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    Enquanto seu filho, Flávio Bolsonaro, anuncia jornada política em novo partido, o presidente Jair Bolsonaro, segue por um longo período sem participar de nenhuma legenda. O que estaria por trás da resistência do presidente em se unir a um partido?

    Na segunda-feira (31), o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, Jair Bolsonaro (sem partido), anunciou seu ingresso no Partido Patriota, afirmando que sua filiação foi uma "honra". No mesmo dia, Flávio causou alvoroço ao declarar que seu pai seguiria o seu exemplo. Logo depois, o presidente desmentiu o filho, dizendo que ainda não tinha fechado com nenhuma legenda.

    Ao longo de seu governo, é possível observar que Bolsonaro não demonstra intenção de fazer parte de qualquer partido, mas por que o presidente tem essa postura? Em que tipo de análise Bolsonaro se pauta para evitar uma filiação?

    Flávio Bolsonaro ao lado do pai, o presidente Jair Bolsonaro (foto de arquivo)
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Flávio Bolsonaro ao lado do pai, o presidente Jair Bolsonaro (foto de arquivo)

    A Sputnik Brasil ouviu o especialista Leonardo Martins Barbosa, doutor em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, para entender qual a estratégia do presidente por detrás dessa negação.

    Segundo Barbosa, Bolsonaro presa muito pela autonomia que tem dentro da estrutura política, e que até mesmo antes de chegar à presidência, já apresentava uma dinâmica parecida com a de outros políticos, que trocam de partido para atender sua própria demanda.

    "Antes de ser candidato à presidência, ele basicamente seguia a trajetória de outros políticos brasileiros de ficar pulando de um partido para o outro sempre buscando aquele que vai lhe favorecer mais, ele não tinha uma ambição dele mesmo organizar uma estrutura partidária", disse Barbosa.

    Além disso, o especialista pontua que se filiar a um partido poderia restringir suas ações. Sendo assim, Bolsonaro viveria um dilema em relação à filiação: encontrar um partido no qual tenha total controle, mas que ao mesmo tempo lhe ofereça recursos. Entretanto, os partidos que apresentam recursos financeiros não estariam dispostos a ceder esse controle, segundo Barbosa.

    Presidente Jair Bolsonaro discursa durante cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília, 5 de maio de 2021
    © REUTERS / Ueslei Marcelino
    Presidente Jair Bolsonaro discursa durante cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília, 5 de maio de 2021

    O especialista também destaca que mais do que representar uma sigla, atualmente, Bolsonaro simboliza o progressivo movimento do conservadorismo no Brasil, e sendo assim, um partido deveria, além de proporcionar recursos como financiamento de campanha, conseguir absorver o potencial conservador desse momento.   

    "Esse potencial conservador, que está sendo muito manifestado nesses últimos anos, ainda não tem um abrigo partidário", explica.

    Ao mesmo tempo, ainda que represente essa nova onda de direita através do movimento conservador, Bolsonaro não conseguiu formar um partido que aglomerasse essa forte vertente.

    Para Barbosa, mesmo com uma maciça presença digital da direita, até maior do que a da esquerda, essa formação não acontece porque as pessoas não estão dispostas a ir para as ruas, ficando no ambiente on-line, sem uma participação mais orgânica como foi vista, por exemplo, quando a população foi às ruas para tirar a ex-presidente, Dilma Rousseff, da presidência.

    Brasileiros marcham em protesto contra a resposta do governo no combate à COVID-19, exigindo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro, Rio de Janeiro, Brasil, 29 de maio de 2021
    © AP Photo / Bruna Prado
    Brasileiros marcham em protesto contra a resposta do governo no combate à COVID-19, exigindo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro, Rio de Janeiro, Brasil, 29 de maio de 2021

    Quais seriam então as opções do presidente?

    Barbosa diz que suas opções seriam a filiação a um partido nanico como o Patriota, no qual supostamente poderia exercer o controle que deseja, ou se filiar a um partido do Centrão, que tem recursos financeiros, como o Partido Liberal (PL) ou o Partido Progressista (PP), que podem ter interesse em financiar sua campanha para conseguir participar dos ministérios e das coalizões de governo.

    Porém, ainda assim, não deixariam o presidente operar o controle com sua família no partido, na interpretação do especialista.

