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    Avanço da pandemia de COVID-19 em meados de maio (112)
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    Cientistas encontraram primeiras evidências claras de que coronavírus causa a síndrome de Kawasaki, que faz o sistema imunológico do organismo atacar seus próprios órgãos, afetando crianças.

    Uma equipe de cientistas da Universidade de Birmingham estudou oito crianças internadas em um hospital de Birmingham (Reino Unido) entre 28 de abril e 8 de maio.

    As crianças estavam sofrendo da síndrome de Kawasaki ou do choque tóxico, e o estudo revelou que as crianças foram infectadas pelo SARS-CoV-2 semanas antes de desenvolverem os sintomas da síndrome, revelou o portal France24news.

    Choque tóxico

    A média de idade das crianças internadas era de nove anos e cinco dos pacientes eram meninos. Sete dos pacientes apresentavam sintomas de hiperinflamação e doença de Kawasaki.

    Tendo todas as crianças dado negativo no teste laboratorial padronizado normalmente usado para detectar a presença do novo coronavírus em adultos, testes de anticorpos revelaram que as crianças estavam infectadas pelo SARS-CoV-2 e que tinham produzido anticorpos para combater o patógeno.

    Os médicos que trataram as crianças garantem que os testes de anticorpos são a única maneira de identificar com precisão a presença do vírus em jovens com condição hiperinflamatória, que pode ser fatal. Os anticorpos normalmente são detectáveis a partir de 14 dias após a primeira infecção.

    "Estas respostas de anticorpos muitas vezes persistem no corpo durante meses e muitas vezes muitos anos depois", afirmou Adam Cunningham, chefe da equipe de cientistas, citado pelo France24news.

    Não se sabe por que a síndrome se desenvolve semanas após a infecção, mas os cientistas acreditam que ela pode ser devido a uma reação exagerada do sistema imunológico do organismo, fazendo com que ele fique fora de controle, podendo danificar as células do corpo.

    Agente de saúde se prepara para realizar teste de COVID-19 em criança, na cidade de Jian, província de Jiangxi, na China, 13 de maio de 2020
    © AFP 2020 / STR
    Agente de saúde se prepara para realizar teste de COVID-19 em criança, na cidade de Jian, província de Jiangxi, na China, 13 de maio de 2020

    A síndrome que afeta crianças tem sido provisoriamente chamada de síndrome inflamatória pediátrica multissistêmica temporariamente associada ao SARS-CoV-2 (PIMS-TS, na sigla em inglês).

    No entanto, cientistas britânicos defendem que a definição da condição é incorreta porque não está "temporalmente associada" à pandemia, mas, sim, "desencadeada por uma infecção pelo SARS-CoV-2".

    Sintomas

    A maioria das crianças hospitalizadas por esta doença tem tido febre alta por vários dias, dor abdominal severa e diarreia.

    Algumas desenvolvem uma erupção cutânea e olhos ou lábios vermelhos, enquanto um grupo mais reduzido entra em choque, afetando o coração, sente frio nas mãos e nos pés e tem respiração acelerada.

    Os sintomas são semelhantes aos causados pela síndrome de Kawasaki, uma doença rara mas tratável que afeta cerca de oito em cada 100.000 crianças a cada ano no Reino Unido.

    Seria causado pelo coronavírus?

    Os médicos estão quase certos de que a doença é causada pelo coronavírus, mas ainda não conseguiram provar.

    Os casos começaram a surgir quando a epidemia de coronavírus do Reino Unido atingiu seu pico e condições semelhantes foram relatadas na China e na Itália durante a pandemia.

    No entanto, nem todas as crianças com síndrome de Kawasaki deram positivo para o vírus, mas todos os pacientes deram positivo para os anticorpos, o que significa que já tiveram o coronavírus no passado.

    Homem com máscara e crianças em aeroporto no Iraque (foto de arquivo)
    © AFP 2020 / HAIDAR HAMDANI
    Homem com máscara e crianças em aeroporto no Iraque (foto de arquivo)

    Trata-se de um "fenômeno pós-infeccioso" que é causado por um atraso na reação excessiva do sistema imunológico, que pode ocorrer semanas ou até mesmo um mês após a criança ter sido infectada pelo novo coronavírus, sugerem especialistas.

    Existe tratamento?

    Sim. Todas as crianças diagnosticadas com a síndrome, exceto uma, sobreviveram. A única falecida, um menino de 14 anos, morreu de um derrame provocado pela máquina de suporte de vida à qual estava ligado.

    Atualmente os médicos estão tratando a doença usando medicamentos para acalmar o sistema imunológico e aliviar o excesso de reação. As crianças geralmente ficam muito doentes por quatro a cinco dias, começando a se recuperar alguns dias após o início do tratamento.

    Seis dos pacientes tiveram que ser internados em terapia intensiva pediátrica devido a problemas cardíacos e à baixa pressão sanguínea causada pela doença.

    Todos apresentaram sinais positivos após o tratamento e desde então tiveram alta da terapia intensiva.

    Alarme social

    Devido aos relatos da mídia e às afirmações de importantes assessores e políticos de destaque de que a doença poderia estar ligada à pandemia do novo coronavírus, os pesquisadores recolheram amostras de sangue para análise das oito crianças.

    Desenvolveram um teste personalizado de anticorpos com a ajuda de pesquisadores da Universidade de Southampton (Reino Unido), liderados por Max Crispin com recurso a uma cópia artificial de uma proteína-chave na superfície do coronavírus que se parece com um pica-pau.

    Este "espigão" único é um identificador-chave para o vírus assassino. Max Crispin modelou as pontas da superfície da proteína, o que permitiu a sua equipe produzir uma cópia quase exata do espigão e misturá-la com amostras de sangue dos pacientes.

    Os cientistas constataram que certos anticorpos se ligaram ao espigão, como se o próprio vírus estivesse invadindo.

    Nos testes, os pesquisadores procuraram ver qual dos três tipos de anticorpos – IgG, IgA e IgM – estaria preso ao vírus mímico.

    Leitura positiva de IgM nos testes significa infecção recente enquanto se for de IgG e IgA mostra infecção mais antiga, dizem os cientistas, segundo o France24news.

    As oito crianças tinham anticorpos IgG e IgA, mostrando que tinham sido infectadas pelo SARS-CoV-2 semanas antes.

    Casos semelhantes na Itália

    Outras análises em outros países sugerem que a rara doença inflamatória é cada vez mais vista em crianças pequenas e que está de fato ligada ao novo coronavírus, revela o France24news.

    Equipe de pesquisadores da Lombardia, na Itália - o epicentro da epidemia no país - examinaram dez casos pediátricos com sintomas da síndrome de Kawasaki.

    A título de comparação, levando em consideração os últimos cinco anos, apenas 19 crianças tinham sido admitidas em prontos-socorros italianos com sintomas da síndrome de Kawasaki.

    Criança com máscara para se proteger do coronavírus no Uruguai
    © AP Photo / Matilde Campodonico
    Criança com máscara para se proteger do coronavírus no Uruguai

    Nos últimos dois meses, os casos da doença de Kawasaki são 30 vezes superiores ao habitual, tendo 80% das crianças admitidas em hospital acusado positivo para anticorpos anticoronavírus e 60% tiveram complicações mais graves, como problemas cardíacos.

    "Notamos um aumento no número de crianças encaminhadas ao nosso hospital com uma doença inflamatória semelhante à síndrome de Kawasaki quando a epidemia do SARS-CoV-2 eclodiu em nossa região", afirmou Lucio Verdoni, líder da equipe e reumatologista pediátrico do hospital Papa Giovanni XXIII, em Bergamo, na Itália, citado pelo France24news.

    "Embora essa complicação continue sendo muito rara, nosso estudo fornece evidências adicionais sobre como o vírus pode afetar as crianças", disse Verdoni, exortando os pais a "seguirem a orientação médica local e buscarem atendimento médico imediato caso se sintam indispostos".

    "A maioria das crianças se recupera totalmente se elas receberem cuidados hospitalares adequados", garante o especialista.

    Mudar a definição de PIMS-T

    A título de conclusão, os pesquisadores britânicos da Universidade de Birmingham asseguram que suas pesquisas mostram que a única maneira de diagnosticar pacientes com sintomas de síndrome inflamatória grave que testem negativo para coronavírus em testes padronizados (PCR, na sigla em inglês), é através de testes de anticorpos.

    "Em nosso estudo, nenhuma das crianças acusou positiva por PCR, mas todas deram positivo por teste de anticorpos. Isso pode significar que a doença se desenvolveu depois que as crianças já tinham eliminado o vírus", afirmou Cunningham, citado pelo France24news.

    "Em última análise, os testes de PCR e anticorpos têm papéis sobrepostos no diagnóstico desta síndrome. De uma forma realmente emocionante, a detecção de anticorpos também pode fornecer pistas sobre como esta síndrome se desenvolve", rematou Cunningham não sem antes propor que se abandonasse a designação PIMS-TS, uma vez que a condição do tipo Kawasaki era agora conhecida.

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    Tags:
    síndrome, pandemia, bebês, crianças, COVID-19, novo coronavírus
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