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    Para saber as áreas onde os chineses estão investindo e quais as repercussões das declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contra o país asiático, a Sputnik Brasil conversou com dois especialistas.

    Os investidores chineses aplicaram no Brasil, entre 2010 e 2020, US$ 65,7 bilhões (aproximadamente R$ 344,41 bilhões), segundo o relatório Investimentos Chineses no Brasil: Histórico, Tendências e Desafios Globais, divulgado na semana passada e produzido por Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

    A melhor marca anual foi registrada em 2010, quando a China investiu US$ 13 bilhões (R$ 68,15 bilhões) no Brasil. Em 2020, em meio à pandemia da COVID-19, os aportes caíam 74% e somaram US$ 1,9 bilhão (R$ 9,96 bilhões), menor valor desde 2014.

    O Brasil se destaca ainda como o principal destino de investimentos da América Sul: entre 2007 e 2020, o Brasil recebeu 47% dos investimentos chineses na região. O país concentrou ainda 35% dos aportes na América Latina e Caribe nesse período.

    Bandeiras da China e do Brasil
    © AP Photo / Andy Wong
    Bandeiras da China e do Brasil

    Para saber onde os chineses estão investindo, quais as repercussões das declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) contra o país asiático e quais as futuras tendências dos investimentos da China no Brasil, a Sputnik Brasil conversou com o autor do relatório, Tulio Cariello, e com Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE) e sócio da BRCG.

    Principais áreas de investimento

    De acordo com o relatório Chineses no Brasil, do total investido no país de 2007 a 2020, 48% foram direcionados ao setor de energia elétrica, seguido por extração de petróleo e gás (28%), extração de minerais metálicos (7%), indústria manufatureira (6%), obras de infraestrutura (5%), agricultura, pecuária e serviços relacionados (3%) e atividades de serviços financeiros (2%).

    Painéis solares instalados na cobertura de um prédio Ministério de Minas e Energia em Brasília em 2016
    © Foto / José Cruz/Agência Brasil
    Painéis solares instalados na cobertura de um prédio Ministério de Minas e Energia em Brasília em 2016

    Tulio Cariello explica que a China possui muita expertise no setor de energia elétrica e tem a necessidade de se internacionalizar, enquanto no Brasil há uma abertura nesse campo. Mas Cariello destaca a importância dos investimentos como um todo.

    "Se a gente for considerar outros setores que têm investimento, eles trazem um certo dinamismo à economia brasileira. Por exemplo, quando vem uma empresa chinesa para construir uma fábrica aqui ela cria toda uma rede de conectividade com outros setores, aquece a economia de forma geral. Muitas empresas chinesas compram empresas brasileiras que estão com problemas financeiros ou até à beira da falência, isso dá uma oxigenada nessas empresas, e mantém empregos."

    Livio Ribeiro recorda que com o tempo Pequim foi variando seus investimentos no Brasil.

    "O perfil de investimento era investir no 'fazendão' Brasil, ou seja, soja ou minério de ferro, mas foi se diversificando na direção de aproveitar as oportunidades que existem no mercado, na demanda doméstica brasileira. Isso vale para o setor bancário, automotivo, transmissão e geração de energia elétrica. Existe uma série de investimentos que é feita que não é diretamente ligada à característica de usar o Brasil como uma plataforma de exportação de insumos para a China", contextualiza.

    Cariello vê potencial para aumento dos aportes chineses principalmente em tecnologia da informação.

    "Um setor que tem potencial muito grande para ter mais atração nos próximos anos é o de tecnologia, principalmente de tecnologia da informação. Já vemos o movimento claro de algumas empresas chinesas nessa área de investimento no Brasil", afirma, destacando as movimentações da Didi Chuxing e da Tencent.

    Pessoas caminham perto da sede da Tencent, na cidade de Shenzhen, no sul da China, na província de Guangdong. Foto de arquivo
    © AFP 2021 / NOEL CELIS
    Pessoas caminham perto da sede da Tencent, na cidade de Shenzhen, no sul da China, na província de Guangdong. Foto de arquivo

    Entraves políticos

    Desde sua campanha presidencial, Jair Bolsonaro realiza críticas à China. Em maio, Bolsonaro, sem citar nominalmente a China e sem apresentar provas, afirmou que o SARS-CoV-2 poderia ter sido criado artificialmente por Pequim: "Os militares sabem o que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra? Qual o país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês".

