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    Segundo dados, quase 190 mil km² da floresta amazônica queimaram entre 2001 e 2019, ou seja, cerca de 20 mil campos de futebol destruídos pelo fogo em 18 anos. A Sputnik Brasil conversou com analista para saber como prevenir, combater e restaurar áreas florestais prejudicadas por incêndios.

    De acordo com estudo publicado ontem (1º) na revista Nature, os incêndios que atingiram a Amazônia desde 2001 podem ter afetado 95,5% das espécies de plantas e animais vertebrados conhecidas em todo o bioma.

    A pesquisa indica que quase 190 mil km² da floresta amazônica queimaram entre 2001 e 2019 (cerca de 20 mil campos de futebol destruídos pelo fogo em 18 anos) e que a cada novos 10 mil km² de área queimada, até 40 espécies a mais podem ser prejudicadas.

    Um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Paulo Brando, afirma que os dados, apesar de alarmantes, podem estar subestimados.

    "Ainda conhecemos uma parte pequena da biodiversidade da Amazônia. Todo ano temos publicações de artigos identificando espécies novas no bioma", disse Brando citado pelo G1.

    Segundo a mídia, um levantamento feito pela ONG MapBiomas que considerava a Amazônia Legal (território que engloba oito estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Maranhão) concluiu que uma área maior que a da Inglaterra é queimada todos os anos no Brasil desde 1985. Isso equivale a quase 151 mil km² consumidos anualmente pelo fogo.

    A Sputnik Brasil conversou com Warwick Manfrinato, engenheiro agrônomo do Instituto de Estudos Avançados/USP e pesquisador associado da Universidade de São Paulo para entender o porquê do aumento das queimadas no Brasil neste ano, quais recursos o país disponibiliza para combater os incêndios e o que pode ser feito para restaurar áreas atingidas pelo fogo.

    Floresta Nacional do Jamanxim, em Santarém, no Pará (foto de arquivo)
    © Folhapress / Edmar Barros
    Floresta Nacional do Jamanxim, em Santarém, no Pará (foto de arquivo)

    Prevenção de incêndios no Brasil

    Manfrinato diz que o país tem programas de prevenção de fogo nas diferentes jurisdições, o que faz com que cada um tenha algumas particularidades, entretanto, esses programas são coordenados a nível nacional por órgãos como o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA).

    "O Brasil é um país de território florestal na sua grande maioria. Metade do território ainda é terra pública, terra do cidadão brasileiro. Quem gere as terras protegidas é o Ministério do Meio Ambiente, as terras indígenas é o Ministério da Justiça, as terras militares é o Ministério da Defesa, também temos as terras devolutas, que ainda não têm uma destinação de propriedade. […] E por último, temos as terras privadas", explicou.

    O engenheiro afirma que nas terras privadas é possível encontrar "uma quantidade muito grande de florestas", porém, o proprietário privado "olha para floresta como algo de segunda categoria, especialmente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde têm forte atividade agrícola que demandam abertura do espaço florestal".

    Na visão do especialista, o robusto gerenciamento que é necessário para esses diferentes "tipos de terras", uma comunicação pouco efetiva entre o governo federal e estadual e a falta de recursos, "produzem uma série de bolas divididas que são complexas" e podem prejudicar a administração de métodos de prevenção de incêndios.

    Vista aérea de queimadas na Amazônia, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, em 16 de agosto de 2020
    © AFP 2021 / Carl de Souza
    Vista aérea de queimadas na Amazônia, ao sul de Novo Progresso, no estado do Pará, em 16 de agosto de 2020

    "O fogo é uma coisa estocástica, ele é aleatório, você não sabe onde e quando vai acontecer. O que temos é uma série temporal de incidentes e sinistros [durante o período da seca], mas não sabemos quando alguém 'vai riscar um fósforo'."

    Segundo o especialista, a floresta Amazônica e a Mata Atlântica são florestas úmidas, ou seja, quando um fogo começa nessas áreas florestais, o agente impulsor é humano. Uma vez sendo esse o motivo, na questão da prevenção, mais do que olhar para o meio ambiente, é necessário olhar para esse agente.

    "Se não for 100%, é algo muito próximo em torno disso: todos os incêndios são causados criminalmente ou acidentalmente. Para lidar com as questões de prevenção, temos que olhar para como o ser humano está atuando, e aí entramos em aspectos culturais."

    Manfrinato elucida que o fogo sempre foi uma prática utilizada para lidar com resíduos no campo da agricultura, por exemplo, "queimar a palha para que a colheita tenha mais sucesso". No entanto, outro fator cultural seria o das pessoas que "gostam de colocar fogo nas coisas de propósito".

    "Há o serial killer, que gosta de matar, há gente que gosta de colocar fogo onde não deve, são os chamados arcenistas."

    Queimada é vista em área de plantação de mandioca em Lábrea (AM). Lábrea é uma das cidades do Amazonas que constantemente está em estado da emergência devido às queimadas e desmatamentos (foto de arquivo)
    © Folhapress / Edmar Barros
    Queimada é vista em área de plantação de mandioca em Lábrea (AM). Lábrea é uma das cidades do Amazonas que constantemente está em estado da emergência devido às queimadas e desmatamentos (foto de arquivo)

    Aumento de áreas incendiadas

    Neste ano, foi possível acompanhar uma forte progressão dos focos de incêndio no Brasil, indagado do porquê desse aumento, Manfrinato aponta para a "variabilidade climática e a mudança global do clima".

    "A variabilidade climática é que nessa época temos a seca […] a sazonalidade climática cria uma situação onde a precipitação entra em um vale de redução, por exemplo, na região amazônica temos lugares que chovem até três, quatro mil milímetros por ano. Aqui [no Sul] temos de 1.800 a dois mil milímetros por ano, ou seja, fica mal distribuído ao longo do ano."

