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    Brasil lidando contra COVID-19 no final de janeiro de 2021 (92)
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    O comércio entre Brasil e Estados Unidos teve o seu pior resultado em 11 anos ao longo de 2020, em meio à pandemia da COVID-19. Para discutir as razões que levaram à queda do comércio bilateral entre os países, a Sputnik Brasil ouviu Roberto Moll, professor de História da América na UFF.

    Um dos pontos mais repetidos pela administração do presidente brasileiro Jair Bolsonaro (sem partido) é de sua orientação geopolítica em relação aos Estados Unidos, principalmente durante o governo do ex-presidente do país, Donald Trump. Apesar disso, ao longo de 2020, o comércio entre Brasil e EUA registrou queda acima da média em relação aos outros países. Segundo levantamento da Câmara de Comércio Brasil-EUA (Amcham Brasil), o comércio entre os países teve, no ano passado, o pior resultado em 11 anos.

    Conforme os dados do governo brasileiro, a soma de exportações e importações entre os países caiu 23,8% em relação a 2019. Além disso, houve um déficit na balança comercial para o Brasil de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 13,67 bilhões), com queda de 27,8% nas exportações e recuo de 19,8% nas importações.

    Entre os motivos dessa diminuição do comércio bilateral estão a queda do preço do petróleo e o impacto da pandemia da COVID-19. Mas essas não são as únicas razões para a desaceleração das trocas entre os dois países. É o que afirma Roberto Moll, professor de História da América na Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança, na mesma instituição.

    "Há outro fator que a gente precisa considerar. A política comercial do governo Donald Trump insistiu o tempo todo em uma abertura econômica dos outros países, mas em um protecionismo muito grande em alguns setores da economia estadunidense", explica o pesquisador em entrevista à Sputnik Brasil.

    Moll recorda que Trump chegou a anunciar sobretaxas sobre produtos brasileiros, como o aço e o alumínio. Além disso, foram estabelecidas cotas para a importação do etanol do Brasil.

    "Esses elementos tiveram impacto muito grande nessa relação comercial, principalmente nas exportações do Brasil para os Estados Unidos", afirma.

    Ao longo do período em que Trump esteve no poder, o presidente brasileiro sempre deixou claro sua simpatia com o republicano. Ambos se encontraram em mais de uma oportunidade e Bolsonaro deixou claro, inclusive, seu apoio à reeleição do norte-americano. Para o professor Moll, no entanto, essa proximidade não tem impacto nas relações econômicas.

    "Essas relações de amizade não se sobrepõem aos interesses locais, das forças econômicas locais. No caso dos Estados Unidos, há setores da economia estadunidense que têm sido extremamente protecionistas e feito pressões protecionistas nas últimas décadas", aponta.

    Impacto da vacinação e governo Biden

    Uma das esperanças de retomada da economia mundial está no sucesso da vacinação contra a COVID-19. Nos EUA, a imunização contra o novo coronavírus começou em meados de dezembro de 2020 e já deu a primeira dose do imunizante a mais de 21 milhões de cidadãos, segundo dados do site Our World in Data. Já no Brasil, a vacinação teve início há pouco mais de uma semana e cerca de 700 mil pessoas receberam a primeira dose da vacina. O processo de vacinação pode ser um fator de virada nas relações entre os dois países, segundo aponta o pesquisador Roberto Moll.

    "Acredito que a vacinação, a retomada da economia, a remissão da pandemia, poderão dar, sim, um fôlego econômico para as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, sobretudo para as exportações do Brasil para os Estados Unidos. Esse fôlego econômico e comercial, em grande medida, vai seguir o ritmo da retomada comercial, econômica, das trocas globais, caso a pandemia seja realmente redimida, debelada", aponta.
    Presidente dos EUA, Joe Biden, adota novas restrições para combater a COVID-19, em Washington, EUA, 21 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Jonathan Ernst
    Presidente dos EUA, Joe Biden, adota novas restrições para combater a COVID-19, em Washington, EUA, 21 de janeiro de 2021

    Apesar disso, o pesquisador acrescenta que as relações entre Brasil e EUA não devem melhorar muito, uma vez que há pressões internas protecionistas de setores da economia norte-americana. Esse cenário deve permanecer durante o governo do presidente recém-empossado dos EUA, Joe Biden.

    "É muito possível que o governo Joe Biden faça uma pressão sobre o Brasil, inclusive em setores agrícolas da economia brasileira, para uma maior atenção da proteção do meio ambiente. Essa é uma pauta muito cara ao Joe Biden, não só em relação aos grupos jovens que o apoiaram [...], mas também em relação a determinados setores da economia agrícola estadunidense que veem o Brasil tirando vantagem comercial da devastação de biomas e florestas" disse o professor, acrescentando que Biden não deve desfazer medidas protecionistas sobre o Brasil, herdadas do governo Trump.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil lidando contra COVID-19 no final de janeiro de 2021 (92)

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    Tags:
    Jair Bolsonaro, Donald Trump, Joe Biden, COVID-19, Brasil, Estados Unidos
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