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    Diante das eleições que se aproximam no Brasil, o presidente uma vez se pronunciou que caso o processo eleitoral não seja feito através do voto impresso, ele não vai se candidatar. Após a derrota da PEC do voto impresso, a Sputnik Brasil conversou com especialista para saber as reais chances dessa candidatura não acontecer.

    Em meados de julho, o presidente Jair Bolsonaro declarou que estava cogitando não disputar as eleições em 2022 se o processo eleitoral não for feito através do voto impresso.

    Na visão do presidente, a votação através da urna eletrônica é passível de fraude, e, portanto, não permitiria "eleições limpas". O chefe do Executivo acredita que os responsáveis por auditar os votos das urnas serão as mesmas pessoas "que liberaram o Lula [ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva] e o tornaram elegível", segundo a IstoÉ.

    Constantemente, Bolsonaro vem atacando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), desmoralizando o poder judiciário dessas instituições.

    Na terça-feira (10), a PEC do voto impresso foi para votação na Câmara, entretanto, a proposta que propunha o voto impresso em eleições, plebiscitos e referendos foi derrotada, tendo apoio de 229 deputados quando precisava de 308 votos, conforme noticiado.

    Após derrota da PEC, Bolsonaro mudou o tom do discurso em relação a não concorrer às eleições, e agora diz que as mesmas "não serão confiáveis" sem o voto impresso, segundo o G1.

    Diante desse cenário, a Sputnik Brasil entrevistou Leonardo Martins Barbosa, doutor em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, para saber se o presidente realmente pode não concorrer às eleições, se a terceira via é mesmo uma opção e se ainda há chance para uma tentativa de golpe no Brasil.

    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fala durante cerimônia de assinatura de medida provisória sobre o mercado de combustíveis no Palácio do Planalto, em Brasília, 11 de agosto de 2021
    © REUTERS / ADRIANO MACHADO
    Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fala durante cerimônia de assinatura de medida provisória sobre o mercado de combustíveis no Palácio do Planalto, em Brasília, 11 de agosto de 2021

    Barbosa diz que não descarta o fato de Bolsonaro não se candidatar, entretanto, o especialista pontua que todo movimento que o presidente vem fazendo é justamente o contrário, ou seja, uma série de estratégias para concretizar seu segundo mandato.

    "Acho improvável que ele não se candidate, pois Bolsonaro vem, na verdade, redobrando a aposta nas eleições 2022. É uma eleição crucial e a perder é pior ainda, tanto do ponto de vista do valor da sua palavra quanto da legitimidade da sua liderança", explicou Barbosa.

    O doutor ainda ressalta que hoje, uma não candidatura ou possível derrota, pode deixar o presidente muito "exposto". Como exemplo, Barbosa cita a prisão do ex-deputado, Roberto Jefferson, ontem (14), que foi recebida com certa surpresa, ou seja, "tem gente do outro lado começando a responder à altura".

    "Quando o conflito político começa a perder a dimensão do limite institucional, ninguém sabe as consequências que isso pode ter para si mesmo. Então uma derrota eleitoral para o Bolsonaro pode ser muito grave para ele e para sua família."

    Diante da posição do presidente contra as urnas eletrônicas, apoiadores de Bolsonaro têm considerado não votar nas eleições se o voto não se tornar impresso. Porém, na visão do especialista, ainda assim, não haverá boicote às eleições.

    "Esse discurso serve para deslegitimar o processo eleitoral na intenção de justificar uma eventual derrota, servindo também como uma certa narrativa que defende uma possível tentativa de golpe. Eles vão tentar ganhar as eleições a qualquer custo, mas estão se preparando para um insucesso, inclusive do ponto de vista narrativo, assim que vejo, pelo menos", disse Barbosa.

    Homem segura cartaz durante protesto a favor do presidente Jair Bolsonaro e voto impresso, realizado na cidade de Belém, Pará, em 1º de agosto
    © Folhapress / Marx Vasconcelos /Futura Press
    Homem segura cartaz durante protesto a favor do presidente Jair Bolsonaro e voto impresso, realizado na cidade de Belém, Pará, em 1º de agosto

    Estratégias para não perder as eleições

    Barbosa afirma que as perspectivas para reeleição de Bolsonaro são baixas, entretanto, o presidente ainda tem alguns trunfos que são importantes considerar.

    Uma das estratégias apontadas pelo doutor tem a ver com políticas públicas que implica no desenvolvimento da economia, tornando-a mais vigorosa, gerando mais empregos, a reforma do Bolsa Família para tentar ampliar o escopo e o valor do auxílio, tentando minar uma parcela importante de eleitores do Lula e do PT.

    Outro caminho seria apostar no reforço da lealdade política das bases que já o apoiam, e esse seria o motivo da manutenção do discurso radical, já que essa manifestação radical vai de encontro à essa base. Barbosa salienta que mesmo as pesquisas apontando uma progressiva rejeição ao governo, o presidente não baixou os 25% de intenção de votos que tem, ou seja, ainda é mantido um suporte social e político com ele significativo.

    "Os partidos que são do centrão, mais influenciados por bases conservadoras evangélicas ou ligadas a territórios dominados por milícias, continuam ferrenhamente apoiando Bolsonaro, e essa base é forte no Congresso também. Ele reafirmar, por meio da radicalização, esses grupos, é um caminho importante para o presidente se garantir, pelo menos, no segundo turno", elucidou o especialista.

    A terceira estratégia indicada por Barbosa é o reaquecimento do discurso antipetista, para ver se o chefe do Executivo consegue ampliar o espaço que ele perdeu na classe média, principalmente na região Sul e Sudeste do país, por conta da sua gestão perante a pandemia.

    "São três caminhos que vemos: o reforço da lealdade, a promoção do antipetismo – que faz parte de uma identidade política que ele e a direita no Brasil cultivam – e, o mais importante, o reaquecimento da economia e políticas públicas destinadas a uma parcela maior do eleitorado."

    A taxa de desemprego no trimestre encerrado em janeiro de 2021, 14,2%, foi a mais alta da série histórica desde 2012 no Brasil
    A taxa de desemprego no trimestre encerrado em janeiro de 2021, 14,2%, foi a mais alta da série histórica desde 2012 no Brasil

    Barbosa ainda destaca que o desenvolvimento do contexto econômico é de grande valor, uma vez que o governo vigente passa por uma taxa de desemprego elevada e uma evidenciação da precarização da vida, pontos que contrastam com a gestão de Lula, fazendo com que o ex-presidente venha crescendo nas pesquisas.

    "O Lula e o PT conseguiram surgir como principais representantes da oposição, e consequentemente diante do naufrágio do governo atual, eles são os primeiros a colher esses dividendos. Podemos observar isso nas quedas sistemáticas de rejeição ao Lula. Ele não está crescendo só na própria base, entre os principais consulentes ele não tem rejeição" disse o doutor.

    Segundo turno

    Questionado se o ex-presidente Lula deve fazer uma estratégia que não conte com Bolsonaro no segundo turno, Barbosa considera que essa hipótese "ainda não está na mesa", porque até agora não há elementos concretos para isso.

    "Não vejo contexto para tal fato porque o presidente ainda tem uma liderança no próprio campo, também não há horizonte para impeachment nesse momento, a adesão do centrão ao governo é muito expressiva e, principalmente, porque não vejo o menor sinal de capacidade estratégica para o desenvolvimento da terceira via."

    Na visão do especialista, Bolsonaro só não estará no segundo turno por três situações: se ele abrir mão da candidatura, se ele sofrer impeachment – que tem chances raras de acontecer – ou em um "naufrágio muito grave da sua própria liderança que por enquanto não está sendo colocado, mas não é uma chance remota de acontecer", segundo Barbosa.

    Presidente Jair Bolsonaro ao lado do novo ministro da Comunicação, Fabio Faria, cuja nomeação seria fruto das negociações com o chamado centrão
    © REUTERS / Adriano Machado
    Presidente Jair Bolsonaro ao lado do novo ministro da Comunicação, Fabio Faria, cuja nomeação seria fruto das negociações com o chamado 'centrão'

    Ciro Gomes e 3ª via

    Barbosa considera que a terceira via é "uma direita tradicional querendo reocupar o posto", no entanto, o candidato Ciro Gomes (PDT) não faria parte dessa direita, e assim seria realmente um candidato de terceira via.

    "Ele está buscando um espaço na direita moderada, porém, se encontra em uma 'sinuca de bico' no sentido de que, sem o Bolsonaro no cenário eleitoral, quem se beneficia seria alguém justamente dessa direita tradicional, como Luiz Henrique Mandetta, por exemplo", explicou.

    De acordo com especialista, o melhor cenário para Ciro Gomes seria "uma situação desesperada em que você tem Lula e Bolsonaro consolidados, mas não em patamares tão altos, porém, solidificados como lideranças que oprimem qualquer tentativa da direita tradicional de crescer, e o Ciro Gomes entraria como alguém que pontua de forma razoável as coisas, podendo tirar os votos do Bolsonaro mediante eleitores que não querem o presidente no segundo turno".

    "Na ausência de qualquer liderança da direita podendo se afirmar, já que Bolsonaro consolida esse campo, o Ciro Gomes poderia compilar votos, em um cenário no qual Lula teria 40% dos votos, Ciro Gomes 21% e Bolsonaro 20%. Agora, isso só será possível, se acontecer uma derrocada mais grave do que a que o presidente teve até agora. Mas os sinais não apontam para isso, eles apontam que ele ou se estabilizou ou tende a crescer até um pouco com a normalização da vida social no Brasil".

