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    Nesta quinta-feira, 27 de maio, o Brasil comemora o Dia Nacional da Mata Atlântica, abrigo de grande parte da população brasileira e que mantém apenas 12,4% de sua vegetação original. Por que esse bioma precisa ser preservado?

    Enquanto o mundo discute o futuro da Amazônia, em meio ao aumento da devastação na região e seus impactos para as mudanças climáticas, muitos especialistas também defendem um olhar mais cuidadoso para esse outro bioma, que, segundo eles, faz parte de um grupo de ecossistemas em que a restauração de 15% da sua área evitaria 60% da extinção de espécies previstas e, ao mesmo tempo, sequestraria o equivalente a 30% do dióxido de carbono lançado na atmosfera desde o início da revolução industrial. 

    "Falar em Mata Atlântica é diretamente falar em desenvolvimento do nosso país", afirma, em entrevista à Sputnik Brasil, o engenheiro florestal Telmo Borges, superintendente de Mudanças do Clima da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro.

    Segundo ele, cerca de 145 milhões de pessoas residem na Mata Atlântica, ou seja, mais de 70% da população brasileira, assim como a maior parte da produção industrial do país. E, nesse sentido, o bioma está diretamente ligado à economia, à geração de empregos e renda.

    "A gente, de forma alguma, pode voltar com o discurso de que floresta é empecilho ao desenvolvimento. Pelo contrário, o desenvolvimento foi feito na Mata Atlântica, a ferro e fogo, derrubaram muita coisa. E a gente, agora, tem que fazer uma economia integradora." 

    Rio em trecho da Mata Atlântica fotografado em Santa Catarina
    © Foto / Luiz Carlos Meier/Wikimedia Commons
    Rio em trecho da Mata Atlântica fotografado em Santa Catarina

    Essa economia integradora, de acordo com o especialista, é necessária para manter o desenvolvimento do país de uma maneira mais sustentável, minimizando os impactos de séculos de devastação das florestas, que já tem afetado, por exemplo, a dinâmica das chuvas. 

    "Nós temos áreas alagadas importantes, principalmente no efeito da mudança climática, onde vai absorver e concentrar. Nós temos as restingas, os manguezais, associados à Mata Atlântica, que vão dar o nosso suporte não só do pescado, mas também esse impacto dos cenários de elevação do nível do mar para dentro do continente. Então, pensar em Mata Atlântica, hoje, pensar mudança climática é pensar na sobrevivência da economia nacional, é pensar na população em termos de abrigo, moradia, e pensar na biodiversidade também." 

    Micos-leões-dourados são vistos em área de Mata Atlântica em Silva Jardim, no Rio de Janeiro
    © AP Photo / Silvia Izquierdo
    Micos-leões-dourados são vistos em área de Mata Atlântica em Silva Jardim, no Rio de Janeiro

    Com cerca de 20 mil espécies vegetais, mais de 300 espécies de peixes, 800 de aves e uma infinidade de insetos, que atuam muitas vezes como polinizadores indispensáveis à produção de alimentos, com sua importância para a regulação do clima, disponibilidade de recursos hídricos, entre outras, a Mata Atlântica está intimamente ligada à própria sobrevivência da população em um país tropical, conforme explica Borges.

    "É importante a gente colocar que a Mata Atlântica é um patrimônio e um grande ativo nacional. Boa parte dos remanescentes de Mata Atlântica está em área privada. E, em muitas regiões, a gente não tem mata, é moita, é uma moita atlântica. O principal desafio é a gente criar um pertencimento social sobre a Mata Atlântica, gerar essa importância e como a gente consegue dialogar com a sociedade da importância da Mata Atlântica no seu dia a dia."

    Os cenários de mudanças climáticas deverão, segundo o especialista, desencadear questões importantes na sociedade e na economia. Para que esses impactos não sejam os piores, uma relação mais sustentável com os biomas se faz urgente, o que, na opinião do engenheiro florestal, depende tanto de políticas públicas como de uma postura responsável das pessoas comuns, só possível através do reconhecimento de um pertencimento a esse bioma.

    "Então é importante destacar isso, a gente começar a criar essa consciência da importância da floresta, principalmente dentro dos efeitos climáticos e eventos climáticos extremos também. O Rio de Janeiro, nos últimos anos, passou e tem passado por alguns eventos climáticos extremos" que têm sido amenizados pelas florestas, ele ressalta. 

    Área de Mata Atlântica nos arredores de Florianópolis
    © Folhapress / Anderson Coelho
    Área de Mata Atlântica nos arredores de Florianópolis

    Apesar da avançada degradação e das ameaças a muitas espécies, a Mata Atlântica também tem demonstrado um grande potencial de "resiliência", com alguns casos de sucesso de restauração da vegetação. No Rio, por exemplo, esforços coordenados de recuperação conseguiram elevar a cobertura florestal de 28% para 33%, de acordo com o superintendente do estado.

    "É possível, sim, a gente fazer uma restauração produtiva, alinhada à agricultura, é possível, sim, as indústrias serem responsáveis e nós sermos responsáveis com o consumo, e isso tudo potencializar o ressurgimento, vamos dizer assim, da Mata Atlântica."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Rio de Janeiro, clima, mudanças climáticas, preservação, meio ambiente, floresta, Mata Atlântica, Brasil
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