19:44 27 Outubro 2021
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    COVID-19 no final de março de 2021 no Brasil (116)
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    Em resposta à Sputnik Brasil, Ministério da Saúde informou que campanha teve perda de 7,45% de doses, acima dos 5% previstos no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a COVID-19.

    Segundo o documento, a pasta adotou, inicialmente, tanto para a CoronaVac como para a Oxford/AstraZeneca, a "estratégia de esquema de vacinação com perda operacional de 5% (com revisão continuada em tempo real)".

    O ministério não informou a quantidade de doses perdidas, mas, se levarmos em consideração o total de doses aplicadas, segundo painel disponibilizado pelo governo, esse número é de 1.160.030 (quantidade suficiente para vacinar toda a população de Florianópolis e mais a de Cuiabá). 

    Até a tarde de quarta-feira (24), o sistema do Ministério da Saúde indicava que 11.745.220 pessoas tinham tomado pelo menos a primeira dose da vacina, enquanto 3.721.856 brasileiros receberam as duas doses. O total de doses aplicadas somava 15.467.076.

    Desde o início oficial da campanha de imunização no Brasil, em 18 de janeiro, surgiram notícias isoladas sobre doses perdidas. A maioria ocorreu por problemas de armazenamento dos imunizantes. 

    Índice pode ser diferente

    A CoronaVac e a Oxford/AstraZeneca precisam ser mantidas em uma temperatura entre 2ºC a 8ºC. Em Vila Velha (ES), por exemplo, 547 doses foram perdidas devido a uma falha no sistema de refrigeração de uma unidade de saúde do município. 

    O índice de 7,45% de perdas, no entanto, pode não corresponder à realidade nacional. A rastreabilidade das doses é feita por um mecanismo chamado SI-PNI (Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações), criado em 2012, mas que, segundo a ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI), Carla Domingues, nunca conseguiu ser totalmente implementado. 

    Em São Paulo, Brasil, caminhões com doses da vacina CoronaVac contra a COVID-19 deixam o Instituto Butantan, em 15 de março de 2021
    © REUTERS / Carla Carniel
    Caminhões com doses da vacina CoronaVac contra a COVID-19 deixam o Instituto Butantan, em São Paulo, em 15 de março de 2021. Desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac, o imunizante é produzido no Brasil pela entidade paulista

    No plano de vacinação contra o coronavírus, é explicado que existe um painel de gerenciamento das doses para controle interno. Por meio dele, as unidades vacinadoras de cada cidade registram as remessas recebidas, aplicadas e eventualmente inutilizadas. Com esses dados, o sistema faz um cálculo automático. 

    "O ministério nunca conseguiu que os municípios implementassem esse sistema efetivamente, somente em alguns deles. Então não tínhamos essas informações em nível nacional. Seria fundamental, mas, infelizmente, nunca se conseguiu que se fizesse essa ação obrigatória, e que os municípios entendessem a importância disso", afirmou Domingues, que esteve à frente do PNI de 2011 até 2019, quando se aposentou. 

    30% das salas de vacinação

    Em meados de 2019, somente cerca de 30% das salas de vacinação alimentavam a plataforma. Se no processo de imunização de rotina o controle de perdas já era difícil de ser feito, na campanha da COVID-19 a dificuldade é ainda maior. 

    "Muitos municípios anotavam errado, um processo muito complexo. O Brasil é um país muito grande. Quase um continente. Se não tiver um processo de capacitação e supervisão, fica muito difícil controlar isso na ponta", afirmou a ex-servidora à Sputnik Brasil.

    Há dois tipos de perdas operacionais de vacinas. A técnica ocorre quando um frasco com doses é aberto para aplicação em um indivíduo, mas, ao final de determinado período, nem todas as doses foram aplicadas e expira a validade da vacina, que precisa ser descartada. O prazo para uso da CoronaVac é de oito horas, e da Oxford/AstraZeneca, de seis.

    No início da campanha da imunização contra o coronavírus no Brasil, que obedece à escalonamento por grupos etários, surgiram denúncias de perdas técnicas em algumas unidades. Sob pressão, Secretarias e Ministério da Saúde reforçaram que, ao final do expediente do dia da vacinação, doses ainda disponíveis em frascos abertos deveriam ser usadas em pessoas de outros grupos, com prioridade de idade. 

    O outro tipo de perda é a física, que ocorre por motivos como quebra do frasco, falta de energia, procedimento inadequado, falha de transporte, problemas de armazenamento, entre outros. 

    Perdas subestimadas?

