09:33 25 Setembro 2021
Ouvir Rádio
    Brasil
    URL curta
    699
    Nos siga no

    A Sputnik Brasil conversou com especialista sobre as repercussões do afastamento de um coronel da PMSP, a politização da Polícia Militar e o que podemos esperar dos atos marcados para o feriado de 7 de setembro.

    O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afastou na segunda-feira (23) o chefe do Comando de Policiamento do Interior-7, coronel Aleksander Lacerda, da Polícia Militar do estado de São Paulo (PMSP), por indisciplina.

    "A PMSP informa que o coronel Aleksander Toaldo Lacerda foi afastado das suas funções à frente do Comando de Policiamento do Interior-7 [...]. A Corregedoria da instituição, que é legalista e tem o dever e a missão de defender a Constituição e os valores democráticos do país nela expressos, analisa as manifestações recentes do oficial, que foi convocado ao Comando Geral para prestar esclarecimentos", lê-se na nota do governo paulista, citado pelo jornal Folha de S. Paulo.

    O coronel, que comandava cerca de 5.000 pessoas de sete batalhões da região de Sorocaba, fez publicações nas redes sociais convocando seguidores para atos no 7 de setembro, com críticas e ofensas direcionadas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ao presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e ao governador de São Paulo.

    ​No domingo (22), o governo de São Paulo havia definido que a Avenida Paulista será ocupada apenas por movimentos bolsonaristas no feriado do dia 7 de setembro. Movimentos de oposição ao governo terão o espaço apenas no dia 12, quando já estava agendado um ato contra o presidente, capitaneado pelos movimentos Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua (VP).

    A convocação por parte de um policial para manifestações no 7 de setembro não foi ato isolado. Levantamento do jornal Estadão mostra que há chamamentos de policiais de diversos estados e de patentes variadas. A mídia identificou, nas redes sociais, a mobilização de oficiais, da ativa e da reserva, incentivando manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Espírito Santo, Santa Catarina e Paraíba.

    A Sputnik Brasil conversou o professor Acácio Augusto, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e coordenador do Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASInTec), sobre as repercussões do afastamento do coronel da PMSP, a politização da Polícia Militar e o que podemos esperar dos atos marcados para 7 de setembro.

    Doria agiu bem, mas tarde

    O afastamento do coronel Aleksander Lacerda foi visto por militares da ativa como uma atitude importante para evitar uma contaminação nas forças de segurança e arrefecer os ânimos nas polícias estaduais, informa o portal UOL, citando militares do Alto Comando do Exército.

    Acácio Augusto afirma que, legalmente, Doria agiu corretamente, mas politicamente as consequências podem ser negativas.

    O governador de São Paulo, João Doria, em evento na Universidade de São Paulo. Foto de arquivo
    © Folhapress / Eduardo Anizelli
    O governador de São Paulo, João Doria, em evento na Universidade de São Paulo. Foto de arquivo
    "Na dimensão legal ele está correto. O coronel da ativa não pode fazer isso segundo o artigo 142 da Constituição, que remete ao artigo 42 [da Constituição], que remete à lei da Deontologia Militar, que é uma lei complementar de 2001, [além] da decisão do STF de 2017, por conta do motim policial no Espírito Santo no mesmo ano. Então, legalmente, ele fez bem. Agora, politicamente [...] ele pode ter colocado lenha na fogueira [...]. A punição de um colega de tropa pode animar [a ida aos atos]", avalia o especialista.

    O professor da UNIFESP destaca que esse posicionamento mais assertivo do governador de São Paulo ocorre muito tardiamente. Ele argumenta que o PSDB, que governa o estado, praticamente, desde 1995, sempre foi muito leniente com a atuação da PMSP.

    "Por isso, ele [PSDB] conseguiu manter uma aparência de controle, que, na verdade, nunca existiu. As polícias de São Paulo sempre foram muito autônomas [...]. Os governadores sempre souberam que é delicado peitar a PM, isso em todos os estados. No caso de São Paulo, alguns fatores contribuíram para que a tropa nunca escalasse para uma situação como ocorreu no Ceará e no Espírito Santo."

    Entre os fatores o pesquisador cita o apoio incondicional do governador aos policiais, sem nunca condenar a tropa por inteiro. Como marco dessa postura, Augusto relembra o massacre do Carandiru em 1992, quando uma intervenção da PMSP resultou na morte de 111 detentos, e a ação da Rota, unidade da PMSP, que terminou com nove suspeitos mortos em 2012 e o governador tucano Geraldo Alckmin defendeu a operação afirmando: "Quem não reagiu está vivo".

