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    A Sputnik Brasil conversou com o professor Renan Bernardes sobre a ausência de Bolsonaro na lista da revista Time, a imagem do presidente no exterior, e as repercussões da queda de popularidade de Bolsonaro nas eleições do ano que vem.

    A revista Time divulgou a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2021 na semana passada e deixou o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), de fora.

    A lista é dividida em seis categorias: ícones, pioneiros, titãs, artistas, líderes e inovadores. No grupo dos mais influentes líderes, que inclui políticos do mundo inteiro, estão figuras como os presidentes dos EUA, Joe Biden, da China, Xi Jinping, do Irã, Ebrahim Raisi, e de El Salvador, Nayib Bukele, os primeiros-ministros de Israel, Naftali Bennett, da Índia, Narendra Modi, e da Itália, Mario Draghi, e o novo vice-premiê do Afeganistão, Abdul Ghani Baradar, cofundador do Talibã (organização terrorista proibida na Rússia e em outros países).

    A lista traz apenas um nome brasileiro: a empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza, foi nomeada para a categoria Titãs.

    ​A Sputnik Brasil conversou com o professor e jornalista Renan Bernardes, doutorando em Comunicação e Interculturalidade pela Universidade de Valência, na Espanha, sobre a ausência de Bolsonaro na lista da Time, a imagem do presidente no exterior e no Brasil, e as possíveis repercussões da queda de popularidade de Bolsonaro nas eleições presidenciais do ano que vem.

    Bolsonaro e a lista dos mais influentes

    Em 2019, Jair Bolsonaro foi o único brasileiro presente na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time. A publicação afirmava que o presidente recém-eleito representava "uma ruptura brusca com uma década de corrupção de alto nível e a melhor chance do Brasil em uma geração de promulgar reformas econômicas que podem domar o aumento da dívida".

    A revista dizia ainda que Bolsonaro "é um garoto-propaganda da masculinidade tóxica, um homofóbico ultraconservador com a intenção de travar uma guerra cultural e talvez reverter o progresso do Brasil no combate às mudanças climáticas".

    Em 2020, o Brasil teve dois representantes na lista dos 100 mais influentes: Jair Bolsonaro e influenciador digital Felipe Neto. O texto que apresenta o presidente destaca que, apesar do elevado número de vidas perdidas para o novo coronavírus, a "pior recessão em 40 anos" e os muitos incêndios que devastaram a floresta amazônica, Bolsonaro seguia com popularidade alta.

    Funcionário trabalha na abertura de valas no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. A Prefeitura de São Paulo vai abrir 600 valas por dia nos cemitérios públicos da capital para atender a demanda de sepultamentos de mortos pela COVID-19. Somente no cemitério da Vila Formosa são seis retroescavadeiras trabalhando (foto de arquivo)
    © Folhapress / Eduardo Anizelli
    Funcionário trabalha na abertura de valas no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. A Prefeitura de São Paulo vai abrir 600 valas por dia nos cemitérios públicos da capital para atender a demanda de sepultamentos de mortos pela COVID-19. Somente no cemitério da Vila Formosa são seis retroescavadeiras trabalhando (foto de arquivo)
    "Apesar de uma tempestade de denúncias de corrupção e um dos maiores índices de mortes por causa da COVID-19 no mundo, o agitador de direita continua popular entre uma grande parte dos brasileiros. O índice de aprovação de Bolsonaro se deve em parte aos pagamentos mensais do auxílio emergencial feitos aos mais pobres do país durante a pandemia. Mas também reflete os seguidores fervorosos, quase cultuadores, que ele comanda. Para sua base, ele simplesmente não pode errar", lê-se na publicação.

    Embora não esteja na edição deste ano, Bolsonaro apenas o quarto brasileiro a ser eleito na categoria de líder ao longo dos mais de 20 anos da lista da revista. Os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT), esteve na lista em 2004 e 2010, e Dilma Rousseff (PT) nos anos 2011 e 2012. O então juiz Sergio Moro esteve na edição de 2016.

    Queda de popularidade

    Renan Bernardes afirma que a ausência de Bolsonaro na revista Time deste ano ocorreu por uma série de fatores: negacionismo, fraco desempenho econômico, falta de habilidade política, enfraquecimento da moeda brasileira. Esses e outros elementos fizeram com que o presidente perdesse o seu capital político, sobretudo o capital político internacional.

