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    Brasil lidando contra COVID-19 no final de janeiro de 2021 (92)
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    Com as aulas praticamente paralisadas desde o início do ano passado, autoridades tentam encontrar uma solução para fazer dois anos letivos em um. Mas será que já é o momento?

    Com o início da vacinação contra a COVID-19, a pergunta é se a hora de programar o retorno às aulas presenciais chegou. Qual o período estimado para que se tenha uma imunização da população suficiente para garantir a segurança do retorno às aulas presenciais?

    Mesmo antes do início da vacinação, diversos municípios já tinham programado o retorno das aulas presenciais para as próximas semanas.

    Professora dá aula para alunos do ensino médio em escola de Lisboa, em maio de 2020
    © Foto / AFP / Patricia de Melo Moreira
    Professora dá aula para alunos do ensino médio em escola de Lisboa, em maio de 2020

    Para falar sobre o tema, a Sputnik Brasil conversou com Ítalo Cúrcio, professor e pedagogo, coordenador do curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

    "Tenho uma contínua preocupação e apreensão quanto ao grave momento histórico que a humanidade está passando. Embora o ser humano tenha progredido tanto em várias áreas do conhecimento, as divergências continuam a ser muitas. O debate é sempre bem-vindo. Com a chegada da vacina devemos sim debater o tema se é possível a volta às aulas presenciais, o debate é imprescindível, porém com propostas e soluções, e não divagações", introduziu o tema o professor.

    Para ele, esse debate deve girar em torno de se desenvolver um plano de retomada do ensino e da educação com vistas à reparação de sequelas que foram deixadas pela crise sanitária, com um projeto pedagógico atual, voltado para a nova realidade.

    "Em educação não há espaço para o improviso, a tentativa e erro deve ser evitada ao máximo, porque os danos são imprevisíveis, irreparáveis", avaliou o especialista.

    Dois anos letivos em um

    Para Cúrcio, a educação vai além do ensino, e não existem perdas, mas "ganhos menores". Ele disse que muita gente aprendeu com a crise, apesar de muitos pensarem apenas nos currículos escolares que não foram cumpridos no ano de 2020, "mas educação não é somente vestibular e Enem, é muito mais que isso".

    "Numa situação de crise, devemos sempre pensar nas prioridades. Eu entendo que a prioridade é a preservação da vida, as outras prioridades vêm depois. Eu entendo que a recuperação [da educação] não será fazendo um 'dois em um', isso não funciona, como pesquisador da educação eu entendo que a reposição do conteúdo deve se dar ao longo dos próximos anos", disse Cúrcio.

    Ele lembrou que educação é formação, para que quando o indivíduo chegar à idade adulta seja um profissional competente, pronto para a realidade social da sua época. O que importa é construir um novo projeto pedagógico para essa nova realidade. "Eu não acredito no 'dois em um', eu defendo um novo projeto pedagógico, realista, com o que temos na contemporaneidade, e daquilo que se pretende para o futuro".

    Imunização e segurança para o retorno às aulas presenciais

    "Eu entendo que retornar às aulas presenciais apenas pra dizer que voltamos não é bom, a volta deve ser feita em primeiro lugar com segurança, para os alunos, profissionais de educação e os familiares desses alunos, o universo de pessoas é muito grande", opinou Cúrcio.

    Ele reiterou a importância da elaboração de um novo projeto pedagógico, e não um retorno na base da tentativa e erro, pois "isto é perigoso". O especialista explicou que se trata agora de uma sindemia, não apenas uma pandemia, onde vários setores estão sendo impactados pela contaminação com o novo coronavírus.

    ​​"É preciso vacinar os profissionais da saúde, precisamos vacinar os profissionais da educação, queremos voltar às aulas e não vamos vaciná-los? Isso é inadmissível. Vacinar os idosos e aqueles que tem comorbidades. Quando juntarmos esses grupos, vacinados, seguros, com a certeza de que esta população está protegida, as aulas deverão voltar, mas voltar com toda a segurança", completou o pedagogo.

    Segundo ele, havendo vontade política isto pode ocorrer até a metade do ano, para que em agosto as aulas voltem com atividade praticamente plena.

    Municípios já programaram retorno das aulas presenciais

    Em relação à notícia de que muitas cidades já programaram a volta às aulas nas próximas semanas, Cúrcio avaliou que a decisão é temerária: "Que segurança esses prefeitos dão aos profissionais da escola, aos alunos e aos pais?", se perguntou.

    "Será que vamos brincar de vai e vem? A situação explode aí paramos tudo abruptamente? Ou faremos de conta que voltamos presencialmente com oito ou dez alunos por sala? Se quisermos que todos voltem deveria haver um rodízio, e aí, como será ministrado o conteúdo? Umas poucas escolas particulares tem condições de fazer um trabalho muito bom, criando redes de ensino a distância para seus alunos, mas e as redes públicas? Elas possuem um contingente de profissionais para fazer esse revezamento?", avaliou o especialista.

    Cúrcio reiterou que é a favor da rápida vacinação massiva e da segurança para todos antes desse retorno, pois se não houver segurança será um "faz de contas com consequências terríveis".

    Aulas de forma remota

    Para o pedagogo as aulas ministradas de forma remota podem ser uma solução, mas tudo depende de um planejamento, pois todos foram pegos de surpresa, e tudo teve que ser improvisado.

    "Eu não posso avaliar o ensino remoto por aquilo que vimos em 2020, não posso dizer se ele é bom ou ruim, isso não é um ensino a distância conceitual, foi uma improvisação, graças a Deus pôde ser feito, mas não posso pensar que ensino a distância é isso", declarou Cúrcio.
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    Ele explicou que o ensino a distância já é praticado há muito tempo, havendo registros dessa modalidade datados do século 18 e que ele não mudou de conceito, sempre foi o ensino sem a presença física do professor ao lado do aluno, o que mudou foi o meio de transporte da mensagem.

    "Os cursos serão híbridos, porém com projetos pedagógicos bem elaborados, realistas, diante daquilo que queremos para hoje e para o futuro. Com um ensino remoto bem estruturado, é possível chegar a resultados espetaculares, só que mais uma vez eu digo: essa nova escola será híbrida", finalizou o especialista.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    novo coronavírus, COVID-19, pandemia, aulas, educação, Brasil
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