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    Brasil lidando contra COVID-19 no final de janeiro de 2021 (92)
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    Primeiros médicos vacinados no país relataram à Sputnik Brasil sensação de esperança e alívio com imunização, mas ressaltam que o processo será longo e foi dado apenas o primeiro passo.

    Na última quarta-feira (20), o infectologista Rodrigo Amâncio foi vacinado no local onde trabalha, o Hospital e Maternidade Santa Lúcia, no Rio de Janeiro. Ao receber a dose, o médico disse que teve um sentimento de alívio e esperança em, finalmente, ver uma vacina desenvolvida, fabricada, aprovada e sendo aplicada na população. 

    "Para mim foi uma questão de dar esperança. A gente ver que existe uma vacina que vai começar a circular. Uma sensação de alívio, mas não pessoal. Ficamos muito tempo sem uma vacina e agora a gente está vendo uma sendo implementada", disse o médico, que atua na UTI da Santa Lúcia. 

    No dia 17 de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial das vacinas CoronaVac e Oxford/AstraZeneca. A campanha de vacinação começou logo em seguida, respeitando cronograma estipulado pelo Ministério da Saúde, que dividiu a imunização por quatro grupos prioritários - antes do início da aplicação no restante da população. 

    "Vai demorar um pouco para todo mundo ser vacinado. Mas a questão maior da vacinação é dar uma esperança coletiva de que vamos conseguir superar essa questão. Nos próximos meses ou até o final do ano talvez a gente tenha uma vida mais ok", disse o infectologista, que também trabalha no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. 

    'Discussões que não se tinha antes'

    Sobre o temor de algumas pessoas em relação à vacina, Amâncio disse que, em campanhas anteriores, ninguém se preocupava em saber a taxa de eficácia de uma vacina e quem era seu fabricante. 

    "A gente tem discussões que não se tinha antes normalmente. Quando alguém tomava vacina para gripe não perguntava, 'ah, qual é o fabricante, qual é a eficácia?'. São perguntas que ninguém faz normalmente. Mas não precisa ter medo da vacina, ela é segura. Medo tem que ter é da COVID-19", disse Amâncio. 

    O início da campanha de imunização no Brasil está sendo feito com a CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês SinoVac. O presidente Jair Bolsonaro chegou a colocar em dúvida a qualidade da vacina e, em um primeiro momento, afirmou que o Brasil não compraria doses do produto.    

    O infectologista Rodrigo Amâncio recebe vacina contra a COVID-19 na Hospital Santa Lúcia, no Rio de Janeiro, onde trabalha no setor de UTI
    ©Acervo pessoal
    O infectologista Rodrigo Amâncio recebe vacina contra a COVID-19 na Hospital Santa Lúcia, no Rio de Janeiro, onde trabalha no setor de UTI

    'Vamos ter que tomar várias vezes na vida'

    A biomédica Renata Mendonça, que trabalha em um hospital de referência para o coronavírus em Santarém, no Pará, recebeu a primeira dose da vacina na última quarta-feira (20). Ela afirma que a aplicação da vacina contra a COVID-19 deveria ser encarada como algo rotineiro. 

    "Inclusive acho que será uma vacina que vamos ter que tomar várias vezes ao longo da vida. A gente precisa acreditar na ciência. Há tantos e tantos anos a gente toma vacina sem nem pensar, para pólio, tétano, gripe, um monte de coisa. Você não pensa naquilo porque acredita tanto que faz parte da sua rotina. Essa vacina tem que ser encarada da mesma forma. Não é em benefício próprio, é coletivo", afirmou a biomédica. 

    Mendonça disse ainda que se sentia uma "bomba relógio" por estar em contato direto com pessoas com a COVID-19, por isso sentia "medo o tempo todo".

    "Por trabalhar dentro de um hospital, a gente está sempre sendo imunizado. Mas essa vacina foi diferente. Fiquei oito meses sem ver ninguém da minha família, a não ser a distância", afirmou Mendonça. 

    'Só o 1º passo'

    Ao mesmo tempo, ela alerta que "tomar a vacina é só o primeiro passo".

    "Tem que esperar a segunda dose, esperar a imunidade. Mas acho que um passo extremamente importante foi dado. Saí dali com uma sensação de alívio, não de que está tudo resolvido, mas de que o primeiro passo para começar a resolver foi dado", disse a biomédica. 

    A enfermeira Mariana Gigante, que trabalha no Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói, também foi vacinada na quarta-feira (20). Ela disse à Sputnik Brasil que ficou "emocionada" ao receber a dose da CoronaVac. 

    "Sempre há o medo de desenvolver a forma grave da doença", disse Raposo. Por outro lado, ela lamentou que nem todos os profissionais de saúde foram imunizados 

    "Fico agradecida por ter sido vacinada. Mas parece que sou privilegiada. Nem todos os médicos e enfermeiras do hospital foram imunizados", disse. 
    A enfermeira Mariana Gigante exibe, orgulhosa, comprovante de vacinação contra coronavírus do SUS. Ela foi imunizada no Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói
    ©Acervo Pessoal
    A enfermeira Mariana Gigante exibe, orgulhosa, comprovante de vacinação contra coronavírus do SUS. Ela foi imunizada no Hospital Universitário Antônio Pedro, em Niterói

    Dados imprecisos

    Nas páginas do Ministério da Saúde não é possível ver o número de pessoas vacinadas até agora no Brasil. Segundo levantamento feito pela iniciativa Coronavírus Brasil junto às Secretarias estaduais de Saúde, já foram imunizadas quase 229 mil pessoas no país. 

    O início da campanha está sendo feito com lote de seis milhões de doses da CoronaVac. Outras 4,6 milhões de doses, que estão no Instituto Butantan, aguardam aval de uso emergencial da Anvisa para poderem ser distribuídas e aplicadas. 

    Nesta sexta-feira (22), após uma semana de impasse, uma carga de dois milhões de doses da vacina de Oxford, importadas a pedido da Fiocruz, devem chegar da Índia ao Brasil. No entanto, para iniciar a fabricação em larga escala, ainda é preciso registro definitivo da Anvisa e o recebimento de insumos trazidos da China, essenciais para a produção dos imunizantes, os IFAs (ingrediente farmacêutico ativo). 

    Ritmo preocupa

    O ritmo do processo preocupa a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ela acredita que, se os compostos demorarem demais a chegar, há risco de interrupção da campanha de imunização, o que traria sérias consequências. 

    "Se as IFAs demorarem a chegar, podemos ter uma parada entre o início da produção e a aplicação das novas doses nos grupos da primeira fase. Isso pode deixar grupos vulneráveis e profissionais de saúde de linha de frente mais expostos. Em alguns municípios pequenos a aplicação das primeiras doses foi finalizada. E agora, quando chega a próxima? Fica aquele vácuo…", disse a especialista à Sputnik Brasil. 

    Além disso, ela pensa que um atraso na vacinação pode "gerar mais desconfiança na população". 

    "Não temos nenhuma campanha de informação que explique como tudo vai ocorrer. Em geral, processos de vacinação são precedidos por grandes campanhas publicitárias", criticou Ethel Maciel.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Brasil lidando contra COVID-19 no final de janeiro de 2021 (92)

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    Instituto Butantan, Fiocruz, Vacina CoronaVac, vacina, Brasil, pandemia, COVID-19, novo coronavírus
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