    O presidente da China, Xi Jinping, à esquerda, fala durante declaração conjunta com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante reunião bilateral paralela à 11ª edição da Cúpula do BRICS, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, no Brasil, no dia 13 de novembro de 2019
    © AP Photo / Eraldo Peres
    O presidente da China, Xi Jinping, à esquerda, fala durante declaração conjunta com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante reunião bilateral paralela à 11ª edição da Cúpula do BRICS, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, no Brasil, no dia 13 de novembro de 2019

    O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo e o filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, também atacaram Pequim diversas vezes desde 2018.

    O diretor de conteúdo do CEBC frisa que essa agressividade com um parceiro econômico como a China é algo novo na política externa brasileira.

    "A área de política externa brasileira é uma das áreas em que a gente mais teve continuidade em termos históricos, porque sempre teve uma definição de quais são as prioridades de Estado do Brasil na nossa política externa. Eventualmente há uma mudança de governo, pode mudar o tom, certas prioridades, mas as políticas de Estado são claras. Mas nesse governo agora houve uma ruptura pela primeira vez, pelo menos no discurso", afirma.

    Livio Ribeiro, todavia, explica porque essa postura belicosa contra a China pelo governo Bolsonaro não afetou os investimentos feitos no país.

    Em 19 de maio 2015, a então presidente Dilma Rousseff recebe no Palácio do Planalto o então primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. Os dois assinaram 35 acordos bilaterais nas áreas de planejamento, infraestrutura, comércio, energia, mineração, entre outras, no valor de mais de US$ 53 bilhões, de acordo com o governo brasileiro
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    Em 19 de maio 2015, a então presidente Dilma Rousseff recebe no Palácio do Planalto o então primeiro-ministro chinês, Li Keqiang. Os dois assinaram 35 acordos bilaterais nas áreas de planejamento, infraestrutura, comércio, energia, mineração, entre outras, no valor de mais de US$ 53 bilhões, de acordo com o governo brasileiro
    "Quando estamos falando em investimento direito, as decisões não são tomadas no curto prazo. São avaliações muito cuidadosas, que envolvem toda uma discussão que não é apenas de potenciais ganhos no curtíssimo prazo, mas são ganhos plurianuais [...]. Quando estamos discutindo os resultados de determinado ano, muito provavelmente o número registrado reflete na realidade uma avaliação de cenário e uma prospecção de cenário que foi feita antes daquele ano."

    O pesquisador da FGV/IBRE acrescenta que os investimentos não são feitos pelo Estado chinês, mas por empresas chinesas, ainda que muitas delas tenham participação do Estado e os investimentos não são no governo brasileiro, mas no país. Nessa linha, Tulio Cariello complementa afirmando que Pequim sabe que mais cedo ou mais tarde, "de uma forma ou de outra, o governo atual vai sair de jogo, vai entrar outro. Eles conseguem separar o que é política e o que é economia".

    O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, presenteou o presidente da China, Xi Jinping, com uma jaqueta do Flamengo ao final da cerimônia no Grande Salão do Povo, em Pequim em 25 de outubro de 2019
    © AFP 2021 / YUKIE NISHIZAWA
    O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, presenteou o presidente da China, Xi Jinping, com uma jaqueta do Flamengo ao final da cerimônia no Grande Salão do Povo, em Pequim em 25 de outubro de 2019

    Livio Ribeiro alerta que, caso o presidente siga com essa retórica, novos investimentos podem procurar outros destinos e que o fato de a verborragia do governo Bolsonaro não ter afetado os investimentos diretos chineses pode simplesmente significar que talvez não tenha dado tempo ainda, na medida que essa avaliação é plurianual.

    "É claro que se essa retórica continua por muito tempo e se traduz em um ambiente para além da retórica efetivamente agressiva com o investimento estrangeiro chinês, as empresas chinesas vão começar a procurar oportunidades em outros lugares, mas esse momento ainda chegou e a gente tem que lembrar que primeiro: pode não ter chegado porque ainda não deu tempo, segundo: pode não ter chegado porque quando você olha para o Brasil, a médio prazo, Bolsonaro passa e o Brasil continua", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Brasil, China, soja, ferro, investimento, investimentos, investimento externo, investimentos estrangeiros, investimento estrangeiro, pandemia, COVID-19, Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro, governo bolsonaro, Ernesto Araújo, energia eólica, energia elétrica, energia elétrica
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