cópia parcial.

    Há dois cenários possíveis: na maioria das vezes, a cópia é abandonada, mas às vezes a enzima consegue se ligar a outro RNA e depois pega a cópia de onde ela parou. Mas, para que isso aconteça, os dois RNAs devem ser muito parecidos, sendo o resultado final uma recombinação de dois vírus diferentes.

    Mistura ideal para melhor atingir os humanos

    Para confirmar a hipótese de recombinação, os autores do estudo examinaram os genomas de 43 coronavírus de diferentes espécies (humano, morcego e pangolim) conhecidos por se assemelharem ao SARS-CoV-2.

    Uma análise inicial mostrou que o SARS-CoV-2 estava intimamente relacionado a um coronavírus de morcego, a tal ponto que o seu RNA mostrou 96,3% de semelhança genética com o vírus RaTG13 CoV, coletado de um morcego em Yunnan (China) em 2013.

    Esta imagem de microscópio eletrônico sem data, disponibilizada pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA em fevereiro de 2020, mostra o novo coronavírus SARS-CoV-2, amarelo, surgindo da superfície das células, azul/rosa, cultivadas em laboratório
    © AP Photo / NIAID-RML
    Imagem do SARS-CoV-2 dado por um microscópio eletrônico

    Mas algumas zonas do RNA pareciam ser de um vírus diferente, não necessariamente da mesma espécie. Para os pesquisadores, era a evidência que houve, de fato, recombinação.

    Ao mesmo tempo, amostras de coronavírus de pangolins coletadas nas províncias chinesas de Guangdong e Guangxi apresentaram, respectivamente, 91,2% e 85,4% de similaridade com o SARS-CoV-2.

    A amostra de Guangxi apresenta uma diferença significativa em relação ao vírus do morcego: esta diferença diz respeito à proteína de espícula (esporão), existente na superfície do vírus e que permite que ele se ligue às células humanas.

    Os pesquisadores lograram determinar que a proteína de espícula, que define com quais proteínas das células humanas pode interagir, é originária de um coronavírus do pangolim.

    Perturbadoras possibilidades de recombinação

    Este estudo genômico dos coronavírus também revelou exatamente onde ocorrem alterações nas proteínas virais. Esta informação é particularmente interessante porque uma intolerância à mudança em uma área específica do genoma pode significar que a proteína codificada por essa parte do genoma é essencial.

    Os pesquisadores identificaram assim várias regiões do genoma que são refratárias à mudança, uma das quais é parte da proteína de espícula, derivada do vírus do pangolim: dos 6.400 genomas SARS-CoV-2 isolados durante a pandemia, apenas oito apresentaram mudanças a este nível.

    Conclusões

    Tal fato confirma que a sequência genômica derivada do pangolim é crucial para que o vírus afete os seres humanos. O vírus sofreu uma pressão chamada de "seleção", que o tornou capaz de infectar um novo hospedeiro: os humanos.

    Imagem de microscópio eletrônico de transmissão mostra SARS-CoV-2, o vírus que causa a COVID-19
    Imagem de microscópio eletrônico de transmissão mostra SARS-CoV-2, o vírus que causa a COVID-19

    Assim sendo, os cientistas apuraram que o advento do novo coronavírus SARS-CoV-2 é unicamente resultado de uma alteração genética natural.

    Entender a forma como o SARS-CoV-2 se originou pode ajudar a desenvolver estratégias para prevenir a transmissão entre espécies no futuro.

    No entanto, muitos coronavírus parecem trocar informações genéticas regularmente. Embora essas trocas sejam mais frequentes entre vírus cujo alvo seja a mesma espécie, os cientistas obtiveram agora evidências de que também podem ocorrer em vírus que se encontrem bem mais distantes.

    Mesmo assim, é difícil equacionar todas as possibilidades e nos prepararmos para outras mutações virais que possam ser potencialmente perigosas para os seres humanos.

    Tema:
    COVID-19 desafia mundo no início de junho (54)

    Mais:

    Desenvolvida lâmpada ultravioleta de alta intensidade que poderia matar coronavírus
    Quanto tempo coronavírus permanece no corpo de infectados?
    Coronavírus começou 'como acidente' em laboratório chinês, diz ex-chefe da inteligência britânica
    Estudo revela grupo sanguíneo mais resistente ao coronavírus
    Tags:
    genoma, pandemia, novo coronavírus, COVID-19
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar