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    A Sputnik Brasil conversou com Wellington Dantas de Amorim, professor adjunto na Escola Naval, sobre o papel da FAB no combate ao tráfico de drogas e os desafios de garantir a soberania do espaço aéreo brasileiro.

    A Força Aérea Brasileira (FAB) interceptou uma aeronave de pequeno porte que entrou no espaço aéreo do país sem autorização na terça-feira (7). Após tentativas frustradas de contato, os pilotos da FAB tiveram que realizar disparos de aviso e de detenção.

    Após ser atingida, a aeronave fez um pouso forçado no norte do estado do Mato Grosso. O piloto fugiu antes da chegada da Polícia Federal (PF), que encontrou mais de 296 quilos de cloridrato de cocaína no avião.

    A Sputnik Brasil conversou com Wellington Dantas de Amorim, professor adjunto na Escola Naval da Marinha do Brasil, sobre o papel da FAB no combate ao tráfico de drogas, os desafios de garantir a soberania do espaço aéreo brasileiro e a importância de reforçar o investimento nas Forças Armadas.

    Episódio no 7 de setembro

    A aeronave abatida pela FAB entrou pela fronteira da Bolívia e, uma vez detectada, foi acompanhada por duas aeronaves de defesa aérea A-29 Super Tucano e um avião radar E-99. Wellington Amorim explica como funciona a interceptação de aviões irregulares.

    FAB intercepta aeronave que entrou sem autorização no espaço aéreo brasileiro
    © Foto / Força Aérea Brasileira
    FAB intercepta aeronave que entrou sem autorização no espaço aéreo brasileiro
    "A segurança área [e] o controle de todo o tráfego aéreo no Brasil pertence à Força Aérea Brasileira, é ela que tem essa responsabilidade. Então quando entra uma aeronave no território brasileiro automaticamente todo o sistema de radar rastreia quem está entrando, vê o plano de voo, para onde vai, e qualquer desvio que a nave faça, ou se por acaso ela não estiver registrada, imediatamente é considerada uma nave potencialmente inimiga", comenta.

    O especialista acrescenta que, a princípio, não se sabe se a aeronave está tendo algum problema de comunicação, é um avião espião ou está transportando algo ilegal. Dessa forma, são enviados aviões para tentar estabelecer comunicação com a aeronave suspeita, enquanto é analisada a matrícula da aeronave para saber se corresponde com a que deveria estar no sistema.

    "Nesse caso [no Mato Grosso], tentou-se falar, mas o avião não respondeu. O que é estranho. O procedimento posterior é dar um tiro de aviso para dizer: 'Olha você deve aterrissar o mais próximo possível'. [O avião] não fez nada, continuou tentando fugir. A legislação então, tanto no caso brasileiro como na maior parte dos países, autoriza que aja [um disparo de detenção], não para destruir a nave, mas para danificar, atingindo a asa para que aterrisse", descreve.

    Nesse momento termina a participação da FAB, uma vez que quando a aeronave aterrissa quem assume o controle e vai realizar toda a investigação no local do pouso é a PF, responsável pela questão de narcótico, esclarece Wellington Amorim.

    FAB intercepta aeronave que entrou sem autorização no espaço aéreo brasileiro
    © Foto / Força Aérea Brasileira
    FAB intercepta aeronave que entrou sem autorização no espaço aéreo brasileiro

    Esse é o procedimento padrão e ocorre com regularidade. Em 31 de julho, a FAB interceptou uma aeronave classificada como suspeita na divisa de Rondônia com o Mato Grosso com mais de 300 quilos de cloridrato de cocaína.

    Ano passado, uma operação da FAB interceptou aviões com 1,1 tonelada de cocaína no Mato Grosso do Sul. De acordo com a FAB, entre 2016 e 2018 foram realizadas 1.281 interceptações de aeronaves desconhecidas no espaço aéreo brasileiro.