    Em campanhas de vacinação mais passivas, com fluxo menor de pessoas, as perdas técnicas são maiores e até mesmo consideradas normais. No caso da febre amarela e da tríplice viral, por exemplo, as perdas podem chegar a 50%. Na BCG, esse número pode atingir 70%. 

    No caso da COVID-19, com uma alta procura pela vacina, essa perda tende a ser bem menor. Mesmo assim, especialistas consideram a previsão de inutilização de 5% bastante audaciosa. 

    Uma medida apontada para diminuir possíveis descartes de doses seria fazer um esquema de pré-cadastramento da população, como ocorre nos Estados Unidos. Também é importante fazer uma campanha forte de incentivo à imunização e disponibilizar locais para vacinação em massa, como ginásios. 

    'Pode ser muito complicado'

    O vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Reinaldo Guimarães, diz que a perda de doses tradicionalmente é maior do que 5%. Ele cita a campanha contra a influenza sazonal, quando a estimativa de inutilização foi de até 20%. 

    "Isso, evidentemente, pode incidir na campanha contra a COVID-19. Inclusive porque se tem vacinas diferentes. Se todas as vacinas que o governo federal diz que está comprando agora chegarem aqui, teremos regimes de vacinação diferentes, com cadeias de frio [sistema de armazenamento dos imunizantes] diferentes. Na cabeça do Ministério da Saúde, em Brasília, pode ser simples, mas, quando se chega lá na sala de vacinação, em um lugar afastado, isso pode ser muito complicado", afirmou o médico à Sputnik Brasil.

    Reserva técnica

    Saber o número de doses perdidas é importante para determinar a distribuição correta de reserva técnica para as salas de vacinação. Caso o descarte esteja subestimado, podem faltar imunizantes. 

    O plano de vacinação contra a COVID-19 do governo diz que o monitoramento propicia "ajustes necessários do planejamento nacional para revisão continuada da aquisição e distribuição da vacina". O documento ressalta ainda que o percentual de 5% "poderá ser redefinido de acordo com a necessidade, a cada etapa da campanha de vacinação".

    Fachada da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, que produzirá vacina de Oxford contra coronavírus no Brasil
    © Folhapress / Érica Martin/Enquadrar
    Fachada da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, onde estão sendo produzidas as doses da vacina Oxford/AstraZeneca

    Nunca faltaram doses, diz ex-ministro

    O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha disse à Sputnik Brasil que o "registro feito pelos municípios nunca foi uma questão", pois o governo sempre teve "doses de vacinas suficientes para a população".

    Segundo o médico, atualmente deputado federal (PT-SP), "o governo colocou o Brasil nessa situação de escassez de vacinas da COVID-19", apesar de ter tido "um ano para fazer o planejamento" da campanha de imunização. 

    "Porque se negou, desde a metade de 2020, a contratar e fazer parcerias, por exemplo, a oferta de milhões de doses da Sputnik V que foi feita pelo Fundo Russo [Fundo Russo de Investimentos Diretos], as ofertas feitas pela Pfizer, pela Janssen. Da oferta feita pela Organização Mundial da Saúde de 140 milhões de doses por meio do COVAX Facility [iniciativa da ONU para o acesso global às vacinas contra a COVID-19], o governo pediu apenas 40 milhões", criticou Padilha.

    Outras vacinas

    Após a publicação desta reportagem, o Ministério da Saúde afirmou à Sputnik Brasil que, "com base nos dados registrados na Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), no dia 23/03, é possível observar que 5.552 municípios brasileiros já informaram dados sobre a vacinação contra a COVID-19 - esse número representa 99% das cidades". A pasta não especificou a que tipos de dados sobre a vacinação as informações se referem. 

    A pasta disse ainda que a estimativa de perda de outras vacinas, "que poderão ser incorporadas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), estão sendo analisadas". O ministério também informou que, "para diminuir as perdas operacionais, os profissionais de saúde são orientados quanto ao manuseio adequado e aspiração correta das doses, além do monitoramento e controle logístico da vacinação do público-alvo".  

    A pasta frisou ainda que o profissional de saúde "deve registrar o lote, laboratório e quantidade de doses utilizadas - número de doses do frasco aberto - em cada uma das unidades de vacinação".

    "Essas informações possibilitam o sistema calcular a diferença entre o total de doses utilizadas e o total de doses aplicadas, otimizando a vacinação e evitando perdas operacionais", concluiu o ministério.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    COVID-19 no final de março de 2021 no Brasil (116)

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    Tags:
    novo coronavírus, Brasil, pandemia, COVID-19, vacinação, Vacina CoronaVac, Alexandre Padilha, Ministério da Saúde, imunização
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