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    A crise hídrica brasileira é um problema que tem se agravado desde 2014 e, apesar de o país possuir quase um quinto das reservas hídricas do mundo, a falta de água é uma realidade em várias regiões do país, acabando por impactar a sociedade brasileira em todos seus setores.

    Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Milton Pignatari, professor de Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, fala sobre a crise hídrica no Brasil.

    Pignatari falou sobre os impactos dessa crise na economia brasileira, sua relação com as mudanças climáticas, seu peso na distribuição de vacinas contra a COVID-19 e mesmo nas decisões relativas à corrida presidencial.

    Crise hídrica no Brasil - falta de planejamento ou produto de mudanças climáticas

    O professor acredita que tanto as mudanças climáticas quanto a falta de planejamento contribuíram para a situação atual.

    Por essa razão, "os responsáveis por esse setor [hídrico] têm que estar muito atentos. É um setor onde você vai se reunir semanalmente, todas as semanas, para avaliar a situação. E é importante que esse setor realmente seja monitorado, que se acompanhe o que está acontecendo".

    Pignatari também refere que é importante que o setor hídrico trabalhe com outras instituições relacionadas, para criação de medidas mais eficientes.

     Frio congelante na cidade de São Joaquim, em Santa Catarina
    Mycchel Hudsonn Legnaghi/ São Joaquim Online
    Frio congelante na cidade de São Joaquim, em Santa Catarina

    Há vários anos que o Brasil tem uma inconstância climática muito grande, pelo que o modo como o país lida com ela terá consequências para a crise atual e, por isso, o planejamento e a formulação de diretrizes de forma antecipada são muito importantes.
    No entanto, Milton Pignatari adverte que este problema deve ser resolvido como um todo, e não regionalizado.

    Sobre tarifas e posição do consumidor

    Pignatari explica que a situação mais preocupante da crise hídrica do Brasil é o fato de que, apesar de ser comum os custos aumentarem por causa dos maiores gastos de energia na produção, uma vez que o país volte à situação normal, os preços não voltam a baixar, contribuindo não apenas para os altos preços da energia, mas também para o encarecimento geral dos produtos no Brasil.

    No final, acaba por ser o cidadão brasileiro que terá de pagar o preço, uma vez que "toda a cadeia produtiva repassa os valores de uma forma direta ou indireta para o seu consumidor".

    A Sputnik perguntou para o professor até quando o povo brasileiro teria de suportar uma tarifa tão alta, ao que ele respondeu que não tem uma data concreta para isso, explicando que "isso vai depender muito do que acontecer nos próximos meses, e realmente você acaba tendo que aturar isso, tendo de suportar o aumento de tarifa, porque você não tem uma opção alternativa".

    Contrariamente às empresas de telefonia, nas quais podemos optar pelos preços mais favoráveis, o cidadão brasileiro não tem escolha no que toca às empresas de energia elétrica, pelo que terá de suportar a tarifa "por necessidade e imposição".

    Qual é o impacto da crise na economia brasileira?

    A economia brasileira foi afetada pela pandemia, mas teve um bom indicador de crescimento no primeiro trimestre. Sabendo isso, a Sputnik perguntou para o professor se a crise hídrica poderia frear a retomada da economia nacional.

    "Isso depende muito de qual é a projeção dos empresários em relação aos crescimentos dos próximos trimestres". Pignatari afirma que houve, de fato, um bom indicador de crescimento, tanto em termos de bolsa, como de PIB (Produto Interno Bruto), estabilidade do dólar, comercialização, produção agrícola, emprego, entre outros. Ainda assim, o professor diz que a situação está "longe do ideal, mas com uma boa perspectiva", tendo em conta a situação da pandemia mundial.

    No entanto, adverte que, se a crise hídrica for mais duradoura do que o previsto e se a tarifa da energia hidrelétrica tiver que ser reajustada constantemente, isso poderá, sem dúvida, impactar negativamente a economia do Brasil.

