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    COVID-19 no final de março de 2021 no Brasil (116)
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    Ontem (21), o presidente da Venezuela afirmou que o Brasil é "a maior ameaça do mundo" em função da crise pandêmica no país. Para especialista ouvido pela Sputnik, declaração foi mais um capítulo dos embates entre Bolsonaro e Nicolás Maduro.

    Enquanto diversos Estados pelo mundo restringem voos com origem no Brasil, principalmente em razão da crise sanitária brasileira e da presença de uma nova variante do coronavírus, o presidente de Nicolás Maduro decidiu criticar publicamente o governo brasileiro.

    Na noite deste domingo (21), em seu tradicional pronunciamento semanal, o venezuelano declarou que o país "enfrenta uma nova onda de infecções por coronavírus devido à presença das variantes brasileiras no país".

    A Sputnik Brasil conversou com o professor de História da UERJ, Rafael Araújo, para compreender os efeitos da questão pandêmica do Brasil em seus vizinhos na América Latina, assim como os embates recentes entre Maduro e Jair Bolsonaro sobre a crise da COVID-19.

    Coronavírus: profissionais da área médica trabalham na linha de frente do combate à COVID-19 no Brasil
    © Folhapress / Agif
    Coronavírus: profissionais da área médica trabalham na linha de frente do combate à COVID-19 no Brasil

    De antemão, o professor afirmou: "Ao se abordar a Venezuela, os temas são extremamente politizados. Então, com relação a essa nova variante em território venezuelano, isso vai ser aproveitado politicamente pelo Maduro nas críticas ao Bolsonaro".

    O embate entre Bolsonaro e Maduro

    Ainda na noite de ontem (21), o presidente da Venezuela, após fazer críticas ao Brasil, disse que seu país estava "diminuindo de casos, até a chegada da variante brasileira". Para o especialista ouvido pela Sputnik Brasil, esse episódio deve deflagrar "mais um round das disputas políticas entre Jair Bolsonaro e Nicolás Maduro".

    ​"Certamente, a presença da variante brasileira do coronavírus em território venezuelano, anunciada ontem [21], tende a ser usada como arma política de críticas de Maduro ao governo de Bolsonaro", afirmou. Em seguida, acrescentou: "Por mais que possamos tecer inúmeras críticas à Nicolás Maduro, não estamos falando de um negacionista acerca da ciência da pandemia, como Jair Bolsonaro é".

    O especialista entende que este é mais um round de disputa entre os chefes de Estado, assim como quando o governo venezuelano enviou oxigênio para Manaus, na Amazônia, em um momento em que a cidade entrou em colapso pela COVID-19.

    Na ocasião, Maduro comentou: "Estamos garantindo aos estados do Amazonas, no Brasil, e de Roraima, através da classe trabalhadora venezuelana, suas necessidades de oxigênio".

    Do lado brasileiro, Jair Bolsonaro é um crítico do governo de Nicolás Maduro, e provocou o presidente em janeiro de 2019 ao reconhecer Juan Guaidó como chefe de Estado venezuelano.

    O presidente Jair Bolsonaro se reúne com o autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, para entrevista com os jornalistas após reunião no Palácio do Planalto, em Brasília.
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    O presidente Jair Bolsonaro se reúne com o autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, para entrevista com os jornalistas após reunião no Palácio do Planalto, em Brasília.

    A situação da pandemia na Venezuela

    Rafael Araújo entende que há uma grave crise econômica e social que a Venezuela enfrenta há pelo menos cinco. O professor também acredita que, "até o momento, o governo da Venezuela tem adotado medidas ancoradas na ciência contra a pandemia".

    Ele destacou que "houve uma rígida política de distanciamento social, uma vez que, enquanto não houver vacinas para todos, as práticas de isolamento social são comprovadamente eficazes pelos cientistas".

    Ele também enalteceu algumas medidas diplomáticas de Nicolás Maduro. "O governo buscou estabelecer pontes com outros governos em busca de medicamentos e vacinas, como foi com a Rússia, e com a China, dois aliados importantes do governo Maduro".

    Ao concluir sua argumentação, Rafael Araújo fez um alerta. "O governo Maduro adotou medidas corretas, mas isso não impede que levantemos suspeitas sobre os dados divulgados pelo país".

    O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, faz pronunciamento em Caracas, na Venezuela.
    © REUTERS / Manaure Quintero
    O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, faz pronunciamento em Caracas, na Venezuela.

    A COVID-19 na América Latina

    Ao comentar sobre a crise sanitária na América Latina, o professor enfatizou que as acusações de Maduro não ajudam em nada a superação da crise que a gente vive com a COVID-19.

    Ele não acha que o assunto deva ser politizado, e cita que apesar da América Latina ser o epicentro da pandemia no momento, principalmente em função do Brasil, é preciso maior união. Ele se referiu, em um exemplo, a possíveis acordos coletivos para criar condições de enfrentamento comum à pandemia.

    "O Paraguai assistiu a um levante popular nas últimas semanas em razão da ineficiência no combate à pandemia, e o próprio Brasil, com a Fiocruz dizendo na semana passada que estamos vivendo a maior crise sanitária de nossa história".

    Contudo, ele afirmou que, tratando-se de Nicolás Maduro e Jair Bolsonaro, a situação é mais difícil.

    "São duas lideranças de perfil autoritário, que muitas vezes se embebedam de suas retóricas e não conseguem enxergar a realidade. Me parece que, apesar do bom senso fazer com que o imperativo da cooperação prevaleça, eu não duvido que haja mais um round político entre Bolsonaro e Maduro", disse Rafael Araújo.

    'Não é apenas uma questão política'

    O professor entende que, após as declarações de Maduro na noite de ontem (21), há outras lições que podem ser entendidas. "Não se trata apenas de uma questão política a presença da variante brasileira do coronavírus na Venezuela, e todas as disputas que isso pode gerar", afirmou.

    Ele entende que o governo do Brasil foge do seu papel de liderança continental. "Com Bolsonaro e o ministro Ernesto Araújo, o Brasil se tornou, infelizmente, um anão diplomático. Perdemos a capacidade de liderança na América do Sul".

    Ainda segundo ele, o "Brasil deveria ser o líder, mas é conhecido mundialmente como um território de terraplanistas e negacionistas".

    Chanceler Ernesto Araújo ao lado do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo
    © Folhapress / Paulo Guereta / Photo Premium
    Chanceler Ernesto Araújo ao lado do presidente Jair Bolsonaro em São Paulo

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    relações diplomáticas, relações bilaterais, Venezuela, Nicolás Maduro, Jair Bolsonaro, pandemia, Brasil, COVID-19
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