    Para Barbosa, Ciro Gomes seria a maior chance de tirar o Bolsonaro do segundo turno porque ele é a única liderança com "recall significativo, nenhum outro tem. Ele marca 12, 13 por cento da intenção de votos. […] Mas o que ele precisa para que isso aconteça é de uma rejeição alta para os dois candidatos que estão liderando, e o que a direita tradicional precisa é que o Bolsonaro saia do caminho".

    Candidato à presidência Ciro Gomes, segundo analista, o candidato critica o petismo e o bolsonarismo, abarcando eleitores que desconsideram Lula e Bolsonaro como opções para 2022
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    Candidato à presidência Ciro Gomes, segundo analista, o candidato critica o petismo e o bolsonarismo, abarcando eleitores que desconsideram Lula e Bolsonaro como opções para 2022

    Lula na corrida presidencial

    Barbosa julga que nas eleições de 2022, provavelmente, Lula terá que fazer concessões eleitorais e, executar o mesmo movimento se eleito, pois mesmo que a esquerda tenha uma liderança de 20 a 30 por cento do eleitorado, ele terá que ampliar esse arco.

    "Lula terá que se tornar um bom receptáculo dos votos de direita que se desprendem do Bolsonaro para ganhar a eleição. Hoje, Lula ele se encontra em uma posição favorável para fazer essas concessões uma vez que ele não tem um adversário, não tem uma terceira via firmada disputando com ele, então ele tem uma posição confortável de quem já consolidou os 20, 30 por cento de votos e isso permite uma ampliação do diálogo."

    Portanto, o ex-presidente pode ir mais "à direita" sem ter medo de perder eleitorado da esquerda. Em meados de julho, Lula já havia afirmado que fará alianças políticas estratégicas para campanha do PT em 2022, conforme noticiado.

    Lula em discurso em São Bernardo do Campo, São Paulo, em 20 de novembro de 2020
    © Folhapress / Marlene Bergamo
    Lula em discurso em São Bernardo do Campo, São Paulo, em 20 de novembro de 2020

    Há possibilidade de golpe?

    Barbosa chama atenção para o fato de que, na verdade, um golpe já vem acontecendo nas instituições brasileiras desde 2015, e que a novidade no momento é uma inserção cada vez maior de militares em cargos promovida por Bolsonaro, além de uma ação incisiva contra um dos baluartes da democracia, que ainda não foi atacado tão frontalmente, que é o próprio TSE, ou seja, questionar o resultado das eleições.

    "Essa situação de golpe institucional que estamos vivendo há alguns anos gerou custos sociais, econômicos e políticos para os grupos que patrocinaram isso em 2015, e agora são muito mais altos do que eram então."

    O especialista acredita que esses grupos, hoje, não adeririam de forma tão fácil a um golpe em 2022. A começar pelo Judiciário, por exemplo, com o ministro Luís Roberto Barroso, "que lá atrás apoiou a ação da Lava Jato para tirar o Lula da corrida presidencial" e também outros atores, como o PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique e a TV Globo, "todos esses não entrariam em uma aventura golpista hoje".

    Portanto, segundo Barbosa, é preciso analisar se somente o apoio militar seria suficiente para promover um golpe, o que o doutor crê que não seja executável, todavia, "isso não quer dizer que o Brasil não vá passar por um processo de transição institucional conturbado caso Bolsonaro seja derrotado, e isso vai ter consequências sobre o novo governo".

    O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), o convite para participar do treinamento da Marinha, que será no dia 16 de agosto, na cidade de Formosa (GO), Brasília, 10 de agosto
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    O presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), o convite para participar do treinamento da Marinha, que será no dia 16 de agosto, na cidade de Formosa (GO), Brasília, 10 de agosto

    "Nós temos hoje sinais de pontes possíveis entre o PT, Lula e algumas lideranças importantes para se tentar criar algumas coalizões para restabelecer e reestabilizar o regime democrático. O Rodrigo Maia já se ofereceu, o PSDB aponta de forma muito decidida que pretende fazer essa ponte, o [prefeito do Rio] Eduardo Paes, o [ministro] Gilmar Mendes, enfim, há muitos interlocutores que podem ajudar o PT a superar a bolha e fazer um governo de coalizão mais amplo."

    O doutor pondera que, entre um cenário golpista ou uma coalizão mais ampla, na sua interpretação, a segunda opção seria a mais viável, pois há uma corrente de intensão para que essas pontes ajudem a fortalecer a democracia no país, porém, Barbosa pontua que "em crise institucional não temos muita previsibilidade para nada e tudo pode mudar da noite para o dia".

    "Especialmente quando temos um presidente golpista com apoio das Forças Armadas", complementou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Bolsonaro, eleições, centrão, candidatura, Brasil
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