    Ex-governador de São Paulo e ex-presidenciável Geraldo Alckmin, do PSDB
    © Folhapress / Bruno Santos
    Ex-governador de São Paulo e ex-presidenciável Geraldo Alckmin, do PSDB

    Politização da polícia

    O professor da UNIFESP recorda que a mobilização política das polícias não começou com o governo Bolsonaro, mas existe pelo menos desde os anos 1990, com a atuação de associações, que sempre conseguiram burlar a proibição de organização sindical e a proibição de manifestação política dos policiais.

    "Parece que o Bolsonaro disparou um pó de pirlimpimpim que politizou todas as PMs. Isso não é verdade. A PM é altamente politizada, é um pouco como se dá no debate federal com relação às tropas das Forças Armadas. [Dizem:] 'O Bolsonaro politizou as Forças Armadas'. Não, Bolsonaro é um produto da politização das Forças Armadas. E acho que isso acontece com as PMs também", comenta.

    Acácio Augusto defende que Bolsonaro foi o catalisador de uma expressão política que já existia no Brasil: conservadores nos costumes, que gostam de militares, que acreditam que "bandido bom é bandido morto" e possuem uma paranoia anticomunista. "A emergência da figura do Bolsonaro no cenário nacional criou uma espécie de amálgama para algo já existia."

    Representantes da alta patente das Forças Armadas, da esquerda para direita: o almirante Almir Garnier, o ministro da Defesa Braga Netto, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira e o brigadeiro Almeida Baptista Jr., em 31 de março de 2021
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    Representantes da alta patente das Forças Armadas, da esquerda para direita: o almirante Almir Garnier, o ministro da Defesa Braga Netto, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira e o brigadeiro Almeida Baptista Jr., em 31 de março de 2021

    Atos no 7 de setembro

    No fim de semana, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) encaminhou uma mensagem no aplicativo WhatsApp em que convoca apoiadores para um "provável e necessário contragolpe" e pede que os "direitistas" se manifestem no dia 7 de setembro.

    Jair Bolsonaro assiste ao desfile de 7 de Setembro ao lado de Edir Macedo e Silvio Santos em Brasília
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    Jair Bolsonaro assiste ao desfile de 7 de Setembro ao lado de Edir Macedo e Silvio Santos em Brasília

    Na segunda-feira (23), o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB-RJ) disse que os atos marcados para o feriado são "fogo de palha".

    O professor da UNIFESP, todavia, recorda que Ricardo Nascimento de Mello Araújo, ex-comandante da Rota e atual presidente da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), convocou, pelas redes sociais, policiais militares para os atos em apoio ao presidente e que o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP) afirmou que policiais do interior de São Paulo estão alugando ônibus para comparecer às manifestações.

    Por isso, quando questionado sobre o que podemos esperar para o dia 7 de setembro, Augusto encerra com uma imagem pouco tranquilizadora:

    "O dia inteiro vai ser como se a gente estive dentro de uma casa com o gás ligado. Pode ser que dê tempo abrir as janelas e ninguém acenda o fósforo. Se riscar, eu não sei o que vai acontecer [...]. É um cenário difícil de prever [...]. Penso que o Exército vai querer dizer que as coisas estão sob controle e vai atuar discursivamente para conter qualquer excesso desses policiais bolsonaristas. Agora, digamos que algo aconteça, ele [o Exército] não tem forças para conter. São 700 mil policiais no Brasil".

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    TCU considera por unanimidade que Bolsonaro fez promoção pessoal em publicidade do governo
    Bolsonaro diz que ação contra Moraes 'não é revanche'; ex-ministros enviam manifesto ao Senado
    Doria diz que não votaria nem em Lula nem em Bolsonaro no 2º turno e chama Aécio Neves de derrotista
    Chamado por presidente brasileiro de 'Bolsonaro da África', chefe da Guiné-Bissau chega ao Brasil
    Tags:
    São Paulo, rota, Rondas Táticas Metropolitanas, João Doria, Bolsonaro, Jair Bolsonaro, governo bolsonaro, manifestação, manifestação, manifestações, manifestações, Geraldo Alckmin, PSDB, Polícia Militar, Polícia Militar do Ceará, Polícia Militar do Estado do Espírito Santo, Polícia Militar do Estado de São Paulo, Exército, Antonio Hamilton Mourão, General Mourão
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar