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    Em estuários de todo o mundo, minúsculos vermes tremátodes tomam conta dos corpos de caracóis aquáticos, neles instalando as suas colônias.

    Esta matéria foi analisada em um estudo da Instituição Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia, em San Diego, publicado na quarta-feira (26) na Biology Letters.

    Como em muitas outras sociedades animais altamente organizadas, como abelhas e formigas, as colônias de tremátodes formam castas para dividir a carga de trabalho.

    Uns são reprodutores e de maior porte, assegurando a sobrevivência da espécie. Outros, os soldados, são menores, mas com bocas maiores, protegendo a colônia contra invasões externas de tremátodes concorrentes.

    "As pessoas pensam em parasitas atacando, não sendo atacados. Mas estes [vermes] parasitas têm de estar aptos a lutar pela colônia dentro dos hospedeiros e lidar com o risco de invasão do [caracol] hospedeiro", observou o coautor Mark Torchin.

    Mas o acréscimo de soldados significa uma diminuição dos vermes reprodutores.

    "Sociedades animais, como a dos tremátodes , têm que manter um equilíbrio entre reprodução e proteção", afirmou a autora principal Emlyn Resetarits. "Quantos vermes reprodutores deveriam existir na colônia, e quantos soldados? Estes números são constantes, ou mudam em resposta à pressão ambiental?"

    Tremátode (imagem referencial)
    Tremátode (imagem referencial)

    Os cientistas procuraram então a resposta a esta questão.

    Os pesquisadores demonstraram pela primeira vez que o número de soldados em uma colônia de tremátodes depende da ameaça de invasão local, mostrando que tais sociedades produzem exércitos consoante o grau de ameaça invasora.

    Os vermes "não querem partilhar o seu caracol com outros tremátodes, por isso, à medida que sua população se instala no caracol hospedeiro, começam a gerar soldados para combater qualquer potencial invasor", disse Ryan Hechinger, outro autor do estudo.

    Para chegarem a esta conclusão, investigadores recolheram para análise laboratorial caracóis em 38 locais diferentes com níveis variáveis de ameaça de invasão em 12 estuários ao longo da costa do Pacífico, desde o Panamá até ao norte da Califórnia.

    Foram dissecados 150 caracóis para determinar o número de vermes soldados em cada um deles.

    Caracol marinho (imagem referencial)
    Caracol marinho (imagem referencial)

    O estudo incidiu sobre seis espécies diferentes de tremátodes.

    Cientistas confirmaram então a hipótese formulada: os caracóis coletados em locais onde havia um maior risco de serem invadidos por outros parasitas tinham sempre mais vermes soldados prontos para atacar qualquer nova ameaça.

    "Ao contrário de muitos outros organismos, estas sociedades de tremátodes dentro dos caracóis são unidades altamente reproduzíveis", afirmou Resetarits.

    "Há mais toneladas de carne de tremátodes do que de aves nestes estuários", acrescentou Hechinger.

    O próximo passo da pesquisa será estudar a versatilidade destes vermes, determinando se geram soldados também em função do seu nível populacional, independentemente da existência ou não de ameaças externas.

    "Esta descoberta não é apenas um projeto de pesquisa interessante. Ela servirá como [...] modelo para estudar questões sociobiológicas fundamentais", concluiu Hechinger.

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    Tags:
    ciência, vida marinha, caracol, verme
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