    Manfrinato também chama atenção para o fato de que há diferenças entre uma floresta que já pegou fogo e uma que nunca sofreu um incêndio. "Se temos uma floresta que já pegou fogo em anos anteriores, muitas vezes podemos ter um tronco no local, seco, que vira uma vela e daí ele propaga esse fogo".

    Queimada é vista em área de plantação de mandioca no Amazonas (foto de arquivo)
    © Folhapress / Edmar Barros
    Queimada é vista em área de plantação de mandioca no Amazonas (foto de arquivo)

    Métodos de combate ao fogo

    O engenheiro conta que uma forma de prevenção e combate consiste em "onde temos uma situação de muita biomassa seca, pode-se fazer uma espécie de controle, ou seja, passar máquinas, e também executar a prática do aceiro, atividade que compartimentaliza para que se pegar fogo, a partir de um certo ponto, ele não consegue se propagar".

    Caso o fogo tenha gerado grande incêndio e não tem mais como controlar, pode-se combater "por terra, entrando com equipes que vão estabelecer os aceiros, que vão tentar entender o comportamento do fogo, para onde ele está indo, que tipo de vento, direção, qualidade está tendo a fim de combatê-lo". Outra forma de vencer o fogo, que é a principal delas, é a água misturada com produtos antifogo.

    Fogo consome grande área de cerrado às margens da via Estrutural, em Brasília, enquanto tenta-se apagá-lo com mangueira e água (foto de arquivo)
    © Folhapress / Joel Rodrigues
    Fogo consome grande área de cerrado às margens da via Estrutural, em Brasília, enquanto tenta-se apagá-lo com mangueira e água (foto de arquivo)

    O especialista também comenta sobre o combate aéreo, entretanto, salienta que esse tipo de combate gera altos custos, e "o setor privado tem tido mais sucesso nessa área".

    "A área de combate aéreo de incêndios é uma área altamente tecnificada, e o estado de alerta e prontidão necessários para combate são muito custosos. […] Hoje, o governo brasileiro tem apenas um grande avião para essa ação, que é o Hércules, uma aeronave obsoleta, mas é o único com capacidade para carregar água acima de dez mil litros. O restante são aviões pequenos, que são os chamados 'aviões de pulverização agrícola' adaptados para levar entre mil a quatro mil litros de água. […] Por esse conjunto de elementos, nosso país está muito atrasado nesse tema."

    Manfrinato complementa que o Brasil não tem uma indústria de aviação que transforme avião de carga e transporte em aeronaves de combate ao incêndio.

    Brigadistas com o auxílio de um avião do Corpo de Bombeiros, combatem as chamas de um incêndio florestal, na região do Pantanal, em Mato Grosso, 11 de agosto de 2020
    © Folhapress
    Brigadistas com o auxílio de um avião do Corpo de Bombeiros, combatem as chamas de um incêndio florestal, na região do Pantanal, em Mato Grosso, 11 de agosto de 2020

    "A Embraer, que é nosso principal ícone da indústria de equipamento aéreo, ela não tem um programa para pegar um avião antigo que já foi retirado da sua atividade primária e preparar esse avião para combater incêndios. Nos EUA e no Canadá existem diversas empresas que fazem isso."

    Adicionalmente, o engenheiro diz que, por uma infelicidade, o período de incêndio na América do Norte é o mesmo na América do Sul, o que dificulta uma possível ajuda externa que poderia chegar ao Brasil.

    Restauração de áreas florestais pós-incêndio

    Para tentar recuperar uma área afetada por incêndios, Manfrinato diz que é necessário um planejamento, mais ligado à biologia, "que consiste, em um primeiro momento, na retirada de materiais que possam causar novos incêndios, e ao mesmo tempo fazer uma recuperação, que não é um processo rápido, pois as árvores são seres vivos que demoram a crescer".

    "Essa recuperação também é de alto custo, uma vez que para plantar árvores novamente não podemos apenas plantá-las pela semente, é necessário produzir as mudas, e sendo assim, é preciso ter viveiros, ter uma equipe especializada para isso. […] É muito mais caro recuperar uma floresta do que fazer um o plantio agrícola."

    O especialista ressalta que a floresta ela "não rende nada", ela "não tem um retorno, uma lucratividade", portanto, pelo alto custo para recuperação de uma floresta, é mais fácil essa área ser incorporada à atividade agrícola.

    "Quando uma fazenda tem um terreno que tem aptidão agrícola, mas está restrita porque a expansão não chegou lá ou porque o fazendeiro tem que seguir o código florestal, quando essa área pega fogo, ele começa a olhar para aquele local não pretendendo que o terreno volte a ser floresta", explicou o engenheiro.

    Restos de floresta desmatada são queimados perto de plantações de soja, no município de Querência (Mato Grosso). As fronteiras da devastação na Amazônia estão se ampliando para além do arco do desmatamento (foto de arquivo)
    © Folhapress / Ayrton Vignola
    Restos de floresta desmatada são queimados perto de plantações de soja, no município de Querência (Mato Grosso). As fronteiras da devastação na Amazônia estão se ampliando para além do arco do desmatamento (foto de arquivo)

    Entretanto, Manfrinato diz que "se a gente realmente tiver florestas como áreas que são incorporadas à atividade econômica como floresta conservada – e aí as convenções de biodiversidade e a convenção do clima têm o papel importante de criar oportunidade para isso – então sim, a gente vai poder ter uma perspectiva em médio e longo prazo em que isso possa ser usado pelo proprietário agrícola".

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Amazônia, incêndios, queimadas, prevenção, combate
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