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    Situação com coronavírus no Brasil em meados de março de 2021 (116)
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    O Ministério da Saúde assinou na sexta-feira (12) passada um contrato para compra de dez milhões de doses da vacina russa Sputnik V. O imunizante ainda não possui aval da Anvisa para uso emergencial.

    Mas, nesta segunda-feira (15), foi divulgado que o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA confirmou publicamente que pressionou o Brasil contra a compra da vacina russa. Para isso, o órgão teria usado suas relações diplomáticas na região das Américas para reduzir as negociações das nações.

    ​Com o intuito de discutir esse tema e as implicações de tal pressão, a Sputnik Brasil conversou com Pedro Costa Júnior, professor de Relações Internacionais da Faculdade de Campinas (Facamp) e autor do livro "Colapso ou Mito do Colapso?"

    Perguntado sobre o cenário de escassez de vacinas no país e de quem seria o "culpado" pelas vidas brasileiras perdidas devido ao ritmo lento de imunização o especialista respondeu não ter muita certeza se a palavra é "culpa": "Não gosto muito dessa palavra. Acho que a palavra é responsabilidade [...] Mas sem dúvida nenhuma, com relação ao fracasso da campanha de vacinação no Brasil, os principais responsáveis são o Poder Executivo, o Ministério da Saúde, que vão ficar marcados na História, e o presidente da República, por causa da maneira como ele conduziu essa campanha".

    "O Brasil está entre os líderes em todos os rankings, aos proporcionais em relação ao número da população no mundo, e tem não só números objetivos que expressam isso, que demonstram a incompetência do Poder Executivo, em vários aspectos da condução dos assuntos relativos à pandemia", avaliou Pedro.

    Relação Brasil-EUA

    Em termos de relações internacionais e bilaterais entre Brasil e EUA, o professor disse que se pode analisá-la dizendo, primeiro, que o governo de Jair Bolsonaro, na gestão do chanceler Ernesto Araújo, tomou uma decisão muito clara, de apostar tudo no governo de Donald Trump.

    "Não tivemos nenhuma recíproca, em termos de ganhos objetivos nessa relação bilateral. Ao mesmo tempo que oferecemos pra eles tudo, não tivemos deles nada, isso é um fato objetivo. Não tivemos nenhum acordo preferencial da parte deles, não tivemos o envio preferencial de nenhum tipo de suporte com relação à pandemia. Quando vem o governo [de Joe] Biden a situação se torna muito delicada, muito mais complexa e muito mais problemática, porque o Brasil fica muito mais isolado no sistema do mundo", explicou Pedro.

    Daí em diante, declarou o especialista, o Brasil passou a ser, "como o próprio Ernesto Araújo disse", uma espécie de pária. "A nova gestão democrata nos EUA trata o Brasil do governo Bolsonaro com muita desconfiança, em uma relação bilateral muito difícil".

    O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello
    © Folhapress / Pedro Ladeira
    O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello

    Segundo o especialista, o governo Biden não vê o Brasil apenas com desconfiança, mas como esse "pária" internacional, por causa das questões ambientais, questões envolvendo declarações negacionistas, obscurantistas, até mesmo ligadas a direitos humanos. Tudo isso coloca o país numa posição muito delicada com esta gestão do Partido Democrata norte-americano e nesse novo tempo do mundo.

    Reação do Brasil em relação à pressão norte-americana

    "Em relação à pressão que os EUA exercem sobre o Brasil, sobre a vacina russa Sputnik V, não é mais uma novidade, pois é uma política permanente da potência hegemônica. A política deles é de combate, explícito contra a Rússia e mais recentemente, principalmente de uma década para cá, contra a China também. Combate contra a influência de Rússia e China naquilo que eles consideram sua zona de influência natural, que é a América Latina toda, mas também todo o eixo Atlântico, envolvendo a Europa ocidental, oriental, parte do sudeste asiático e África", avaliou Pedro.

    O professor de relações internacionais disse que existe uma disputa geopolítica pelas vacinas muito clara, pois os norte-americanos não querem que essa vacina entre não só nos EUA, mas também no Brasil, nos países da América Latina como um todo, apesar de ela já ter sido aprovada em mais de 30 países.

    Agentes da Saúde são vacinados com a vacina russa contra COVID-19, Sputnik V, em Buenos Aires, Argentina, 29 de dezembro de 2020
    © Sputnik / Presidência da Argentina
    Agentes da Saúde são vacinados com a vacina russa contra COVID-19, Sputnik V, em Buenos Aires, Argentina, 29 de dezembro de 2020
    A diplomacia das vacinas, a luta pelo poder de influência — não somente agora pelas armas, mas por outros meios — é muito forte hoje também. A China tem sua vacina, a Sinovac, já existem as norte-americanas, europeias e a russa. Há uma disputa por espaços, eles nunca ficam vazios na geopolítica do poder, eles sempre são ocupados. Agora, cabe ao Brasil pensar nos seus interesses nacionais, pensar no interesse do seu povo, não ficar do lado preferencial dos EUA, da Rússia ou da China que seja. O interesse da população é ser vacinada, não interessa de onde [a vacina] é, ela tem que ser eficaz", disse Pedro.

    Em relação ao contrato assinado para a aquisição da Sputnik V, o analista explicou que é difícil falar o que vai acontecer. Para ele, o contrato já está assinado, a vacinação no Brasil é muito lenta, a população está morrendo e precisa de vacinas.

    "Espera-se que o contrato seja honrado e essas vacinas possam chegar e a população possa ser vacinada. Agora, levando em consideração que a pressão norte-americana é muito forte e que esse governo brasileiro é muito fraco nunca se sabe o que pode acontecer", finalizou o professor.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Sputnik V, vacina, COVID-19, pandemia, saúde, Brasil
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