    "Se a crise hídrica permanecer, se ela durar um ou dois meses, o comércio vai conseguir recuperar [...] mas se perdurar por três, quatro, ou cinco meses, aí com certeza isso já vai afetar [a economia] e os nossos bons números do nosso primeiro trimestre vão ser diluídos".
    Presidente Jair Bolsonaro acena a seus apoiadores enquanto lidera uma carreata, Rio de Janeiro, Brasil, 23 de maio de 2021
    © REUTERS / Pilar Olivares
    Presidente Jair Bolsonaro acena a seus apoiadores enquanto lidera uma carreata, Rio de Janeiro, Brasil, 23 de maio de 2021

    Quando questionado se poderíamos desenhar um paralelo com as situações de 2001 e de 2015, Milton Pignatari acha que é pouco provável, pois em 2001 o Brasil tinha cerca de 90% da produção hidrelétrica e não estava preparado para o crescimento do consumo de energia, bem como de sua dependência até hoje. Já em 2015, o professor atribui a causa do evento aos problemas nas linhas de transmissão do país, que não aguentaram o alto consumo de energia nacional, acabando por afetar metade do país.

    O fato é que o Brasil ainda se encontra demasiado dependente da energia elétrica, e as alternativas solar e eólica ainda poderão demorar algum tempo a ser devidamente implementadas no país. Por esse motivo, a implementação de políticas de racionamento de consumo de energia impactam a atividade econômica.

    Tais medidas impactam "a atividade econômica, porque afetam todas as cadeias que envolvem a produção, o comércio, a indústria, a prestação de serviços, e acabam prejudicando a população como um todo", explica Pignatari.

    Crise hídrica, distribuição de vacinas e política

    O professor de economia refere que cada estado brasileiro tem seu próprio jeito de distribuir vacinas. No entanto, de maneira geral, Pignatari acredita que a crise em causa não deverá representar grande problema para o processo de distribuição das doses.

    "A distribuição, de uma certa forma, pode muito em um primeiro momento depender alguma coisa da energia elétrica, mas não do ponto de vista geral. [...] Muitas estruturas que estão ligadas à vacinação têm geradores próprios que, em caso de alguma falta de energia, podem suprir de alguma forma", infirma Milton Pignatari.

    Talvez possa ser um obstáculo em determinadas regiões, mais longe das grandes cidades, nomeadamente se as doses precisarem estar em resfriamento durante seu transporte e manutenção, mas existem várias instalações que já possuem os seus próprios geradores caso haja um apagão, impedindo assim que as vacinas percam sua utilidade.

    Fila para vacinação com uso do imunizante da AstraZeneca contra COVID-19 em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Brasil, 21 de abril de 2021
    © REUTERS / Ricardo Moraes
    Fila para vacinação com uso do imunizante da AstraZeneca contra COVID-19 em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Brasil, 21 de abril de 2021

    No que toca ao setor político, é previsível que a crise hídrica venha a ser utilizada como arma política nas campanhas eleitorais das próximas eleições presidenciais.

    "A corrida presidencial já começou, as pecinhas já estão sendo movidas, e é evidente que não só o risco hídrico, como qualquer problema, vai ser sempre levado para os dois lados. Então [a crise hídrica] vai afetar sem dúvida [a situação política no Brasil], dependendo das margens de interpretação. [...] Principalmente se essa crise perdurar", afirma Milton Pignatari.

    Contudo, o professor aponta que, atualmente, a cerca de um ano das eleições presidenciais no Brasil, assistimos a uma grande bipolarização, sendo que, em um relatório preliminar, cerca de 40% dos eleitores afirmam não votar nem em Lula da Silva nem em Jair Bolsonaro, pelo que as tendências de uma possível "terceira via" ainda são desconhecidas.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    vacinação, política, economia, hidrelétrica, energia, crise hídrica, Brasil
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