16:03 06 Maio 2021
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    Situação da COVID-19 em meados de abril no Brasil (74)
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    Com o avanço global da vacinação contra a COVID-19, alguns países se destacam pelo sucesso de suas campanhas de imunização, enquanto outros se tornam zonas de risco, as chamadas "zonas vermelhas".

    A Sputnik Brasil conversou com Robson Valdez, pesquisador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Brasília (UnB), para discutir se o Brasil pode ser incluído nessa qualificação, e quais seriam as consequências para as relações externas e a economia da nação.

    Um país em uma "zona vermelha" é aquele onde proliferam variantes do coronavírus e a pandemia cresce. No Brasil, cujo governo demorou mais de um ano para adotar políticas públicas positivas de combate à doença, esse é o quadro atual.

    O ministro da Saúde,  Marcelo Queiroga, posa para foto com o personagem Zé Gotinha, após coletiva no Palácio do Planalto.
    © Foto / Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
    O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, posa para foto com o personagem Zé Gotinha, após coletiva no Palácio do Planalto

    Para Valdez, o país já se tornou uma "zona vermelha", sendo uma ameaça global, por causa do descontrole da pandemia em nosso território. Esse descontrole, segundo ele, tem se refletido no elevado número de óbitos até o momento, no colapso do sistema de saúde, no rápido contágio do vírus e no surgimento de novas variantes.

    "Isso tem alertado nossos países vizinhos e a comunidade global como um todo. Então, para se ter uma ideia, hoje há uma dificuldade muito grande no transporte terrestre de produtos brasileiros para Argentina, Uruguai, Chile. Há uma série de restrições para a entrada desses transportadores com produtos brasileiros", comentou o especialista.

    Foi o que aconteceu essa semana, quando ocorreram novas restrições às exportações brasileiras para Argentina e Chile. Esses dois países exigem que os motoristas de caminhões de carga apresentem testes negativos da doença na fronteira.

    A medida atinge principalmente a exportação brasileira de bens manufaturados, que usa principalmente as rodovias para chegar aos nossos vizinhos sul-americanos. Nos embarques rumo à Argentina, mais da metade é transportada por caminhões.

    Caminhões percorrem a BR-101 no km 356 em Santa Catarina
    Alan Pedro
    Caminhões percorrem a BR-101 no km 356 em Santa Catarina

    Valdez disse que outro ponto que reflete esse receio do mundo em relação ao Brasil pode ser observado nas restrições dos voos que saem daqui para a maioria dos países, por conta do medo generalizado em relação à situação da pandemia no país.

    "Então, por esses e outros motivos, a gente acaba percebendo que os países estão se precavendo em relação ao Brasil, por conta de sua extensa fronteira com os vizinhos da América do Sul. Como isso pode se alastrar, há o medo do comprometimento de suas estruturas [dos países fronteiriços] na contenção do vírus e dos efeitos adversos na economia, no setor de saúde e efeitos sociais que causariam", completou o pesquisador.

    Como fica a economia do país com o isolamento

    Valdez explicou que as agendas internacionais são sobrepostas. Ao descontrole da pandemia no Brasil, soma-se a falta de uma agenda ambiental positiva do governo brasileiro. Essa agenda já era um entrave para a celebração do acordo comercial Mercosul-União Europeia, e a pandemia piorou ainda mais a imagem do Brasil no exterior.

    "Nesse sentido, o país tem sido visto como um pária ambiental e uma ameaça sanitária global. Com a derrota do governo Trump e a chegada de Biden à Casa Branca depois das eleições de novembro do ano passado, as coisas ficarão mais difíceis para o governo Bolsonaro, que agora tem que lidar com uma administração americana que vem priorizando a agenda ambiental internacional", ponderou Valdez.

    Como exemplo dessa política dos EUA, há no congresso americano resoluções e projetos de lei que buscam pressionar o governo brasileiro para conter a devastação da floresta amazônica, que é vista pelo governo americano como ameaça a sua segurança nacional, disse o especialista.

    "Esses projetos de lei e resoluções preveem obstáculos à importação de uma série de produtos brasileiros, à cooperação militar entre os dois países e nas negociação de um eventual acordo de livre comércio entre Brasil e Estados Unidos. Por isso, se o governo brasileiro não demonstrar comprometimento em soluções para o meio ambiente e para a pandemia o país encontrará mais dificuldades para promover os interesses brasileiros no cenário internacional", avaliou Valdez.

    Economia já sente os efeitos de o país ser "zona vermelha"

    Até o momento os problemas contratuais tem sido menores e refere-se principalmente ao transporte terrestre de produtos do Brasil para os países do Mercosul, Chile e Peru. O principal desafio brasileiro é justamente a falta de controle sobre a pandemia, que já contribuiu para a queda de 4,1% do PIB em 2020, segundo o pesquisador.

    Para ele, todas as dificuldades diplomáticas de se conseguir vacinas e insumos para produção local de vacinas impactam negativamente sobre a economia nacional, lembrando que o motor tradicional da economia brasileira tem sido por muitas décadas a pujança de seu mercado doméstico.

    Centros comerciais da Barra da Tijuca ainda funcionam com restrições após decreto governo estadual que flexibiliza medidas de isolamento social pela pandemia do novo coronavírus.
    Fernando Frazão/Agência Brasil
    Centros comerciais da Barra da Tijuca ainda funcionam com restrições após decreto governo estadual que flexibiliza medidas de isolamento social pela pandemia do novo coronavírus
    "Então como não há perspectiva de melhora na gestão da pandemia e seus efeitos sobre a economia brasileira, diminui-se a propensão do investidor nacional e estrangeiro de realizar novos investimentos no Brasil", sentenciou Valdez.

    Será que uma nova política externa ajuda?

    Em relação a como a política externa brasileira pode auxiliar a virar esse jogo, o analista disse que é preciso que o Brasil reforce sua relação com os países da América do Sul, países árabes e africanos, pois são mercados importantes dos produtos manufaturados brasileiros, ou seja, produtos com alto valor agregado.

    Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, em Brasília
    "Essas regiões são importantíssimas para a gente manter relações e os canais para o incremento do comércio. Adicionalmente seria importante que o Brasil pudesse tratar sua relação com EUA, China e Europa da forma mais pragmática possível, reconhecendo suas potencialidades e desafios", continuou.

    Após pressões vindas de todos os lados, o presidente Jair Bolsonaro substituiu no final do mês passado um dos principais nomes do seu governo, o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, pelo embaixador Carlos Alberto Franco França, diplomata com 30 anos de carreira e ligado à área do cerimonial do Itamaraty.

    "Ainda que a mudança no comando do Ministério das Relações Exteriores tenha sido recebido como uma notícia positiva, no sentido de corrigir os rumos da política externa brasileira, ainda é cedo para saber se o atual ministro terá autonomia em relação ao presidente e a seus filhos para corrigir dois anos de uma política externa que se mostrou desastrosa para os interesses brasileiros no cenário internacional nesses primeiros dois anos de governo Bolsonaro", finalizou Valdez.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Situação da COVID-19 em meados de abril no Brasil (74)

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    Tags:
    COVID-19, novo coronavírus, pandemia, relações exteriores, saúde, economia, Brasil
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