    Desafios da Dimensão 22

    O território brasileiro possui 8,53 km², a zona econômica exclusiva (ZEE) do país corresponde a 3,53 km² e, em cumprimento a acordos internacionais, o Brasil também é responsável por prestar esses serviços de busca em salvamento em outros 9,9 km², totalizando cerca de 22 milhões de km². A FAB é responsável por manter a soberania e monitorar todo esse espaço aéreo, que também é chamado de Dimensão 22.

    Esse gigantismo é uma das razões de porque, mesmo com a segunda força aérea das Américas, só atrás dos EUA, a FAB não consegue reprimir completamente que aeronaves irregulares adentrem o espaço aéreo brasileiro. E existem outros desafios.

    "Todas as forças aéreas tentam ser proativas, usando satélites etc. para minimamente monitorar qualquer embarcação e aeronave que está irregular. Mas se essa aeronave não estiver com o transponder [dispositivo que emite um sinal com a localização do avião] ligado, é muito mais difícil. Você acaba conseguindo verificar ao longo do tempo porque mesmo sem o transponder há uma série de acompanhamentos. [Por exemplo,] essa nave surgiu do nada, o que é irregular, então vamos atrás", contextualiza o professor na Escola Naval.

    Além disso, o especialista sublinha que cada vez mais as drogas serão transportadas por drones, que são remotamente controlados ou por minissubmarinos, o que vai dificultar ainda mais o monitoramento. "Essa é uma luta que não vai terminar enquanto tiver demanda de droga na sociedade", assevera.

    O drone Ghost é projetado para realizar patrulhamento silencioso
    O drone Ghost é projetado para realizar patrulhamento silencioso
    Uma forma de mitigar essa situação é investindo mais em equipamentos e tecnologia. Wellington Amorim reconhece que tem ocorrido aplicação importante de recursos, mas afirma que o aporte vai sempre ficar aquém do necessário.

    O especialista destaca que no caso dos caças houve um aporte significativo com a aquisição dos modelos Gripen, enquanto na Marinha houve um investimento no sistema de gerenciamento da Amazônia Azul.

    Teste de spray d'água do caça multifuncional Saab JAS 39 Gripen E no Brasil
    © Foto / SAAB
    Teste de spray d'água do caça multifuncional Saab JAS 39 Gripen E no Brasil
    "Não vai ter navios nem aviões suficientes para monitorar [todo o território], mas se você tiver um grande guarda-chuva capaz de monitorar, isso já facilita bastante. Isso inclusive vai dissuadir outros […]. No caso da Marinha teve orçamento para um submarino nuclear e outros submarinos, que é algo importante e que a sociedade não tem ideia. O submarino nuclear, como fica a maior parte do tempo submerso, é uma arma de dissuasão muito boa […] Só que no futuro novos desafios surgirão e a própria elite política nem sempre tem essa noção dos desafios que surgem", avalia Wellington Amorim.

    O submarino nuclear brasileiro está orçado em cerca de R$ 200 milhões e deve ficar pronto em 2029. Atualmente, apenas seis países possuem submarinos nucleares: China, EUA, França, Índia, Reino Unido e Rússia.

    O Orçamento para o ano que vem entregue pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido) ao Congresso em 31 de agosto prevê que o Ministério da Defesa, responsável pelas Forças Armadas, terá R$ 11,8 bilhões em verbas discricionárias, ou seja, recursos utilizados em gastos administrativos e investimento.

    O valor é R$ 132 milhões maior do que havia sido proposto par a pasta no Orçamento 2021. No Orçamento deste ano foram autorizados R$ 7,1 bilhões de gastos da Defesa em investimentos. Foi o menor valor pelo menos desde 2010, afirma o portal Poder360. Os valores previstos para 2022 ainda podem ser alterados pelo Congresso.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Força Aérea Brasileira (FAB), Brasil, Marinha, Mato Grosso, avião, avião, aeronave, cocaína, cocaína, cocaína, Bolívia, Polícia Federal, Polícia Federal - PF, Mato Grosso do Sul
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