    "Bolsonaro peca por ter sido um político de varejo, um político que nunca teve interesse em organizar um movimento mais sólido, vinculado a algum tipo de ideologia ou política pública [...]. Me parece que a alternativa mais adequada vai ser ele se filiar a um partido pequeno, porém, não é certo que o Patriota seja uma opção, e também organizar uma coalizão presidencial com um ou dois partidos do Centrão que lhe dê recurso para disputar as eleições", analisa.

    Na visão de Barbosa, a demora para se unir a uma sigla também acontece para que o presidente ganhe tempo e consiga negociar o melhor acordo possível.

    Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante declaração após reunião com os presidentes do Senado Federal, Câmara dos Deputados e Supremo Tribunal Federal, ministros e governadores em Brasília, 21 de março de 2021
    © Foto / Agência Brasil / Marcelo Camargo
    Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante declaração após reunião com os presidentes do Senado Federal, Câmara dos Deputados e Supremo Tribunal Federal, ministros e governadores em Brasília, 21 de março de 2021

    Partidos nanicos: Bolsonaro seria um bom filiado?

    Mesmo sendo quase que óbvio o efeito positivo que um político de peso, como Bolsonaro, poderia causar em partidos nanicos para ajudar a superar a cláusula de barreira e manter o jogo político, não parece que os mesmos estão clamando por sua presença.

    Barbosa explica que essa intenção existente, porém, não tão alvoroçada, pelo fato de que essas legendas de menor expressão também não querem ceder o controle do partido, pois esses já teriam os seus próprios "caciques", e a chegada de "mais um" poderia causar problema dentro da sigla.

    "[...] Muita gente vai ser deixada de lado nessa história [...]. Você teria que agradar mais caciques dentro dessas legendas, e, inevitavelmente, quando o Bolsonaro entrar, alguém vai ter que ficar de fora", explica Barbosa.  

    Lula e uma estrutura partidária sólida

    Ao contrário de Bolsonaro, o ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que já anunciou sua candidatura à presidência em 2022, apresenta uma estrutura sólida partidária através do Partido dos Trabalhadores (PT). Porém, Barbosa afirma que mais do que representar uma possível vitória por meio dessa consistente organização, essa estrutura permite que se crie uma forte oposição.

    "Não é fácil fazer oposição, nesse sentido, você fazer parte de um partido como o PT, como o Lula faz por tanto tempo, te traz, sem dúvida nenhuma, um tipo de vantagem nessa circunstância particular. Ninguém vai questionar se o PT vai dar total apoio ao Lula para fazer oposição, o PT faz oposição desde que começou o governo Bolsonaro, pode não ser a oposição mais forte do mundo, mas nunca se teve o problema de o partido aderir ou não", diz Barbosa.

    Essa postura do PT, teria, então, dado vantagem para candidatura do ex-presidente, pois torna sua representatividade mais forte. Barbosa ainda salienta que, na atual condição de presidente, Bolsonaro não precisaria tanto desse apoio partidário, mas que a contribuição de um partido alinhado com seu candidato como a ligação PT-Lula proporciona nesse cenário um desafio grande a um presidente que almeja garantir sua reeleição.

    Ex-presidente Lula toma 2ª dose da vacina contra a COVID-19 usando a máscara de proteção com a logo do Partido dos Trabalhadores, demonstrando sua união intensa com o partido, São Bernardo do Campo, São Paulo, em 3 de abril de 2021
    Ex-presidente Lula toma 2ª dose da vacina contra a COVID-19 usando a máscara de proteção com a logo do Partido dos Trabalhadores, demonstrando sua união intensa com o partido, São Bernardo do Campo, São Paulo, em 3 de abril de 2021

    Bolsonaro enfrenta hoje um dos índices mais altos de reprovação de seu governo em consequência de sua postura diante da pandemia da COVID-19 no Brasil. Em meados de março, a rejeição à gestão do presidente chegou a 54%, maior reprovação até o momento. A candidatura de Lula também mexeu com a segurança do presidente, que não contava com um candidato forte de oposição.

    Mesmo com toda resistência e a estratégia de ganhar tempo para fazer uma boa escolha, pode ser que a filiação a um partido seja uma boa saída para os desafios que o presidente enfrenta diante das eleições brasileiras de 2022. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Patriotas, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Brasil
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