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    Nesta segunda-feira (8), mulheres de todo o mundo rememoram a luta pelos direitos femininos na data simbólica do Dia Internacional da Mulher.

    Esta é a primeira vez em que o dia é celebrado em meio à pandemia de COVID-19, já que a Organização Mundial da Saúde decretou a doença como pandêmica globalmente no dia 11 de março de 2020.

    A pandemia trouxe com ela a crise econômica: no Brasil, o PIB desmoronou, o desemprego aumentou, assim como a inflação e a desigualdade social. Neste contexto, as mulheres brasileiras também enfrentam uma crise sem precedentes. Cada vez mais, elas são a principal fonte de renda dos lares onde moram. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de casas chefiadas por mulheres no Brasil saltou de 25% em 1995 para 45% em 2018.

    A reportagem da Sputnik Brasil foi às ruas do Centro do Rio de Janeiro para ouvir o que as mulheres têm a dizer sobre esta data, nesta conjuntura.

    Bárbara Nascimento, que é professora da rede pública e membro do coletivo Favela no Feminino, no Vidigal, no Rio de Janeiro, é uma das mulheres que fazem parte desta estatística. Seu marido, que faz reparos técnicos em eletrodomésticos, teve a renda prejudicada pela pandemia: Bárbara acabou virando quase a única fonte de renda do lar.

    "Nas favelas, quem lidera as famílias, quem é responsável pelo sustento das famílias, são as mulheres. Porque muitas vezes não existe a figura paterna, e quando existe é omissa. […] As mulheres são as matriarcas da favela. Essas mulheres, quando não têm renda, as famílias também não têm renda", diz Nascimento, em entrevista à Sputnik Brasil.

    Os dados mostram também que as dificuldades da pandemia são ainda mais fortes para as parcelas mais vulneráveis da sociedade. Uma pesquisa da Sempreviva Organização Feminista mostra que 58% das mulheres que ficaram desempregadas durante a pandemia no Brasil são negras. Além disso, dados de 2018 do IBGE revelam que 12,755 milhões de pessoas no Brasil vivem em arranjos familiares formados por um(a) único(a) responsável, sem cônjuge, e com filhos de até 14 anos. Desse total, em 90,3% dos domicílios a responsável é a mulher. Dentre estas, 67,5% são pretas ou pardas.

    "Pensar no 8 de março não é somente pensar em um recorte de gênero, mas trazer a reflexão para o contexto também de raça e de classe", destaca em entrevista à Sputnik Brasil Aline Barbosa, mulher preta, mãe solo de dois filhos, professora e moradora de Embu das Artes, em São Paulo.
    Grupo de mulheres na favela do Salgueiro, no Rio de Janeiro, em foto de 18 de janeiro de 2003.
    Grupo de mulheres na favela do Salgueiro, no Rio de Janeiro

    Outra dificuldade trazida pela pandemia foi o acúmulo de tarefas em casa. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2020 revelou que 57% das mulheres que passaram a trabalhar em regime de home office relataram que acumulam a maior parte dos cuidados com a casa; no caso dos homens o percentual é de 21%. Barbosa destaca que, em casa, ainda há o desafio de ajudar os filhos no ensino remoto: "Muitas vezes, sem recursos tecnológicos, as crianças deixam de realizar suas atividades e acabam sem o direito do acesso a educação".

    Quem também enfrenta situação parecida em casa é a advogada e professora Lorena Martins, que faz parte dos coletivos MAPA, Coletes Rosas, TamoJuntas, RAPP e OABMulher. Além de acumular as funções de duas profissões, a mãe cuida da casa e de uma criança de um ano – e ressalta que sente pressão para não reclamar ou não se sentir estafada.

    "Toda vez que nós, mulheres, 'ousamos' questionar ou desabafar sobre as dificuldades enfrentadas quase sempre escutamos que 'não deveríamos dizer isso pois parece que não amamos nossas crias'. Como se não fosse possível ficar cansada de correr atrás da criança, fazer comida, participar de audiências e reuniões on-line enquanto amamenta e por aí vai. A pandemia mostrou que somos mais patriarcais do que pensávamos", diz Martins, em entrevista à Sputnik Brasil.
    Mulher em home office, em São Paulo, em foto de outubro de 2008.
    Mulher em home office, em São Paulo

    No Brasil, o auxílio emergencial trouxe um alento às famílias mais necessitadas durante a crise da pandemia. A proposta inicial do governo de distribuir R$ 200,00 para a população subiu para R$ 600,00 por pressão dos movimentos sociais e pelo jogo político no Congresso. Para as famílias chefiadas por mulheres, sem cônjuge no domicílio, o valor sobe para R$ 1.200,00.

    "Muitas mulheres aqui na favela receberam o auxílio emergencial e foi muito importante. […] Esse dinheiro é para subsistência, mesmo, para a compra de mantimentos para a casa. E não dava conta", diz Nascimento.

    Diante de todas as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, especialmente no contexto da pandemia, a maioria delas concorda: esta não é uma data para ser comemorada. Trata-se, no entanto, de uma lembrança de que a luta feminina deve ser reverenciada.

    "Foram as mulheres quem descobriram o RNA do novo coronavírus. Então, neste cenário pandêmico, mais do que nunca, as mulheres precisam ser louvadas", diz Nascimento, referindo-se ao sequenciamento do genoma do novo coronavírus, decifrado por duas brasileiras.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    feminismo, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, Dia Internacional da Mulher, Brasil, auxílio, economia, novo coronavírus, pandemia, COVID-19
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