19:52 14 Maio 2021
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    O canal de Suez, no Egito, que recentemente foi bloqueado pelo gigante cargueiro Ever Given, sumiu das notícias após restabelecimento da importantíssima artéria do comércio mundial. O fato, no entanto, destacou a importância de projetos para diversificar os corredores logísticos globais.

    Entre as vias alternativas logísticas globais estão os projetos na América do Sul, sobretudo a Ferrovia Bioceânica, uma linha férrea que ligará os oceanos Atlântico e Pacífico, conectando a costa do Brasil com a do Peru. Em entrevista à Sputnik, o doutor Javier Gustavo Oyarse Cruz, especialista em comércio, falou das vantagens do projeto e explicou em que etapa se encontra.

    "O alerta que surgiu na sequência do bloqueio do canal de Suez coloca na agenda a necessidade de procurar soluções logísticas para abrir o comércio e acredito que uma das soluções seria retomar o projeto do corredor bioceânico que liga o oceano Pacífico ao oceano Atlântico, passando por três países – Brasil, Bolívia e Peru – e tendo influência inclusive na Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile. Este corredor bioceânico deveria ser um corredor ferroviário projetado exclusivamente para o transporte de carga", ponderou Javier.

    O corredor é projetado exclusivamente para transporte de carga, de grande peso e volume, e não para turismo. A Ferrovia Bioceânica preveria as dificuldades que podem surgir no futuro com a transportação de cargas, afirmou o especialista.

    O projeto permitiria diminuir os custos logísticos, porque está provado que tanto o transporte marítimo como o transporte ferroviário são as alternativas mais econômicas e rentáveis para a carga pesada e de grande tamanho. A via ferroviária uniria a China, as Américas e a Europa.

    "A ideia é que seja uma passagem livre, totalmente gratuita, que permita finalmente que a região e os países por onde este trem tem influência possam gerar mais emprego, mais oportunidades de negócios, e, o que é mais importante, a integração sul-americana baseada em um projeto logístico que nos une", ressaltou.

    O projeto da Ferrovia Bioceânica foi paralisado devido a decisões políticas. Tendo sido iniciado na época do governo de Ollanta Humala do Peru e de Dilma Rousseff do Brasil, a China apoiou o projeto e se mostrou disposta a investir na inciativa.

    Atualmente, o projeto espera os resultados de novas eleições presidenciais para ressuscitar e implementar os planos técnicos. É necessário decidir a rota geográfica por onde passará o corredor logístico e ter compromisso dos governos que cederão seus territórios para o projeto, afirmou Javier.

    "Nesta etapa, em que nos encontramos, de mudanças de governos na América [do Sul], nesta etapa em que a China ainda tem vontade política de financiar grande parte deste projeto, o que é necessário é que órgãos internacionais ajudem Peru, Bolívia e Brasil de uma vez por todas a ter traçada a rota por onde vai passar o trem, a definir o financiamento e o custo, e, sobretudo, é necessário o compromisso dos governos em aprovar todo o sistema legal, todas as normas administrativas que sejam exigidas", disse especialista.

    Javier sublinhou a possível construção de portos secos, ou seja, de zonas de distribuição logística de carga de grande peso e volume, justamente na região por onde passaria a Ferrovia Bioceânica, o que, para o especialista, ajudaria as zonas dos países envolvidos a ter uma melhor qualidade de vida, a ter acesso a produtos de tecnologia de ponta e a estimular as exportações da América do Sul para vários destinos do mundo, desde seus portos hub – tanto do Porto de Santos do Brasil no Atlântico como do Porto de Mollendo no Peru.

    Há outros corredores logísticos na América Latina que ainda estão na etapa de projeto. Outra iniciativa importante é o canal interoceânico ou canal da Nicarágua, que deveria ter sido finalizado em 2020 na América Central. No entanto, sua construção tem de superar muitas dificuldades políticas (quem administrará o canal) nos países integrantes da área de influência onde querem construir o canal. O projeto precisa de investimentos estrangeiros para se igualar a um canal como o de Panamá, afirmou Javier.

    Além disso, existe a Estrada do Pacífico que liga o noroeste do Brasil ao litoral sul do Peru. Outra rota logística passa entre Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Peru. Estas estradas são inspiração para criar a Ferrovia Bioceânica, já que esta ferrovia será construída paralelamente às já existentes.

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    Tags:
    Brasil, carga, comércio, ferrovia, Canal de Suez
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