    "Depois da não reeleição do [ex-presidente norte-americano Donald] Trump, o mundo deu uma respirada, porque os EUA ainda pautam muito a política internacional, dessa ideia de extrema direita emergindo como uma alternativa [...]. E essa respirada deixa o Bolsonaro no contrapé do cenário internacional."
    Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (à esquerda), e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (à direita), conversam na Casa Branca em 19 de março de 2019.
    © AP Photo / Manuel Balce Ceneta
    Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (à esquerda), e o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (à direita), conversam na Casa Branca em 19 de março de 2019.

    Na semana passada, durante a abertura da sessão do Conselho de Direitos Humanos, a alta comissária para direitos humanos das Nações Unidas, Michelle Bachelet, chamou a atenção para as ameaças às populações indígenas e aos ativistas no Brasil, e descreveu um cenário de "séria preocupação".

    O professor recorda que ano passado Bachelet fez críticas semelhantes e, na ocasião, Bolsonaro ofendeu o pai da ex-presidente do Chile, general de brigada da Força Aérea chilena que se opôs ao golpe de Augusto Pinochet e foi torturado e morto.

    "Bolsonaro parece uma criança mimada ocupando um cargo muito importante porque é o tipo de respostinha e lacração [...]. Isso também tira capital político, esse estado de caos não é benéfico para a longevidade política de uma nação e do líder dessa nação [...]. Não combina com o líder político de uma nação gigante, que já foi a sexta economia do mundo", comenta.
    Presidente Jair Bolsonaro faz gesto de arma durante cerimônia no Palácio do Planalto
    © Folhapress / Mateus Bonomi/Agif
    Presidente Jair Bolsonaro faz gesto de arma durante cerimônia no Palácio do Planalto

    Renan Bernardes ainda relaciona a não presença de Bolsonaro entre os mais influentes com a queda de popularidade do presidente. Bernardes recorda que o Instituto Datafolha apontou que a reprovação do presidente está em tendência de alta, e chegou a 53% na semana passada, o pior índice desde que Bolsonaro assumiu a presidência.

    "A Time quando faz suas listas ela não entra no mérito do julgamento moral dessa influência [...], tanto que um talibã está na lista [...]. Eu diria que nesse caso a ausência dele, diferentemente dos últimos dois anos, está relacionada com a queda de popularidade [...]. Essa ausência nessa lista é sintomática, demonstra que ele está perdendo força ao longo do tempo, seja por rompimento de alianças que fez, seja por um desgaste na pandemia. É o retrato de se apequenar cada vez mais", avalia o especialista.

    O professor afirma que nas últimas manifestações o presidente tem dobrado a aposta, forçando as pautas de fechando do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional e de intervenção militar, e considera que esse extremismo vai afastar o cidadão médio, que queria apenas tirar o PT do poder.

    O presidente brasileiro Jair Bolsonaro saúda seus apoiadores enquanto eles se reúnem para apoiar o líder da extrema direita em sua disputa com o Supremo Tribunal Federal, em São Paulo, Brasil, 7 de setembro de 2021
    © REUTERS / AMANDA PEROBELLI
    O presidente brasileiro Jair Bolsonaro saúda seus apoiadores enquanto eles se reúnem para apoiar o líder da extrema direita em sua disputa com o Supremo Tribunal Federal, em São Paulo, Brasil, 7 de setembro de 2021
    "O grupo dele [Bolsonaro] quando vai algumas pautas que o cidadão médio olha e diz: 'Aí não', ele acaba por esvaziar um pouco, e essa perda de popularidade, na minha opinião, está atrelada a esse extremismo que vem ganhando as ruas".

    Dessa forma, Bernardes não vê o presidente tendo mais votos em 2022 do que 2018 e recorda que os grandes vencedores da última eleição presidencial foram os "não votos": branco, nulo e abstenção. "Ele nunca foi maioria. [Teve] um quarto da população e um terço da população votando, por aí".

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Bolsonaro, Jair Bolsonaro, governo bolsonaro, Joe Biden, Xi Jinping, Dragon, Mario Draghi, Talibã, Michelle Bachelet, Chile, EUA, China, Irã, Afeganistão, Itália, Índia, Naftali Bennett, Narendra Modi, Instituto DataFolha, popularidade, impopularidade, eleição, eleição, eleições, eleições, eleições, reeleição, reeleição, Donald Trump, COVID-19, novo coronavírus, pandemia
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