15:35 16 Julho 2018
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    Modelo do módulo orbital chinês Tiangong 1 em um salão aeroespacial  na China

    Como Portugal se prepara para queda da estação espacial chinesa Tiangong-1?

    © AP Photo / Kin Cheung
    Ciência e tecnologia
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    Caroline Ribeiro
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    Desgovernada desde março de 2016, a estação espacial chinesa Tiangong-1 está prestes a reentrar na atmosfera da Terra. De acordo com a última previsão da Agência Espacial Europeia (ESA), será neste fim de semana, entre meio-dia de sábado (31) e a tarde do domingo (1).

    Não há como definir o ponto exato da queda da nave. A ESA estima que seja em qualquer lugar do planeta entre as latitudes 43º norte e 43º sul.

    Mapa da queda da estação espacial chinesa Tiangong-1 preparada pela Agência Espacial Europeia
    Mapa da queda da estação espacial chinesa Tiangong-1 preparada pela Agência Espacial Europeia
    Pelo gráfico da agência europeia, Portugal se situa em uma das zonas de maior "probabilidade de impacto". A situação é vista com tranquilidade pelo governo português.

    "Do ponto de vista tecnológico e científico, este evento constitui uma oportunidade de monitorar e prever a reentrada de objetos produzidos pelo homem na atmosfera, possibilitando afinar a tecnologia e os algoritmos existentes para obter resultados mais assertivos em eventos deste gênero", afirma o Comandante João Neves, do Ministério da Defesa de Portugal, em conversa com a Sputnik Brasil.

    O país tem mostrado uma maior ambição pela conquista do espaço nos últimos dois anos. Em 2017, Portugal se candidatou ao Space Surveillance and Tracking, programa europeu para detectar e prever a trajetória de lixo espacial. Já em 2016, a base da Agência Espacial Europeia na Ilha de Santa Maria, no arquipélago dos Açores, monitorou a colocação de satélites em órbita pela primeira vez. 

    O diretor do Observatório Astronômico de Lisboa, Professor Rui Agostinho, explica à Sputnik Brasil que o trabalho da base da ilha é decisivo no caso de algo dar errado durante um lançamento. A antena da base recebe as informações diretamente do foguete. Se algum problema é detectado, ela permite à sala de controle decidir se vai ou não explodir o equipamento ainda no ar, para que ele se fragmente e, ao cair, não represente um perigo.

    "Isto é diferente daquilo que está a acontecer, porque a antena não tem a capacidade de estudar a trajetória que a nave chinesa tem. Para isso é preciso um tipo de rastreio que tem que acompanhar, que não é apenas rádio, pode ser ótico também, para saber onde o objeto anda. Portanto, o que está na ilha de Santa Maria está adaptado àquilo que são os lançamentos feitos pela Agência Espacial Europeia", explica o professor.

    De acordo com o Comandante João Neves, participar do acompanhamento de eventos como a saga da nave chinesa é o próximo passo.

    "Estamos a trabalhar no sentido de constituir esta capacidade, que se prevê estar operacional dentro de alguns meses e, assim, fazer parte de um esforço internacional para monitorar e prever eventos com origem nas órbitas próximas da Terra", afirma o militar.

    Existe o risco?

    Tiangong-1 pode não se desintegrar completamente quando chegar à Terra, processo que ocorre comumente com satélites de menor porte.

    "Um satélite de telecomunicação só tem que ter resistência mecânica suficiente para a altura do lançamento. Pode ser grande, mas a quantidade de parafusos e sistemas mecanicamente muito robustos não é assim tão grande. Em consequência, quando entra pela atmosfera, o embate, o aquecimento de milhares de graus a que estão sujeitos, consegue desfazer este satélite todo. O resultado é que ele se fragmenta e não há perigo algum daquilo vir a cair e causar danos", explica Rui Agostinho.

    "Uma estação espacial é diferente. É feita para ter pessoas dentro e elas têm que ser protegidas enquanto estão no espaço. Isto leva a uma construção muito mais rígida, capaz de resistir. Obviamente a estação irá fragmentar-se em vários pedaços, mas há partes mais resistentes que não sofrerão com o aquecimento e o impacto da reentrada na atmosfera", diz o professor.

    Vale destacar que a estação espacial chinesa tem mais de 10 metros de comprimento e pesa oito toneladas.

    De acordo com o Comandante João Neves, não há medidas preventivas completamente formuladas para evitar possíveis danos causados pelos destroços "dada a rara natureza e a aleatoriedade destes eventos, mas os sistemas de proteção civil têm implementados procedimentos que pretendem mitigar os efeitos que daí advenham".

    Constrangimento internacional

    A China se aventurou no espaço com a Tiangong-1 em setembro de 2011, mas a nave apresentou dificuldades em manter a altitude logo depois do lançamento. A Administração Espacial Nacional da China  conseguiu contornar os problemas e chegou a planejar uma reentrada controlada, para que o equipamento caísse sobre uma área não populada no sul do oceano Pacífico.

    No entanto, em março de 2016 a estação espacial parou de funcionar. Tiangong-1 está à deriva desde então.

    "Quando a trajetória é controlada, com o passar dos meses vai se sabendo exatamente o local da queda e o os chineses não foram capazes de fazer isso", diz Rui Agostinho. O Professor explica que qualquer programa espacial está sujeito a imprevistos, "mas ninguém estava à espera que uma agência deixasse tudo assim ao deus dará".

    Tags:
    nave espacial, programa espacial, espaço, Tiangong-1, Agência Espacial Europeia (ESA), Portugal, China
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