08:25 27 Julho 2021
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    Especialista afirma que o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima não reflete a prática do governo e que o país precisará de ações efetivas para atrair a atenção de investidores internacionais.

    A Cúpula do Clima, realizada na semana passada, trouxe ainda mais luz para o debate sobre políticas ambientais no Brasil. Mas mesmo antes do encontro internacional, organizado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, empresários brasileiros já vinham pressionando o governo federal por medidas concretas na área ambiental.

    A preocupação das empresas é que a falta de engajamento do país na preservação do meio ambiente e no combate ao aquecimento global gere também prejuízos econômicos, com a redução dos investimentos no Brasil.

    Na última quinta-feira (22), durante seu discurso na Cúpula do Clima, o presidente Jair Bolsonaro prometeu reduzir as emissões de gases de efeito estufa e zerar o desmatamento ilegal até 2030, além de fortalecer os órgãos ambientais e duplicar recursos para fiscalização.

    Porém, no dia seguinte, na sexta-feira (23), ao sancionar o Orçamento de 2021, Bolsonaro cortou quase R$ 240 milhões em verbas destinadas ao Ministério do Meio Ambiente.

    Segundo a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, o governo passa um sinal de que apenas atenuou o discurso para o encontro e que, na prática, não pretende alterar sua postura em relação ao meio ambiente.

    "Está bem caracterizada uma 'antipolítica ambiental'. Acredito que as promessas são pouco críveis e que os eventuais financiadores externos já perceberam. Precisa de muito mais do que um discurso atenuado para convencer os outros países de que o Brasil vai realmente cumprir as promessas", afirmou a pesquisadora em entrevista à Sputnik Brasil. Formada por mais de 60 organizações da sociedade civil, a entidade foi fundada em 2002 com o objetivo de discutir as mudanças climáticas.
    Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020.
    © AP Photo / Eraldo Peres
    Jair Bolsonaro, à esquerda, com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, após condecorá-lo com a Medalha de Mérito Rio Branco, o maior prêmio da diplomacia, em 22 de outubro, 2020.

    Um documento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), enviado antes do encontro aos ministérios da Economia, Meio Ambiente, Agricultura e Relações Exteriores, diz que podem ser gerados US$ 17 bilhões (aproximadamente R$ 92,63 bilhões) até 2030 "a partir de negócios com base na natureza".

    Segundo a entidade, "o PIB do país também pode ter um crescimento vertiginoso com a implantação de práticas de baixo carbono, atingindo um ganho total acumulado de R$ 2,8 trilhões até 2030 em relação à trajetória atual".

    O texto conta com a assinatura de empresas como Bayer, Braskem, Bradesco, BRF, Ipiranga, Itaú, JBS, Lojas Renner, Marfrig, Natura, Shell, Siemens, Suzano e Votorantim.

    Pelo Acordo de Paris, o país tem a meta de reduzir em 37% a emissão de gases de efeito estufa até 2025 e em 41% até 2030. O texto foi assinado pelo Brasil em 2015 e confirmado pelo governo em dezembro de 2020.

    Mas a entidade deseja que o Brasil vá além da meta estipulada e contribua para um movimento de compromisso de emissão neutra até 2050.

    Ou seja, a ideia é compensar as emissões que forem inevitáveis através de medidas ambientais que anulem os efeitos nocivos ao meio ambiente e à camada de ozônio.

    A pressão ocorre após a notícia de que o desmatamento na Amazônia registrou o pior mês de março dos últimos dez anos.

    Um levantamento do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) mostrou que a área devastada triplicou em relação ao registrado no mesmo mês de 2020. Foram 810 km² desmatados da Amazônia Legal, área equivalente à cidade de Goiânia.

    Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará
    © AP Photo / Leo Correa
    Pedaços de troncos de árvores da Amazônia derrubadas ilegalmente na reserva Renascer, no Pará

    Suely Araújo, do Observatório do Clima, afirma que o Brasil não está inserido no debate da reconstrução do mundo pós-pandemia quanto à questão ambiental. Para ela, o país "está sofrendo efeitos negativos do posicionamento do governo Bolsonaro em relação à política ambiental já há algum tempo".

    "O mundo está se preparando para um novo olhar sobre a relação com o meio ambiente. Tem um debate no plano internacional. E o Brasil está olhando para o retrovisor", disse a especialista.

    De acordo com a pesquisadora, poderá haver ainda consequências mais graves no plano internacional, como em relação à participação em tratados e acordos. Ela cita a dificuldade do país na formalização definitiva do tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia e no ingresso na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

    "Estamos perdendo mercado e vamos perder mais. Há um conjunto grande de efeitos negativos, decorrente da postura do presidente Bolsonaro", afirmou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    empresários, empresariado, empresas, negócios, Brasil, governo federal, Jair Bolsonaro, Ministério do Meio Ambiente, meio ambiente
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